Estados que historicamente elegem candidatos conservadores preferiram representantes democratas
O Partido Democrata garantiu uma vitória esmagadora esta quarta-feira nas eleições intercalares, retomando o controlo do Congresso. O resultado demonstrou o descontentamento da população com as políticas do governo de Donald Trump e pode fazer soar um alerta na campanha republicana para a eleição presidencial em 2028, principalmente porque o partido foi derrotado em estados que há poucos anos eram tidos como uma vitória garantida.
O principal exemplo é o Texas, onde James Talarico venceu a corrida ao Senado com uma campanha centrada em propostas progressistas. O político, que nos últimos anos atuou como membro da Câmara dos Representantes do estado, promete diminuir os impostos para os trabalhadores e aumentar as taxas cobradas aos multimilionários e às grandes empresas. Além disso, quer aumentar a cobertura do Medicare (plano de saúde estatal) para todos os cidadãos e "proteger a fronteira, facilitar a entrada legal no país e impulsionar a economia".
Desde 1988 que um democrata não representava o estado no Senado. Na época, Lloyd Bentsen teve o apoio dos eleitores pela quarta vez consecutiva, deixando o poder legislativo para assumir a posição de secretário do Tesouro em 1993, na presidência de Bill Clinton.
A derrota republicana no estado não se limitou à disputa pelo órgão legislativo. Gina Hinojosa derrotou o atual governador Greg Abbott por uma margem considerável. Com 92% das urnas apuradas, a distância entre os candidatos é de mais de 660 mil votos.
Outros estados que costumam eleger candidatos republicanos também mudaram de lado esta quarta-feira. Há quase um século que o Kansas não escolhia um senador democrata e agora elegeu Adam Hamilton, enquanto a Carolina do Sul voltou a votar no partido de Kamala Harris depois de quase 30 anos, elegendo Annie Andews.
Este resultado pode fazer soar um alerta na campanha republicana já a pensar nas eleições presidenciais em 2028. Isto porque estes três estados são fundamentais para que o partido consiga a maioria dos votos nos colégios eleitorais, que depois decidem quem é o presidente.
O Texas é um dos estados mais populosos do país, garantindo assim 40 votos para o candidato do Partido Republicano; Kansas e Carolina do Sul, por outro lado, são consideravelmente menores, totalizando 15 votos. Um candidato presidencial precisa de pelo menos 270 votos para ser eleito, ou seja, o crescimento dos democratas em estados que costumam garantir 55 votos aos republicanos pode ser um sinal negativo para o partido.
Além disso, a vitória de Talarico demonstra que o discurso progressistas e temas de campanha associados à esquerda nos Estados Unidos são capazes de atrair eleitores mesmo em regiões mais conservadoras, como é o caso do Texas. Os ataques de Trump contra o candidato também foram pouco eficazes. O chefe de Estado utilizou as redes sociais em diferentes momentos para apoiar o republicano Ken Paxton e criticar o democrata, algo que não influenciou o resultado final.
A derrota histórica de Trump fez com que o presidente mudasse constantemente de posição ao longo da noite. Inicialmente, o chefe de Estado criticou a cobertura da Fox News e pareceu estar em negação sobre o que estes resultados demonstram sobre a opinião da população sobre a atual administração. "Os meus números estão melhores do que nunca", escreveu na TruthSocial. "Eu não estava no boletim e, se estivesse, teríamos obtido UMA VITÓRIA ESMAGADORA!", disse posteriormente.
Segundo uma sondagem da NBC News no fim de outubro, 60% da população desaprova o atual governo norte-americano, enquanto 40% aprova. Donald Trump, porém, não permaneceu em negação durante toda a votação. Numa entrevista ao New York Times, revelou: "Estou absolutamente disposto a aceitar estes resultados. Vamos colaborar com os democratas e, como sabem, estamos ansiosos por trabalhar com eles. Provavelmente chegaremos a um acordo".
Em 2028, Donald Trump não poderá concorrer à presidência novamente, uma vez que já cumpriu dois mandatos (2016-2020 e 2024-2028). A disputa dentro do Partido Republicano ainda está aberta, e nomes como JD Vance (atual vice-presidente) e Marco Rubio (secretário de Estado) são especulados como possíveis sucessores do atual líder da direita no país.