PERFIL || Tornou-se conhecida em dez minutos de televisão, viveu quase três anos com medo e nunca conseguiu eleger-se deputada. Aos 35 anos, a professora de Português e ativista anticapitalista acaba de vencer uma batalha judicial pelo direito de manter uma tenda no Rossio. “Eu prefiro ser professora”, garante. Entre a emigração, a precariedade, as manifestações e os tribunais, a história de Renata Cambra começou muito antes de chegar à praça onde agora desafia a interpretação do Ministério da Administração Interna
Quando regressava a casa depois das reuniões políticas, Renata Cambra nem sempre dizia ao motorista para onde ia. Pedia que a deixassem noutra morada, saía do carro, fingia entrar num prédio e esperava que ele arrancasse. Só depois seguia para casa.
Também começou a passear Arya, a cadela, a horas diferentes, a mudar de passeio quando alguma coisa lhe parecia suspeita e a espreitar para os automóveis estacionados, procurando perceber se havia alguém lá dentro. Numa entrevista ao podcast Dona da Casa, da RTP, em 2025, descreveu os cuidados que passaram a acompanhá-la: “Vou na rua e vou a olhar [para] os carros que estão estacionados, se há alguém dentro dos carros; ouço um barulho atrás, olho para trás para ter a certeza que não vem ninguém”. Às vezes conseguia esquecer o medo. Bastava uma notícia, uma audiência em tribunal ou um novo insulto para voltar a sentir-se em perigo.
A professora de Português aprendera a esconder a própria morada poucas semanas depois de se tornar conhecida em todo o país. Em janeiro de 2022, aos 30 anos, aparecera num debate da RTP reservado aos partidos sem representação parlamentar, em plena campanha para as eleições legislativas antecipadas. Era a nova porta-voz do Movimento Alternativa Socialista (MAS), um pequeno partido trotskista nascido de uma rutura com o Bloco de Esquerda, e tinha cerca de dez minutos para falar.
O debate costumava atrair espectadores mais interessados nas intervenções extravagantes dos pequenos partidos do que nas suas propostas. Renata falou da precariedade, dos salários, da habitação e da necessidade de “acordar a esquerda”, o lema de campanha do MAS. Fê-lo com uma segurança que surpreendeu muitos dos que a ouviam pela primeira vez. O seu nome tornou-se um dos assuntos mais comentados no Twitter, começaram a surgir convites para programas de televisão e entrevistas, e Joacine Katar Moreira, antiga deputada do Livre, anunciou que votaria no MAS porque queria ver Renata na Assembleia da República.
“Eu nem sabia que tanta gente via o debate dos pequenos partidos”, confessaria, pouco depois, no podcast A Beleza das Pequenas Coisas, do Expresso. De repente, reconheciam-na nos mercados, nas estações de comboios, nas áreas de serviço.
A notoriedade agradava-lhe pelo que podia representar para o partido, mas irritava-a que parte dos elogios se concentrasse na idade ou na aparência. Era uma mulher jovem, articulada, que gostava de política. Parecia suficiente para causar espanto. Na conversa com o Expresso, reagiu à maneira como era apresentada: “Eu também podia ser uma mulher e jovem, as pessoas até algumas acharem que eu sou bonita ou não sei o quê, mas se eu estivesse lá a dizer um conjunto de coisas completamente estapafúrdias, que não têm lugar nenhum na realidade, estava lá como estavam os outros todos”.
Preocupava-a ainda que, no meio de tantos elogios, se esquecessem das pessoas que trabalhavam com ela. O MAS tinha um programa e militantes que o discutiam muito antes de Renata aparecer na televisão. “Eu não estou a representar a mim, eu estou a representar todo um conjunto de pessoas”, lembrou na mesma entrevista.
Em fevereiro de 2022, Mário Machado, conhecido neonazi português, e Ricardo Pais trocaram mensagens no Twitter sobre a prostituição forçada de mulheres de vários partidos políticos. Renata foi a única identificada pelo nome. Teria, escreveram, “tratamento VIP”.
Soube das publicações através de uma amiga e camarada que lhe telefonou. Conhecia a atividade de grupos neonazis, participava em movimentos antifascistas e receou que alguém pudesse reconhecer-lhe o rosto e concretizar as ameaças. Quando recordou o episódio, três anos depois, não procurou relativizar o que sentira: “Senti-me ameaçada, verdadeiramente”.
Com a ajuda do advogado António Garcia Pereira, apresentou queixa-crime, a primeira da sua vida. Durante quase três anos, o processo acompanhou-a. Continuaram a chegar insultos e houve alturas em que pensou desistir.
No julgamento, chorou ao relatar o sofrimento provocado pelas mensagens. Não queria ter chorado. Na entrevista à RTP, ainda parecia incomodada com a lembrança: “Nem sequer queria ter dado essa satisfação”. A juíza registou a falta de empatia dos arguidos, que chegaram a sorrir enquanto a ouviam.
Em maio de 2024, Mário Machado e Ricardo Pais foram condenados por discriminação e incitamento ao ódio e à violência. A Relação confirmou, em dezembro, a pena de dois anos e dez meses de prisão efetiva aplicada a Machado, que começou a cumpri-la em maio de 2025. Em janeiro de 2026, um cúmulo jurídico com outra condenação resultou numa pena única de quatro anos de prisão.
No dia seguinte à decisão da Relação, Renata escreveu que, pela primeira vez em quase três anos, as mensagens de apoio ultrapassavam largamente os insultos. Estava satisfeita por não ter desistido, embora continuasse a tomar precauções quando saía à rua.
“Nós temos que deixar de normalizar o ódio e a violência”, defendeu no Dona da Casa, ao explicar por que razão não aceitava que ameaças de violação fossem desculpadas como brincadeiras. Tivera de contar em tribunal aquilo que o medo lhe fizera à vida, diante dos homens que acusava de a terem ameaçado. E conseguira que fossem responsabilizados criminalmente.
Uma tenda com nome próprio
Quase dois anos depois, Renata volta a recorrer à justiça. Desta vez, a questão é uma tenda.
O Tribunal Administrativo de Lisboa reconheceu-lhe, numa sentença proferida no domingo e conhecida esta segunda-feira, o direito de permanecer durante a madrugada no Rossio, com uma tenda utilizada como parte de uma manifestação pelo direito à habitação, até à votação final do Orçamento do Estado para 2027, prevista para 24 de novembro. A decisão surgiu depois das intervenções policiais contra as acampadas iniciadas em outubro, que levaram o ministro da Administração Interna, Luís Neves, a anunciar o fim dos acampamentos.
O tribunal considerou que o limite horário das 00h30 não pode ser aplicado de forma absoluta e automática ao direito de manifestação. Não apreciou, porém, a legalidade de uma ocupação coletiva do Rossio, nem reconheceu um direito geral à instalação de tendas por um número indeterminado de participantes.
O Ministério da Administração Interna entende que a decisão se refere apenas à situação individual de Renata Cambra. A ativista defende que o protesto pode continuar nos moldes em que decorria. Há ainda condições a cumprir: a manifestação deve ser pacífica, não pode produzir ruído entre a meia-noite e as 06h30, tem de deixar livres os acessos de emergência e a circulação pedonal e deverá ser compatibilizada com a instalação do Mercado de Natal.
Em 2022, Renata morava numa cave em Lisboa, num quarto com uma única janela e pouca luz natural. Não era a casa que desejava, mas era a renda que conseguia pagar. Conhecia os contratos de trabalho renovados de quinze em quinze dias, os empregos que terminavam sem aviso e a dificuldade de planear uma vida quando o salário mal chegava para as despesas.
“Sinto o sufoco. O sufoco existe e é real”, desabafou ao Expresso, ao falar dos amigos da sua geração, alguns já com filhos, que continuavam sem conseguir encontrar estabilidade. Também ela trabalhara em call centers, vendera serviços de telecomunicações de porta em porta e emigrara para conseguir ensinar.
Foi para a Galiza depois de terminar os estudos em Coimbra, durante os anos da troika. Viveu em Santiago de Compostela e em Vigo, onde trabalhou num call center enquanto prosseguia a formação. Sentia-se praticamente em casa. A língua, as pessoas e a familiaridade com os portugueses faziam-lhe bem.
A Alemanha recebeu-a de outra maneira. Chegou a Frankfurt para ensinar Português a estrangeiros e, durante um estágio universitário, teve de completar o rendimento com um emprego numa loja portuguesa. Aproveitava para praticar alemão, mas nem sempre gostava do que ouvia. Alguns clientes falavam dos portugueses como preguiçosos, corruptos ou incapazes de gerir o próprio dinheiro, por vezes sem perceberem que a empregada que os atendia era portuguesa. Outros percebiam e começavam a distinguir os estrangeiros do sul da Europa dos turcos ou dos europeus de leste, como se alguns merecessem estar ali mais do que outros.
“Senti-me sempre imigrante”, contou em A Beleza das Pequenas Coisas. Às vezes, acrescentou, até “europeia de segunda”. Frankfurt deu-lhe oportunidades profissionais, mas a condição de estrangeira acompanhava-a. Se tivesse ido para Berlim, admitiu, talvez tivesse ficado mais tempo.
Guarda boas recordações da cidade, sobretudo dos parques e dos esquilos, e de ter aprendido a andar de bicicleta já adulta. No princípio, tinha dificuldade em tirar uma mão do guiador para indicar que ia virar, fazia travagens inesperadas e levava buzinadelas. Recontou a aventura com humor: “Eu, no meu primeiro ano na Alemanha, sentia-me uma assassina porque não era capaz de tirar as mãos do guiador para dar sinal de pisca”. Ao fim de um ano, percorria Frankfurt de bicicleta com prazer.
Regressou a Portugal em 2019, preocupada com a saúde do avô, internado no Instituto Português de Oncologia. Tinha ido por seis meses e ficara três anos. Trouxe as malas, os objetos acumulados e uma guitarra que ainda toca com mais vontade do que prática. À CNN Portugal, durante a campanha eleitoral de 2022, resumiu o cansaço da emigração sem grandes rodeios: “Estava muito farta de ser estrangeira”.
Alice, as outras professoras e Coimbra
Queria ser professora de Português em Portugal, mas nem sempre quisera ensinar aquela disciplina. Nascida no Porto, em 1991, Renata cresceu em São João da Madeira e mudou-se, aos 14 anos, para Oliveira do Bairro, passando a estudar em Aveiro. É filha única da mãe e a mais nova das filhas do pai.
No secundário, teve três professoras que a marcaram, sobretudo nas disciplinas de Português, Literatura Portuguesa e Latim. Admirava-lhes a maneira de ensinar, de pensar e de discutir o mundo. Dedicou-lhes um conto distinguido num concurso literário escolar. Uma delas, Alice, apresentou-lhe Maria Teresa Horta, escritora que continuaria a acompanhá-la muitos anos depois.
Foi também naquela escola que começou a descobrir a política. Em 2008 e 2009, quando os professores contestavam as políticas educativas do Governo de José Sócrates, Renata integrava o conselho pedagógico como representante dos alunos. Assistia às reuniões em que as docentes questionavam o diretor, acusando-o de acompanhar as orientações do Ministério da Educação. Eram professoras de quem gostava e que, afinal, também estavam dispostas a enfrentar quem dirigia a escola.
Ao recordar essas reuniões numa entrevista à RTP, encontrou uma maneira simples de explicar o que lhe acontecera: “Comecei a ouvir coisas que nunca tinha ouvido e comecei a juntar as peças”.
Quando chegou à Universidade de Coimbra, em 2009, já queria participar. Tinha escolhido uma única opção, Estudos Clássicos, porque sonhava ensinar Latim, e entrara como primeira colocada. Mais tarde mudaria para Português, percebendo que dificilmente encontraria trabalho na área inicialmente escolhida.
Saíra da casa da mãe e do padrasto e estava determinada a aproveitar Coimbra para estudar, conhecer pessoas e envolver-se politicamente. Também tinha decidido que não participaria na praxe. Recusou logo no primeiro dia. Disseram-lhe que não teria amigos, que ninguém partilharia apontamentos e que seria difícil integrar-se.
A ameaça de ficar sem ajuda nas aulas não a impressionou particularmente. “Eu, por acaso, como era boa aluna, não tinha medo de não ter os apontamentos”, recordou, divertida, no Dona da Casa. A recusa aproximou-a de estudantes que também contestavam a praxe, levou-a à República Bota-Abaixo e depois à Prá-Kys-Tão, uma república universitária de tradição antipraxe.
Daqueles anos guarda amizades e histórias que ainda conta com indignação. Uma noite, viu um estudante a chorar depois de lhe cortarem as rastas numa ação de praxe. Recorda os caloiros obrigados a baixar os olhos e a obedecer aos mais velhos, os insultos e as ameaças de exclusão para quem não aceitasse participar.
Renata ainda se insurge contra a ideia de que humilhar alguém possa ser uma forma de o integrar na universidade. “Tu chegas e supostamente vais ser integrada, através da praxe, mas aquilo que estão a dizer é que tu és uma porcaria, que tens que olhar para o chão, não tens o direito de olhar a pessoa nos olhos porque vales menos do que a pessoa que já está lá só porque ela entrou um ano antes de ti.”
Continuou, apesar disso, amiga de pessoas que tinham participado na praxe e, anos depois, vivia com dois camaradas que tinham sido praxados e também tinham praxado. Às vezes provocava-os por causa disso.
Em Coimbra, participou na Frente de Acção Estudantil, foi porta-voz da lista Indigna-te, candidata à direção-geral da Associação Académica, e envolveu-se nas manifestações contra as propinas, os cortes nas bolsas e a austeridade. Criticava as direções académicas, que considerava demasiado próximas das juventudes partidárias, acusando-as de terem trocado a defesa dos estudantes pela organização de festas e pela preparação de carreiras políticas. Na entrevista à RTP, não poupou a expressão que costuma utilizar: “Comissões de festas”.
Renata recorda assembleias magnas em que estudantes ligados à praxe conduziam grupos de caloiros para votar contra propostas de manifestação. Não lhe parecia aceitável que quem acabara de chegar à universidade fosse pressionado a obedecer, também quando se tratava de decidir o que os estudantes deviam reivindicar.
Foi em Coimbra que entrou no Bloco de Esquerda, em 2009. Aproximou-se da corrente Ruptura/FER, crítica da direção, e participou no processo que daria origem ao Movimento Alternativa Socialista. Discordava da aproximação do Bloco ao Partido Socialista e acreditava que os anos da troika exigiam uma esquerda mais presente nas greves, nas manifestações e nos movimentos sociais.
A crítica acompanhou-a durante os governos de António Costa, sobretudo nos anos da geringonça. Responsabiliza o Bloco e o PCP por se terem acomodado à estabilidade governativa e por terem abandonado parte da mobilização social. As conquistas laborais e sociais, argumenta, nasceram da organização coletiva e da capacidade de pressionar quem governa. Continua a querer deputados eleitos pelo seu partido, mas entende que devem levar para o Parlamento as reivindicações de quem se organiza fora dele.
A escola que ainda acredita nos alunos
Quando regressou a Portugal, conseguiu finalmente colocação numa escola, depois de trabalhar em empregos precários, e mudou-se para Lisboa em abril de 2020. Deu aulas a alunos do terceiro ciclo, incluindo em estabelecimentos de territórios educativos de intervenção prioritária, onde encontrou crianças e adolescentes para quem a escola nem sempre parecia oferecer uma saída das dificuldades que conheciam em casa.
Gosta especialmente de ensinar entre o sétimo e o nono ano, uma idade em que os alunos começam a ganhar autonomia e a descobrir maneiras próprias de olhar para o mundo. Também podem ser difíceis, responder torto, provocar os professores e fazer-lhes perder a paciência.
No Dona da Casa, quando a conversa chegou às alegrias e às frustrações do ensino, não precisou de escolher entre umas e outras. “É uma montanha-russa. Tenho doses altamente concentradas de ambos, às vezes ao mesmo tempo, inclusive. Mas eu adoro ser professora.”
Nas escolas, Renata encontrou alunos que já não acreditavam que estudar lhes pudesse garantir um futuro melhor. Alguns cresciam em bairros estigmatizados, em famílias marcadas pela precariedade, e tinham poucas razões para acreditar que a escola lhes permitiria escapar às dificuldades que conheciam em casa.
A dificuldade de os convencer ficou-lhe na memória. “Há sobretudo uma grande descrença em muitos alunos naquilo que a escola realmente lhes pode dar”, explicou à RTP. E o trabalho dos professores, nestas circunstâncias, começava muitas vezes antes da matéria: “Um dos maiores trabalhos nestas escolas é ganhar os alunos para quererem aprender ou ver significado na escola”.
Renata recorda as professoras que lhe despertaram a vontade de aprender e encontra-se agora diante de jovens que nem sempre têm essa vontade. Incomoda-a que a formação universitária ensine aos futuros docentes a importância de adaptar métodos e reconhecer diferentes formas de aprendizagem, mas que depois o funcionamento das escolas deixe pouco espaço para o fazer.
Também é por conhecer as salas de aula que desconfia dos “políticos profissionais”, expressão que utiliza para falar de dirigentes que passaram quase toda a vida entre estruturas partidárias, gabinetes e assessorias. Considera que os professores deviam participar muito mais na definição das políticas educativas, tal como os profissionais de saúde deveriam ser ouvidos nas decisões sobre os hospitais.
Na conversa com o Expresso, não escondeu a distância que sente em relação a quem ocupa os lugares de decisão: “Eu não me sinto minimamente representada pelas pessoas que estão no Parlamento. São pessoas que estão completamente longe da realidade, das pessoas como eu, que trabalham no seu dia a dia”. Quando lhe perguntaram se preferia ser professora ou deputada, respondeu sem hesitar: “Eu prefiro ser professora”.
A campanha que a tornou conhecida não a levou à Assembleia da República. Na noite eleitoral de 30 de janeiro de 2022, a CNN Portugal acompanhou-a na sede do MAS, perto da Praça do Chile, em Lisboa. Havia cartazes antigos, divisórias de alumínio, comida trazida pelos militantes e um cão que brincava com um cravo vermelho de plástico.
Renata chegou depois das oito da noite, vestida de preto, com sapatos de plataforma e um casaco de cabedal, e abriu uma garrafa de vinho branco, que distribuiu por copos de papel.
O partido conseguiu 5990 votos, aproximadamente o dobro do resultado anterior, mas não elegeu deputados. Renata discursou perto das onze da noite, segurando um microfone que não funcionava corretamente, e depois distribuiu espumante rosé. Quando a sala começou a esvaziar-se, apareceu Arya, a sua cadela, mais tranquila com menos gente à volta. Renata foi buscar um café e ficou a ouvir Rui Tavares discursar na televisão.
A esquerda parlamentar sofrera uma derrota pesada, o Chega tornara-se a terceira força política e o MAS celebrava uma subida que, embora pequena à escala nacional, parecia abrir novas possibilidades.
Entretanto, dentro do partido, começara uma disputa que acabaria por chegar ao Tribunal Constitucional. O conflito entre duas fações, envolvendo Renata Cambra e Gil Garcia, impediu o MAS de concorrer às legislativas de março de 2024. Renata reclamava a legitimidade da direção que representava e tentou obter judicialmente a expulsão de Gil Garcia, sem sucesso. Acabou por concluir que prolongar a disputa seria desperdiçar mais um ano.
Com outros militantes, fundou o Trabalhadores Unidos, anunciado em setembro de 2024 e reconhecido pelo Tribunal Constitucional em julho de 2026. O símbolo escolhido foi um punho roxo sobre uma estrela vermelha, numa referência às lutas das mulheres e dos trabalhadores.
Quando a Lusa a ouviu sobre a legalização do novo partido, em julho de 2026, Renata voltou a uma crítica antiga: “Vemos uma esquerda muito acomodada, que não procura uma estratégia, uma política independente que coloque sempre em primeiro lugar as necessidades e os interesses dos trabalhadores e da juventude”.
Mantém a defesa de uma alternativa anticapitalista, à esquerda do Bloco e do PCP, e considera que o descontentamento social tem sido aproveitado pela extrema-direita porque os partidos tradicionais perderam a capacidade de representar parte dos trabalhadores. Rejeita que a sua conceção de socialismo tenha como modelos os regimes autoritários da China ou da Coreia do Norte. Numa entrevista ao Expresso, fez questão de afastar essa associação: “Nós não apoiamos minimamente regimes totalitários”. Defende uma sociedade com maior igualdade económica e direitos fundamentais garantidos, com partidos que participem nas lutas dos trabalhadores em vez de aparecerem apenas em período eleitoral.
As coisas pequenas que ficam
A militância ocupa-lhe muitas horas, mas Renata gosta de levar Arya a passear por Monsanto, de ouvir José Mário Branco e Capicua, de tocar guitarra, embora se irrite por não praticar o suficiente, e de regressar a The Good Place, uma comédia filosófica que a diverte mesmo quando já conhece os episódios. Gosta do cheiro dos livros e da textura do papel, sobretudo dos jornais.
Também fica particularmente contente quando vê um automobilista agradecer a outro com os quatro piscas depois de lhe facilitarem a passagem. É um gesto que aprendeu a reconhecer no Porto e que continua a utilizar, embora nem sempre tenha a certeza de que os outros condutores percebem. Ao contar este pequeno prazer no podcast do Expresso, não escondeu o entusiasmo: “Quando eu vejo uma pessoa fazer isso, eu fico felicíssima, acho lindo”.
A mãe garante-lhe que tem muitas qualidades, embora cantar não seja uma delas. Renata gosta de assobiar, mas, quando Bernardo Mendonça lhe perguntou se tinha jeito para cantar, preferiu não se comprometer. “Eu vou dizer que não, porque, se eu disser que sim, depois vais-me obrigar a ter que provar isso.” Acabou por cantar um pequeno trecho de uma música de Capicua e pedir desculpa à cantora, entre risos.
Gosta também de Elza Soares, particularmente de A Mulher do Fim do Mundo, e descobriu já adulta que a cantora brasileira nascera no mesmo dia que ela, 23 de junho. Renata tem 35 anos.
As leituras trazem-lhe outras memórias. Em 2022, quando lhe pediram que escolhesse um texto literário para ler no podcast A Beleza das Pequenas Coisas, levou “Desobediência”, um poema de Maria Teresa Horta que começa assim: “Sou feita de muitos nós, desobediência e meio-dia”. Conhecera a escritora através de Alice, a professora de Literatura Portuguesa do secundário. Antes de ler, recordou-a com carinho e deixou-lhe uma saudação, na esperança de que estivesse a ouvir.
A palavra “nós” levou-a a pensar nas ligações que se criam ao longo da vida, naquelas que se desfazem e também no plural que reúne pessoas diferentes. Ao olhar para o percurso que fizera até ali, encontrou uma expressão que lhe assentava bem: “Sou muitos nós”.
Naquela altura, o processo pelas ameaças de Mário Machado ainda percorria os tribunais. Renata continuava no MAS e desconhecia que uma disputa interna acabaria por a levar à fundação de outro partido. Quatro anos depois, seria uma manifestação pelo direito à habitação a conduzi-la novamente à justiça.
Em outubro de 2026, a PSP retirou as tendas do Rossio, Luís Neves anunciou o fim dos acampamentos e Renata recorreu ao Tribunal Administrativo de Lisboa. Conseguiu uma sentença favorável, mas a interpretação do seu alcance abriu uma divergência com o Ministério da Administração Interna sobre os restantes manifestantes.
A decisão de voltar a instalar tendas será discutida em assembleia popular, como explicou esta segunda-feira. Renata prefere que sejam os participantes a decidir os passos seguintes.
Em 2022, quando lhe perguntaram até onde queria chegar na política, imaginou-se numa assembleia com centenas ou milhares de pessoas, a discutir reivindicações, propostas e aquilo que seria necessário fazer a seguir. Nunca foi deputada, embora continue a desejar que o Trabalhadores Unidos consiga representação parlamentar.
No Rossio, tem agora uma decisão judicial que lhe permite permanecer com uma tenda até à votação final do Orçamento do Estado, prevista para 24 de novembro. O Ministério da Administração Interna considera que a autorização não abrange os restantes manifestantes. Renata discorda e remete a continuação do protesto para a assembleia popular. Por enquanto, a sentença dá-lhe uma tenda. O que fazer com ela será discutido com os outros.