Iates apreendidos a oligarcas russos estão a custar milhões de euros aos contribuintes italianos

CNN , Barbie Latza Nadeau
Há 2h e 37min
Vista geral do Sailing Yacht A, a embarcação de 468 pés de comprimento e no valor de 450 milhões de dólares (360 milhões de libras), propriedade do bilionário Andrey Igorevich Melnichenko, durante a 70.ª edição do Festival de Cinema de Cannes, a 23 de maio de 2017, em Cannes, França. O superiate possui três mastros gigantescos de 300 pés, que se elevam mais do que o Big Ben, em Londres. (Foto de Andreas Rentz/Getty Images)
Vista geral do Sailing Yacht A, a embarcação de 468 pés de comprimento e no valor de 450 milhões de dólares (360 milhões de libras), propriedade do bilionário Andrey Igorevich Melnichenko, durante a 70.ª edição do Festival de Cinema de Cannes, a 23 de maio de 2017, em Cannes, França. O superiate possui três mastros gigantescos de 300 pés, que se elevam mais do que o Big Ben, em Londres. (Foto de Andreas Rentz/Getty Images)

Itália, no entanto, está longe de ser o único país europeu a suportar os custos de manutenção de iates apreendidos

Um dispendioso e pouco atraente objeto flutuante prejudica há mais de quatro anos a paisagem do porto de Trieste, no norte de Itália, e a sua manutenção está a custar milhões de euros aos contribuintes italianos, afirma o presidente da Câmara da cidade.

O "Sailing Yacht A", do oligarca russo Andrey Igorevich Melnichenko, é um dos maiores veleiros do mundo e está avaliado em cerca de 600 milhões de dólares. A embarcação encontrava-se em Trieste para trabalhos de manutenção em março de 2022, quando a invasão russa da Ucrânia levou à imposição generalizada de sanções e ao confisco de bens russos.

Entre os ativos apreendidos estava a embarcação de 468 pés de Melnichenko, outrora apelidada de "o iate mais feio do mundo" e conhecida simplesmente como "A" pelos habitantes locais, que passaram a detestá-la. Desenhado por Philippe Starck, o superiate tem uma superfície exterior fantasmagórica, com janelas quase invisíveis embutidas numa estrutura de aço blindado cintilante. Os seus três mastros rotativos de carbono têm a altura de um palácio de oito andares e projetam uma silhueta que se tornou, entretanto, uma presença habitual no movimentado porto, onde atracam dezenas de navios de cruzeiro todas as semanas.

Em setembro de 2025, o presidente da Câmara, Roberto Dipiazza, levantou publicamente a questão de quem está a pagar as taxas de amarração e os custos de manutenção do iate, numa campanha em que o classificou como uma "vergonha" e ameaçou vendê-lo ou fazê-lo sair do porto. Dipiazza disse à CNN que manter a embarcação à tona, incluindo o pagamento a uma tripulação de 20 pessoas, o combustível necessário para alimentar os geradores, a limpeza especializada, a segurança e o seguro, custa cerca de 30 mil dólares por dia — quase 11 milhões de dólares por ano.

De acordo com a legislação italiana, uma embarcação apreendida tem de ser mantida e não pode ser deixada a enferrujar ou a afundar. Se e quando as sanções contra Melnichenko forem levantadas, este terá de reembolsar os custos para recuperar o seu iate. "Acabará por lhe sair mais barato comprar um iate novo do que pagar tudo aquilo que gastámos", afirmou Dipiazza. "E onde é que isso nos deixa? Podemos acabar a pagar por esta monstruosidade durante anos."

Melnichenko, banqueiro e industrial cuja fortuna está avaliada em cerca de 20 mil milhões de dólares, contestou a apreensão do iate no verão de 2022, argumentando que a embarcação não era diretamente sua, mas pertencia a uma empresa chamada Valla Sails, através de um fundo fiduciário criado pela mulher. O caso foi apreciado por um tribunal de Roma em 2022 e acabou por chegar ao Tribunal de Justiça da União Europeia, que decidiu, em 2025, que Itália tinha o direito de manter a embarcação apreendida — e, com isso, a obrigação de a conservar.

O "Sailing Yacht A" não é o único iate russo a representar uma despesa para os italianos. No porto toscano de Marina di Carrara, o superiate Scheherazade, com seis convés e 465 pés de comprimento, está atracado atrás de muros altos, para o manter em segurança e longe dos olhares curiosos. Embora esteja alegadamente registado em nome de Eduard Khudainatov, dirigente da Rosneft, o líder da oposição russa Alexei Navalny afirmou, de forma credível, que a embarcação pertence, na realidade, ao presidente russo, Vladimir Putin.

A 28 de agosto deste ano, o iate saiu do porto em direção a norte, rumo à Riviera italiana, segundo os sinais do transponder registados pelo Vessel Finder, fortemente escoltado pelas forças de segurança italianas. Regressou dez horas depois, após aquilo que um porta-voz do Italian Sea Group, empresa nas instalações da qual está atracado, descreveu como testes técnicos realizados no âmbito da manutenção.

Segundo a Superyacht Times, o superiate, avaliado em 700 milhões de dólares, dispõe de duas plataformas para helicópteros, entre muitas outras comodidades, e de uma piscina que se transforma numa pista de dança.

O Scheherazade está atracado no porto de Marina di Carrara, na Toscana, em março de 2022. Federico Scoppa/AFP via Getty Images/ARQUIVO

O contrato de amarração do Scheherazade estava pago até setembro, de acordo com registos fiscais consultados pela CNN. O Italian Sea Group não revela quem pagou, ou quem está atualmente a pagar, os custos de amarração. Desde que foi apreendido, os contribuintes da Toscana já desembolsaram mais de 15 milhões de dólares para pagar à tripulação reduzida que mantém a embarcação, composta por alguns elementos britânicos e outros russos, e que é substituída várias vezes por ano, segundo notícias da imprensa local. No ano passado, uma equipa de filmagem que tentou aproximar-se do iate foi afastada por drones e canhões de água.

A estes encargos acrescem os custos de segurança, destinados a impedir que alguém se aproxime da embarcação e a garantir que esta não parte enquanto estiver apreendida.

Entre as outras embarcações cuja manutenção é paga por Itália está o Lady M, um elegante superiate de 210 pés pertencente a Alexei Mordashov, aliado de Putin e acionista maioritário da Severstal, a maior empresa russa de aço e exploração mineira. A Forbes estima a fortuna de Mordashov em quase 37 mil milhões de dólares. O Lady M está apreendido em Imperia e já custou cerca de dois milhões de dólares aos contribuintes italianos, disse Matteo Bonjean, vice-diretor do porto de Marina di Imperia, à Forbes.

O superiate Lena, com 126 pés e propriedade de Gennady Timchenko, outro aliado de Putin, também está a ser mantido nas proximidades.

Todas as embarcações apreendidas têm tripulações responsáveis pela manutenção dos iates, cujos salários são pagos pelo Governo italiano. Entre os restantes custos está também a utilização de ar condicionado para impedir o aparecimento de bolor no interior das embarcações.

Itália está longe de ser o único país europeu a suportar os custos de manutenção de iates apreendidos. A Alemanha tem o Dilbar, avaliado em 800 milhões de dólares e que pertenceu, em tempos, à irmã do magnata russo Alisher Usmanov, alvo de sanções. França está a pagar a manutenção do Amore Vera, pertencente ao oligarca sancionado Igor Sechin, e Espanha mantém o Tango, propriedade do oligarca russo Viktor Vekselberg, também alvo de sanções.

Gibraltar conseguiu leiloar o Axioma, um iate de 236 pés pertencente ao magnata russo do aço Dmitry Pumpyansky, por cerca de 37,5 milhões de dólares, segundo a Reuters. Os Estados Unidos venderam várias embarcações, incluindo o Amadea, propriedade do político russo Suleiman Kerimov, alvo de sanções por duas vezes.

Nem todos os países optam por pagar os custos de manutenção quando a legislação nacional não os obriga a fazê-lo. O enorme Luminosity, com 353 pés e propriedade do russo Andrey Guryev, também alvo de sanções, foi apreendido no Montenegro e deixado a enferrujar e a deteriorar-se, de acordo com imagens publicadas nas redes sociais pela Benetti Yachts, empresa que construiu a embarcação. O Montenegro tentou vender o iate em 2024 por 135 milhões de euros, mas a operação acabou por ser bloqueada e a embarcação continua abandonada na marina de Porto Montenegro, em Tivat.

A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, tem sido uma forte defensora da manutenção das sanções contra os oligarcas russos ligados a Putin. No mês passado, alertou o Senado italiano para o facto de qualquer abrandamento das medidas ou acordo com Moscovo representar "uma escolha muito arriscada". Muitos outros, como o presidente da Câmara de Trieste, Dipiazza, consideram que os contribuintes não devem ter de pagar a manutenção dos brinquedos dos oligarcas.

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