Pesada derrota nas intercalares poderá tornar Donald Trump ainda mais imprevisível. Os especialistas ouvidos pela CNN Portugal não excluem uma reação extrema do presidente, incluindo ações militares. Ao mesmo tempo, abre-se um novo desafio para os republicanos: como preparar o partido para as eleições presidenciais de 2028?
"Não podemos excluir a possibilidade de Donald Trump acordar amanhã e decidir bombardear alguém ou algum alvo, até mesmo na Europa". O alerta é de Maria Luísa Moreira, especialista em geopolítica, que antecipa uma reação imprevisível do presidente norte-americano depois da derrota expressiva dos republicanos nas eleições intercalares de 2026.
"A humilhação deverá estar a ser tão grande, que alguém há de pagar o preço", sublinha a especialista. "Donald Trump vai fazer tudo para que a responsabilidade final não recaia sobre si ou sobre a sua família. Haverá despedimentos entre as pessoas próximas. A Europa também poderá ser alvo de chantagem.”
O perigo, no entanto, pode não ficar por aí. Kiev também deve sofrer as consequências de uma eleição surpreendente. “Do lado da Ucrânia não vejo, a partir de agora, grandes mudanças. Pelo contrário.”
Maria Luísa Moreira explica que a derrota de Trump "abre espaço para que pressione ainda mais" a Ucrânia e "intensifique as chantagens" sobre o país em guerra. "Donald Trump vai querer demonstrar que continua a ter poder, sobretudo nas áreas em que ainda mantém capacidade de decisão. A política externa é uma delas, onde continua a ter uma palavra importante a dizer. Através de ordens executivas, como já vimos, também procurará garantir que tem a última palavra em muitas destas matérias", acredita.
A vitória dos democratas, que conquistaram o controlo da Câmara dos Representantes e do Senado, representa um duro golpe para Donald Trump e coloca o presidente perante um Congresso que terá agora capacidade para fiscalizar a sua administração, lançar investigações e bloquear nomeações.
Depois de 22 meses em que beneficiou de um Congresso dominado pelos republicanos e de pouca resistência institucional, Trump enfrentará agora uma oposição reforçada nos últimos dois anos de mandato.
Com os republicanos obrigados a repensar o futuro do partido e os democratas perante a oportunidade de consolidar a vitória, os próximos dois anos serão marcados pelo confronto entre a Casa Branca e o Congresso. Entretanto, a corrida às presidenciais de 2028 começa a ganhar forma, embora nenhum dos partidos tenha ainda uma candidatura claramente definida.
A derrota dos republicanos tem um nome
A derrota republicana nas eleições intercalares de terça-feira tem, acima de tudo, um protagonista: Donald Trump. É essa a leitura de Nuno Gouveia, especialista em política norte-americana, que atribui diretamente ao presidente a responsabilidade pelo resultado histórico dos democratas. "O principal responsável por esta grande vitória do Partido Democrata é Donald Trump e as suas políticas", afirma.
Depois de dois anos repletos de polémicas que em nada agradaram aos norte-americanos, os democratas conseguiram aproveitar a quebra de popularidade do presidente para conquistar uma vitória expressiva, com resultados em estados tradicionalmente conservadores e uma mudança histórica no controlo das duas câmaras do Congresso.
Apenas por duas vezes nos últimos 50 anos tinha acontecido uma alteração simultânea das maiorias na Câmara dos Representantes e no Senado. O resultado encerra um período de 22 meses marcado pela concentração de poder na presidência e pela ausência de uma oposição parlamentar capaz de contrariar as decisões da administração Trump.
O especialista considera que a quebra da popularidade de Trump, já antecipada pelas sondagens, acabou por refletir-se nas urnas, sobretudo devido às consequências de algumas das suas políticas.
"Algumas das suas políticas que levaram a um aumento do custo de vida e em contrário daquilo que Donald Trump teria prometido em 2024 terão provocado esta reação do eleitorado americano contra os candidatos do seu partido", explica.
A rejeição não se limitou, contudo, às políticas presidenciais. Também as escolhas de candidatos feitas por Trump acabaram por prejudicar os republicanos, numa eleição em que os democratas conseguiram conquistar terreno em estados onde a vitória parecia particularmente difícil.
Texas, Alasca e Kansas estão entre os territórios tradicionalmente conservadores onde o Partido Democrata conseguiu impor-se. Para Nuno Gouveia, o resultado eleitoral traduz um "repúdio" das políticas do presidente e demonstra que os eleitores estão descontentes com o rumo do país.
"Além de repudiarem Donald Trump, os eleitores repudiaram também os candidatos escolhidos pelo próprio”, sublinha. “Em alguns destes estados mais conservadores, como o Texas e a Carolina do Sul, os candidatos foram apoiados por Trump, muitas vezes contra escolhas mais convencionais, que poderiam ter tido outro resultado."
O especialista apresenta o caso do Texas que, na sua visão, tornou-se "paradigmático”. “O atual senador John Cornyn é um senador respeitado e acreditava-se que facilmente teria vencido esta eleição. Mas Donald Trump decidiu apoiar outro candidato nas primárias. Os eleitores não seguiram essa opção e foram severamente penalizados, nas urnas”, exemplifica.
Ainda assim, os resultados mostram que tanto os democratas mais centristas como os mais à esquerda conseguiram capitalizar a noite eleitoral. Na Carolina do Norte, por exemplo, Roy Cooper, antigo governador do estado, venceu facilmente. No Michigan, Abdul El-Sayed, associado à ala mais à esquerda, conquistou um lugar no Senado, tornando-se o primeiro senador muçulmano dos Estados Unidos.
Nuno Gouveia considera que ambas as correntes do Partido Democrata saíram reforçadas e, nos próximos meses, irão disputar os méritos da vitória.
"Ambas as alas elegeram mais candidatos e mais membros do que tinham antes", aponta, acrescentando que "tanto os mais centristas como os mais à esquerda do Partido Democrata vão reclamar para si os louros desta vitória".
Maria Luísa Moreira identifica também uma rejeição mais profunda do movimento MAGA e da forma como este tem influenciado o Partido Republicano. Na sua análise, os eleitores começam a demonstrar cansaço perante uma política marcada pelos extremos e pela lealdade incondicional ao presidente.
"O movimento MAGA esticou a corda demais e as pessoas, ou seja, os moderados, começam a perceber que não vale tudo na política", defende a especialista em geopolítica, acrescentando que “a lealdade a Trump deixou de ser suficiente” para garantir a confiança dos eleitores, sobretudo quando está em causa a competência dos candidatos e o interesse nacional.
Maria Luísa Moreira considera que os norte-americanos começam a querer recuperar uma discussão política centrada nos problemas concretos, em vez de continuarem presos a confrontos ideológicos e identitários.
"As pessoas querem a conversa que resolva os problemas e que discuta as políticas públicas", indica, referindo que o resultado eleitoral representa também "um voto para a integridade".
Os próximos dois anos de Trump
Com o controlo do Congresso nas mãos dos democratas, Donald Trump terá de enfrentar uma oposição com capacidade para condicionar significativamente a sua administração. A nova maioria permitirá intensificar a fiscalização presidencial, abrir investigações e bloquear nomeações, numa mudança que retira ao presidente a liberdade de que beneficiou durante os primeiros 22 meses do mandato.
Nuno Gouveia considera que o Congresso deverá assumir um papel particularmente interventivo, sobretudo perante as acusações de falta de transparência, corrupção e abuso de poder que têm marcado a administração republicana.
"O Partido Democrata, com esse poder nas duas câmaras, irá certamente lançar muitas investigações à administração Trump e ao círculo de Donald Trump", antecipa.
O especialista recorda que, durante os últimos dois anos, foram levantadas várias acusações envolvendo a administração e pessoas próximas do presidente. Com o controlo da Câmara dos Representantes e do Senado, os democratas terão agora mais capacidade para investigar os casos que considerarem relevantes e intimar testemunhas.
"Irá exercer o seu papel de fiscalização de uma forma muito ativa", destaca.
Uma das consequências mais significativas da mudança de maioria será sentida no Senado, responsável pela aprovação de nomeações judiciais e de vários cargos da administração. Os democratas poderão bloquear candidatos escolhidos por Trump, incluindo eventuais nomeações para o Supremo Tribunal caso surja uma vaga durante o mandato.
"Se surgir uma vaga no Supremo Tribunal, Donald Trump não terá a mínima hipótese de aprovar um juiz até sair da Casa Branca", considera Nuno Gouveia.
Também para os restantes cargos da administração o presidente terá maiores dificuldades, podendo ser obrigado a negociar com a oposição ou a apresentar nomes mais consensuais.
Ainda assim, o especialista ressalva que Trump não perde os poderes que lhe permitem controlar o executivo e conduzir a política externa norte-americana.
"Donald Trump continua a ter o comando do poder executivo nos Estados Unidos, continua a ter grande margem na política externa, pois o presidente é quem conduz a política externa do país", lembra.
O maior problema deverá estar na relação com o Congresso. Nuno Gouveia não acredita que Trump esteja disposto a mudar a sua postura e a procurar entendimentos com os democratas, embora o próprio presidente tenha admitido negociações com o partido da oposição ao longo da noite eleitoral.
"Donald Trump nunca teve grande disponibilidade para negociar com o outro partido. Portanto, não me parece que nestes últimos dois anos ele vá mudar isso", afirma.
O resultado, prevê, será um período de bloqueio político e de confrontos sucessivos entre a presidência e as duas câmaras. "Vamos ter um Congresso completamente paralisado, no fundo por esta falta de capacidade de diálogo do presidente", acredita.
Maria Luísa Moreira também considera que Trump deverá sair desta derrota mais combativo, apesar de ter assumido os resultados eleitorais e de não se terem registado episódios de violência ou protestos semelhantes aos que marcaram a contestação eleitoral anterior.
O desafio democrata
A surfar uma maré azul cada vez mais expressiva, os democratas tiveram motivos para sorrir na noite de terça-feira: sete estados fizeram história ao abandonarem a tradição histórica de votar nos republicanos.
De forma surpreendente, Carolina do Norte, Carolina do Sul, Ohio, Kansas, Iowa, Maine e Texas, viraram à esquerda. Neste último estado, James Talarico tornou-se o primeiro senador democrata eleito desde 1988, depois de uma campanha assente em propostas progressistas, como o aumento dos impostos sobre os mais ricos, o reforço do acesso aos cuidados de saúde e a expansão dos mecanismos de imigração legal.
Outro dos nomes da noite veio do norte: Abdul El-Sayed. O agora senador eleito pelos democratas derrotou o seu rival republicano Mike Rogers na corrida ao Senado dos EUA no estado do Michigan e vai tornar-se o primeiro senador muçulmano da história do país.
Com um ânimo renovado e uma confiança reforçada para as próximas eleições, as tão aguardadas presidenciais de 2028, os democratas enfrentam, no entanto, um desafio: “não adormecer”.
Maria Luísa Moreira alerta que os democratas não podem interpretar os resultados como uma garantia de sucesso nas presidenciais. "Os democratas não podem adormecer, têm de saber cavalgar esta onda e, dessa forma, reforçar a oposição e preparar o terreno para 2028", diz Maria Luísa Moreira.
A especialista em geopolítica considera, ainda assim, que o partido parte em vantagem em termos de entusiasmo e mobilização, mas terá de demonstrar que consegue transformar a vitória eleitoral em resultados concretos.
"Nos próximos dois anos vão ter de lidar com o poder de veto de Donald Trump", avisa.
Além disso, controlar o Congresso significa que os democratas poderão ser responsabilizados pelos problemas do país quando chegar a altura das presidenciais. Para Maria Luísa Moreira, será fundamental que o partido se concentre nas questões que estiveram no centro da campanha, nomeadamente a inflação e a habitação.
"Se nos próximos dois anos não se focarem em resolver os problemas das pessoas e políticas públicas, a questão da inflação, habitação, aqueles problemas identificados na campanha, daqui a dois anos os democratas também vão ter a sua acusação", aponta ainda.
Descendentes de Trump em risco
Tal como Trump, que se tornou a principal figura de culto da extrema-direita norte-americana desde que entrou na corrida presidencial, em 2016, também outros nomes conquistaram um lugar de destaque no movimento MAGA (Make America Great Again).
Entre eles está J.D. Vance, visto por muitos como o discípulo e sucessor natural do atual presidente, e apontado como potencial candidato às presidenciais de 2028. No entanto, à semelhança de Trump, também Vance poderá sair fragilizado dos resultados das eleições intercalares.
"Estas eleições prejudicam significativamente as ambições do Partido Republicano para 2028. J.D. Vance, o vice-presidente, é o favorito à sucessão de Donald Trump e sai, naturalmente, fragilizado destes resultados, uma vez que é o rosto, ou seria o rosto natural, do atual presidente para as eleições de 2028”, destaca Nuno Gouveia, sublinhando, no entanto, que “Marco Rubio, outro presumível candidato e também muito próximo de Trump, poderá sair menos prejudicado, já que, apesar de tudo, mantém uma ligação mais forte àquilo que era o Partido Republicano antes de Donald Trump".
O regresso dos republicanos tradicionais é uma hipótese que poderá salvar o partido de um abismo. Com os seus sucessores diretos surge, na visão do especialista, uma questão: irá ou não emergir alguma figura externa ao “trumpismo”?
“Parece-me difícil que isso venha a acontecer, uma vez que Donald Trump deverá continuar a ser a força dominante dentro do Partido Republicano, apesar da pesada derrota que agora sofreu", menciona.
Ainda assim, Nuno Gouveia coloca em cima da mesa dois nomes fortes do lado dos republicanos. "Em condições normais, seria bom surgir um nome fora do movimento MAGA. Um exemplo seria Nikki Haley, que, apesar de ter estado ligada ao movimento, foi candidata nas primárias contra Trump há dois anos.” Mas há outro forte nome forte que surge de fora da ala mais extremista do partido.
“O próprio Ron DeSantis, que emergiu no trumpismo, mas acabou por se afastar dessa linha nas eleições de 2024, poderá ser uma alternativa. Foi governador da Florida durante oito anos”, diz, lembrando que “curiosamente, uma das poucas boas notícias para os republicanos nestas eleições foi terem conseguido manter o poder no estado, apesar de não terem apresentado candidatos particularmente fortes".
Maria Luísa Moreira partilha a mesma leitura, mas não acredita que uma mudança de rumo no Partido Republicano seja fácil. A base MAGA continua fortemente mobilizada e, apesar da derrota eleitoral, mantém-se profundamente fiel a Donald Trump.
"Vai ser muito complicado passarmos do plano atual para um modelo republicano mais moderado, mais tradicional." Ainda assim, considera, " a única forma de os republicanos conseguirem fazer frente ao Partido Democrata será encontrar novas figuras capazes de assumir protagonismo".
A especialista acredita, contudo, que os resultados deixam uma mensagem clara para os candidatos republicanos: a proximidade a Trump poderá transformar-se numa desvantagem.
"Tudo o que traga resquícios da era Trump será, na minha opinião, um ativo tóxico. Foi isso que vimos nos resultados eleitorais: os candidatos apoiados por Donald Trump, mesmo quando beneficiaram desse apoio em detrimento de outros candidatos mais moderados ou com maior capacidade de integração, acabaram por perder”, recorda, defendendo que “o próprio Donald Trump se tornou um completo ativo tóxico".
Democratas com grande leque de opções
Do lado democrata, o cenário é diferente. O partido dispõe de um leque alargado de potenciais candidatos, mas ainda não tem uma figura consensual capaz de assumir a liderança da corrida presidencial.
Nuno Gouveia considera que a nomeação estará completamente em aberto. "É uma primária completamente em aberto. Não há nenhum candidato que as pessoas digam que este é o principal favorito."
Entre os nomes mais conhecidos estão Gavin Newsom, governador da Califórnia, e Kamala Harris. No entanto, o especialista considera que a antiga vice-presidente poderá ter dificuldades em conquistar a nomeação, "desde logo nas primárias".
A derrota de 2024 continua a pesar sobre Kamala Harris, sobretudo pela perceção, dentro de alguns setores democratas, de que a sua prestação durante a campanha terá prejudicado as possibilidades do partido.
"Há, no fundo, a convicção de muita gente que ela perdeu por causa da sua performance na campanha eleitoral", argumenta Nuno Gouveia.
O especialista considera ainda que, perante o aparecimento de novas figuras políticas, o eleitorado democrata poderá procurar uma candidatura diferente. "O clima do Partido Democrata está para algo diferente do que voltar ao passado", defende.
Entre os nomes que poderão ganhar força estão Jon Ossoff, senador da Geórgia, e Josh Shapiro, governador da Pensilvânia, ambos com resultados eleitorais que lhes poderão dar maior visibilidade. Andy Beshear, governador do Kentucky, é outra das figuras que Nuno Gouveia destaca, depois de conseguir vencer num estado profundamente conservador.
Na ala mais à esquerda, Alexandria Ocasio-Cortez poderá também assumir protagonismo. Contudo, existe a possibilidade de optar por uma candidatura ao Senado, em vez de avançar diretamente para a corrida presidencial.
Para Maria Luísa Moreira, a diversidade de possíveis candidatos representa simultaneamente uma oportunidade e um problema para os democratas. O partido tem várias figuras com capacidade para disputar a nomeação, mas ainda não conseguiu definir uma identidade política suficientemente clara.
"Os democratas têm um vasto leque de nomes possíveis, e esses nomes representam alas muito diferentes do Partido Democrata. Tanto que, em Portugal, poderiam estar em partidos diferentes", considera.
A especialista entende que essa falta de uma figura consensual poderá prejudicar a preparação para 2028, sobretudo se o partido não conseguir definir aquilo que pretende representar.