Não estamos em 1974 e não é Martin Scorsese a dirigir Ellen Burstyn numa história de quem se faz à estrada à procura de uma vida melhor. Não estou a falar do filme "Alice doesn’t live here anymore", mas de um governo que parece cada vez mais à deriva e que já não alimenta qualquer sonho
Há quem faça sistematicamente a apologia da moderação como receita para as soluções e o progresso. Para estes, os radicalismos (verdadeiros ou empolados por conveniência) são o caminho certo para o desastre, pois a mudança deve ser constantemente planeada com regra e esquadro, estudada até ao mais ínfimo pormenor, discutida até à exaustão apenas pelos ilustres do sistema, embrulhada em anos de salamaleques tais que deixa de se perceber o que é ponderação e uma confrangedora inação.
Mas a história ensina-nos que as grandes mudanças não começam sem disrupção, até sem revolta, danos colaterais, violência e corte radical com o passado. Foi assim quando se conquistaram os maiores direitos sociais que hoje damos como adquiridos, incluindo o maior de todos, o regime democrático em que vivemos. E foi também assim com as caóticas mudanças que trouxeram estados de terror absoluto mais ou menos prolongados. São tantos os exemplos evidentes de um e de outro tipo, em Portugal e no mundo, que me coíbo aqui de os citar.
Para o bem ou para o mal, certo é que a disrupção e a revolta, generalizadas num país ou localizadas neste ou naquele setor, têm uma alta probabilidade de sucederem quando não há reais respostas a problemas sociais e às expectativas de grupos ou setores de uma sociedade, mais ainda quando se trata de uma democracia cujas fundações assentam também na efetiva diminuição dos desequilíbrios sociais. Não é preciso conhecer sequer o que dizem compêndios de sociologia e de ciência política para se perceber que, quanto maiores e mais transversais são os grupos afetados, maior será a probabilidade de disparar o gatilho da revolta social.
Durante algum tempo o fogo da insatisfação pode manter-se em lume brando, mas um dia o incêndio propaga-se de forma incontrolável. Nesse momento, deixarão de ser apenas os drogados, os calinas, os vândalos, os esquerdalhos, os sujos, os feios (como alguns pensam ou disseram com a arrogância) a protestarem de forma pacífica nas praças centrais de Lisboa e do Porto. Outros, muitos outros, vão acabar por juntar-se ali e em muitos mais locais para lutarem, talvez de forma não tão cordata como agora acontece, por causas que são cada vez mais agregadoras até pela ausência de respostas do poder central ou autárquico.
É hoje óbvio que o descontentamento social está a generalizar-se mesmo num país como o nosso, um país em que o protesto é normalmente mal visto, um país sem organizações sociais com real poder de influência e em que até manifestações e greves são encaradas como empecilhos ao regular funcionamento das instituições. Um país em que o respeitinho ainda manda muito, seja nas ruas, nas escolas, nos tribunais, nas empresas. Um país que ainda vê quem aponta o dedo aos problemas e a quem os não quer (ou consegue) resolver, como tendo origem em gente radical e perigosa que deve ser silenciada e afastada, venha ela da esquerda, da direita, dos seus extremos ou de nenhuma das paragens desta estafada construção ideológica.
Por estes dias, os mal-amados das acampadas (mesmo com as suas insanidades, utopias e manipulações políticas) tiveram o condão de acordar o País para um problema deixado em autêntica roda-livre por políticos e governantes, e porventura pela maior parte de nós, habituados que estamos ao votinho com data marcada, ao silêncio cúmplice e cómodo dos sofás ou à estéril indignação das redes sociais: sim, a desregulação do mercado da habitação tornou-se um problema asfixiante. E é só mais um da lista que cresce à vista de todos.
Só não percebe isto quem vive alienado do que o rodeia, seja numa redoma de privilégio ou porque simplesmente não quer saber e prefere rotular como “vândalos da noite” quem protesta. São estes iluminados, e outros tantos que estão num governo a prazo, que não se cansam de dizer que são precisos sacrifícios como os dos pais e avós para se ter uma casa, que argumentam que há problemas complexos que a vista de qualquer um não alcança, que recomendam que tem de se ter paciência infinita e que já há um mundo de medidas em andamento que fará o mercado funcionar.
São também aqueles a quem nunca faltam argumentos sobre a inutilidade dos protestos com ou sem tendas e outra parafernália, são aqueles que memorizam os manifestantes e as suas assembleias populares e os dizem uns abusadores da liberdade de circulação e da ocupação do espaço público, são aqueles que criticam as pichagens de estátuas como crimes de lesa-Pátria, são aqueles que acham que tudo é caos e desordem, que querem a polícia de choque e os cães a impor condutas de saber estar, que dizem sim à distribuição de porrada durante as madrugadas, E que batem palmas às detenções e às acusações de desobediência. São aqueles para quem é normal que um agente da PSP infiltrado apareça de arma em punho, aqueles que acham que condutores devem ser multados por buzinarem em solidariedade e não porque se comemora vitórias no mundo da bola.
Tal como se verifica nas pacíficas acampadas em Portugal corridas à bastonada por obra e graça de uma triste figura de ministro com pés de barro, tornou-se normal discutir o que está por trás de quem questiona ou contesta, dizem-nos que existirá sempre uma qualquer conspiração que tudo explica, vendem-nos sempre o papão das forças ocultas políticas que querem desestabilizar o regime e mandar a Nação para a anarquia. Como se isso fosse o essencial e não existissem causas reais de descontentamento que levam as pessoas à rua. Como se fosse legítimo combater um protesto pacífico com cargas policiais, com o abuso do poder policial estimulado ou consentido pelo poder político.
Se este é o remédio de Estado para lidar com o que está à vista de todos, podemos questionar-nos se o objetivo não será estimular a violência para justificar ainda mais repressões policiais? E se não se está a regar com gasolina o tal fogo que está ainda em lume brando? E, já agora, que responsabilidade é esta dos políticos que coloca a PSP num jogo de negociação de quantas tendas é permitido ter num protesto, dando-lhe cabo de qualquer autoridade que possa precisar no futuro?
Como agora se exigem declarações de interesse por tudo e por nada, aqui vai a minha que vale o que vale: tenho dois filhos, um com 25 anos e uma com 20 anos, e ambos não são drogados, calinas ou porcos. São licenciados em “cursos ditos de emprego”, como dizem alguns especialistas que acham que só se deve aprender aquilo que o mercado quer. Um já é mestre (a outra está a caminho) e empregou-se há dois anos numa multinacional. Mas com o que ganha, ou poderá ganhar nos próximos anos em Portugal, nunca poderá chegar por ele a uma casa terrivelmente inflacionada (comprada ou alugada) em Lisboa ou na área metropolitana da capital.
Sem emigrar, o elevador social da escola (que funcionou com o pai vindo do quase nada) não o vai levar a uma condição básica de vida, onde se inclui ter uma casa digna. Como na minha geração e de outras que se seguiram, já não é uma questão de ter emprego ou duplos empregos e de fazer sacrifícios para pagar as prestações ou as rendas até à velhice, é uma simples impossibilidade existencial. Pagar uma nova casa e comer e viver deixaram de ser compatíveis.
Vou a apenas uns números para despachar os factos de que já todos sabem. O parque público de habitação está estagnado há largos anos e é dos mais baixos da União Europeia, com apenas 2% do total de habitações em Portugal, quando a média europeia é de 8%, e há países em que ultrapassa os 20% como na Holanda e na Áustria. Na prática, o Estado demitiu-se de atuar como "almofada" ou regulador de preços sobretudo para a classe média, que é hoje cada vez mais uma classe remediada. Temos ainda uma das piores taxas de acessibilidade à habitação quando se compara o custo por metro quadrado com o rendimento per capita das famílias. Traduzindo: o maior crescimento acumulado da UE no preço dos imóveis é nosso, com uma subida exponencial de 180% (2015/25), enquanto os salários reais cresceram oito vezes menos.
Já agora, a prestação média mensal nos números globais do crédito à habitação está nos cerca de 450 euros, mas a compra de casas a preços atuais nas zonas urbanas (como em Lisboa ou no Porto) levaram esses encargos para os entre 900 a 1.200 euros/mês para a maior parte das famílias. Para concluir, o salário médio bruto não chega aos 1.700 euros mensais (cerca de 1.150 euros líquidos). Tudo somado: temos menos dinheiro para comprar ou alugar casas, casas que não existem no mercado ou estão terrivelmente inflacionadas. Isto num cenário global que nos últimos 15 anos nos trouxe uma intervenção externa financeira, uma pandemia e guerras na Ucrânia e no Irão, com pressões gigantescas sobre os preços de bens e serviços.
E isto é tanto mais dramático quando vemos o resultado prático de quem nos governa nos últimos anos. Quando vemos agora as medidas e medidinhas de um governo que parece em desnorte, liderado por um primeiro-ministro desaparecido, mas que garante que está sempre a trabalhar. Um governo que diz ver outro país, aquele que deve estar agradecido pela mensagem dos cartazes do partido espalhados por estradas, rotundas e debaixo de viadutos - “A trabalhar pelo teu futuro”. É dali que devem vir “os factos”, como lhes chamou com algum regozijo Luís Montenegro no início do recente debate do Orçamento de Estado.
Os “factos” são também um governo adiado e carregado de trapalhadas em setores como o da Saúde, da Educação, do Trabalho, da Coesão Social, da Administração Interna. Um governo que parece cada vez mais inábil e imóvel, um governo sem rumo e em queda livre nas sondagens, um governo que vê vândalos e ingratos em todo o lado, um governo que perde votos sempre que fala o rancoroso líder parlamentar. Um governo que parece fazer cada vez mais parte do passado e não já do futuro. Um governo que parece perdido nas soluções e nas parcerias. Um governo que também não sabe que a participação cívica não se esgota no voto e na carta branca da delegação de poderes no Parlamento. Um governo que não sabe lidar com a pressão do protesto pacífico não é um governo que serve a democracia.