Mário Centeno alerta para défice que "ultrapassa os montantes de quando tivemos de chamar a troika" e ainda para algo "nunca visto" em Portugal
Antigo ministro das Finanças está "preocupado" com as necessidades de financiamento do Estado, por outro lado, que já alcançaram valores "verdadeiramente assustadores"
Mário Centeno avisou esta terça-feira, no seu espaço de comentário na CNN Portugal, que o Estado está perante “o maior défice desde 2010”.
“É uma reversão absolutamente extraordinária da trajetória de redução do défice do Estado, que operámos entre 2011 e 2023”, alerta o antigo ministro das Finanças no seu habitual espaço de comentário, Trigo do Joio, no Prime Time.
Segundo uma análise feita em antena, o Estado tem estado a “fragilizar a sua posição financeira”, tendo alcançado aquilo que o ex-governante classifica como um saldo “negativo e mais além”.
“O saldo era de 189 milhões de euros em 2023, um resultado impressionante. E o que está previso na proposta de lei do Orçamento do Estado para 2027 é 50 vezes superior: são 9.566 milhões de euros”, diz, explicando que o défice “está, de certa forma, escondido pelo bom comportamento das contas da Segurança Social”.
Cenário que o leva a mais um aviso: “É preciso que entendamos de uma vez por todas que o dinheiro da Segurança Social não paga despesa do Estado. É uma conta de poupança para pagar pensões e garantir a sustentabilidade do próprio sistema no futuro.”
Além disso, aponta, o país atravessa um momento em que a economia está a crescer. “Temos níveis máximos de emprego, isso significa que temos a receita de impostos muito elevada, que não vai durar para sempre, mas tudo com défice no Estado” - um que “ultrapassa os montantes que tínhamos quando tivemos de chamar a troika”.
Para Mário Centeno, um saldo negativo desta dimensão levanta “muitas questões sobre a sustentabilidade da trajetória que está a ser seguida”.
Quanto às necessidades de financiamento do Estado, o comentador da CNN Portugal não se mostra mais otimista, já que foram revistas no défice do Estado “em 33% para cima”.
“São mais 2.300 milhões de euros que não estavam assumidos como défice há apenas um ano e que agora estão. É muito preocupante que entremos num ciclo da subida da taxa de juro, de inflação, de crises múltiplas geopolíticas, geoeconómicas, desbaratando uma situação financeira que era de facto extraordinária em 2023, no sentido positivo do termo, em apenas três anos”, lamenta.
O ex-ministro fala mesmo num valor “verdadeiramente assustador”. “O montante é de 18.673 milhões de euros. O Estado está a pedir autorização para ter despesas em ativos financeiros de quase 6% do PIB, é um valor verdadeiramente assustador, que quase duplica em quatro anos”, sublinha.
Trata-se de algo “nunca visto na gestão orçamental em Portugal”, completa, chamando a atenção para “uma particularidade muito grande: é que não tendo nenhuma justificação para este aumento ele vai acrescentar à dívida tudo o que for feito.”