A janela de Putin fecha a 3 de janeiro

Há 1h e 31min

Há presidentes que governam a pensar no próximo mandato. Donald Trump chega às intercalares de esta terça-feira a governar pelo calendário. E o calendário não lhe é favorável

Em poucas semanas de outubro, a Casa Branca acumulou gestos que, juntos, desenham uma política. Trump fechou com Vladimir Putin um acordo para pôr gasóleo russo no mercado, levantando sanções em vigor desde 2022. Suspendeu quase todas as sanções e tarifas da Lei Lindsey Graham, que ele próprio promulgara um mês antes e que o Senado aprovara por 86 votos contra 11. Pediu a substituição de Zelensky. E chegou a dizer que “a Rússia, francamente, tem estado bem quanto à Ucrânia. Não tem feito grande coisa”.

A justificação oficial é doméstica: baixar o preço dos combustíveis, inflacionado pela guerra com o Irão, antes do voto. É verdade, mas é só metade da história.

O gasóleo russo serve dois propósitos. O primeiro é eleitoral: Trump usa tudo o que tem à mão, e o preço na bomba é o atalho mais curto até ao voto. O segundo é diplomático: um sinal de boa-fé a Putin, dado enquanto ainda não precisa de pedir licença a ninguém. Porque sabe que, muito provavelmente, vai deixar de ser assim.

As sondagens desenham o pior cenário para Trump. Os democratas lideram as intenções de voto para o Congresso por oito a nove pontos. Na Câmara bastam-lhes três lugares, e as principais projeções dão-lhes uma maioria à volta dos 233 deputados. No Senado podem chegar aos 52, se vencerem a Carolina do Norte e as corridas renhidas do Texas, do Ohio, do Maine e do Alasca. Nos governadores, a atual vantagem republicana de 26 contra 24 pode inverter-se para 28 contra 22.

Trump perderia a Câmara, o Senado e a maioria dos estados. Manteria poderes, mas seria um presidente refém. A Lei Graham deixa-lhe uma única válvula de escape, a suspensão das sanções por interesse nacional, que o novo Congresso, sempre mais pró-Ucrânia do que a Casa Branca, vai querer fechar. Cada promessa de Trump a Moscovo passaria a valer menos.

Moscovo também sabe contar. Os russos leem bem o que vem aí. O jogo, para eles, é de curto prazo: ou o ganham, ou o capitalizam ao máximo. E a janela não fecha amanhã. Fecha a 3 de janeiro, quando toma posse o novo Congresso. Até lá, com o Congresso cessante ainda republicano, cada licença de exportação, cada sanção suspensa, cada entrega de mísseis adiada pode ser rentabilizada. O Kremlin admite um encontro a três entre Putin, Trump e Xi Jinping na cimeira da APEC, em Shenzhen, a 18 e 19 de novembro, uma mesa onde a Ucrânia não tem lugar. E Dmitri Peskov fez questão de dizer que Moscovo “concorda plenamente” com Trump quanto à responsabilidade de Zelensky.

Moscovo já apostou. Vídeos falsos, manipulados com inteligência artificial e com a marca da rede russa Storm-1516, difamam James Talarico, candidato democrata ao Senado pelo Texas, e o antigo senador Sherrod Brown, que tenta regressar pelo Ohio. São duas das corridas que decidem o Senado. Outra operação, a Matryoshka, espalha vídeos adulterados de atores de Hollywood sob a hashtag #AllDemocratsAreCriminals. O alvo, segundo os principais democratas das comissões de informações do Congresso, são os candidatos pró-Ucrânia de ambos os partidos. Para Putin, estas eleições não são um assunto americano. São um episódio da guerra.

Zelensky também sabe contar. Aceitou o cessar-fogo energético de Trump e suspendeu por três dias os ataques às refinarias russas. Quando Moscovo continuou a bombardear a rede elétrica, declarou: “Acabou.” Seguiu-se uma pausa discreta, e os ataques voltaram, sem anúncio. Não é um tudo-ou-nada, mas é uma jogada forte. Cada refinaria atingida trava a máquina de guerra russa e contraria a pressa de Putin. E empurra para cima o preço dos combustíveis, o que Trump e os republicanos menos queriam em vésperas de eleições. Joga, ele também, com o calendário. E aposta, em silêncio, numa vitória democrata.

É neste quadro que se deve ler Yuri Ushakov. A 25 de outubro, o conselheiro de Putin admitiu que a posição da Europa pode ser a chave» de qualquer solução. Três dias depois, excluiu os europeus das conversações trilaterais de Abu Dhabi: “Podem lá ir se comprarem bilhete, mas ninguém os vai convidar para a mesa.” E apontou-as para cerca de 10 de novembro. Ou seja, depois das eleições americanas.

Há duas leituras erradas. A ingénua vê uma abertura e convida ao apaziguamento, agradecendo uma cadeira que ainda não existe. A otimista vê fraqueza, uma economia de guerra a ranger, e subestima um adversário que faz da ambiguidade instrumento. A leitura certa é outra: não há contradição, há cálculo. A frase completa de Ushakov explica-o: Washington não conseguiu forçar Kiev porque a Europa apoia Kiev. A Europa é a chave porque é o obstáculo.

A manobra serve três propósitos. O primeiro é dividir: reconhecer a Europa em abstrato e marginalizá-la na prática abre fendas entre europeus e americanos, e entre os próprios europeus. O segundo é isolar Trump elevando-o: um processo decidido a dois torna-o interlocutor indispensável, mas afasta-o dos aliados que lhe davam retaguarda. É um elogio envenenado. O terceiro é sondar: se corrermos para a cadeira prometida, Moscovo aprende que nos contentamos com retórica; se a ignorarmos, confirma que estamos divididos. Tudo dentro da mesma janela: arrumar o essencial com Trump antes de 3 de janeiro, com a Europa na antecâmara.

A pergunta não é se a Rússia nos reconhece. É por que razão precisamos de que seja a Rússia a reconhecer-nos. O lugar da Europa não se pede nem se recebe de um adversário. Constrói-se com indústria de defesa, informações coordenadas e vontade política de pagar o custo da autonomia. A cadeira que vale é a que ninguém nos pode tirar, porque ninguém no-la deu.

Nada disto surpreende Trump. O seu percurso tem sido pendular, ora mais perto de Moscovo, ora de Kiev. Trump vai toureando a Rússia quando lhe convém, mas o resultado é constante: a Rússia, a Ucrânia e a Europa continuam presas ao conflito. Amanhã, se as sondagens se confirmarem, esse equilíbrio muda. Trump já o calculou, mesmo que não o deseje.

Ushakov disse que somos a chave. Talvez tenha razão, mas não no sentido que lhe quis dar. Uma chave só serve se a mão que a segura souber que porta quer abrir. Em Washington e em Moscovo, o relógio que conta é o de 3 de janeiro. Na Europa, devia ser o de hoje.

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