Paulo Portas: "Ou Trump passa a ter um problema sério com os americanos ou o mundo ainda vai ter mais problemas sérios com Trump"
Paulo Portas antecipa dificuldades para o presidente americano nas eleições intercalares e alerta para os riscos do período que se seguirá a uma eventual derrota republicana.
Paulo Portas considera que as eleições intercalares americanas colocam Donald Trump perante uma alternativa decisiva: "Ou a partir de terça-feira Donald Trump passa a ter um problema sério com os americanos ou a partir de terça-feira o mundo ainda vai ter mais problemas sérios com Donald Trump." No seu comentário no "Global", o antigo governante afirmou preferir o primeiro cenário, apontando para a possibilidade de os republicanos perderem o controlo de pelo menos uma das câmaras do Congresso.
"Eu sou generoso, prefiro que seja Donald Trump a ter problemas com os americanos", declarou. A dois dias da votação, Portas destacou a tendência histórica de penalização do partido do presidente nas eleições de meio de mandato, embora tenha ressalvado que uma participação inesperada pode produzir resultados que escapem às sondagens.
Um dos indicadores destacados pelo comentador foi o aumento do voto antecipado. Segundo os números que apresentou, já tinham votado 54 milhões de americanos, mais cinco milhões do que nas intercalares de 2022. Portas acrescentou que os dados de registo dos eleitores que recorreram a esta modalidade apontavam para uma maior presença de democratas, admitindo que isso possa traduzir uma mobilização superior da oposição.
Na leitura do antigo líder do CDS, a Câmara dos Representantes está "praticamente perdida para os republicanos". Uma mudança de maioria obrigaria Trump a enfrentar uma oposição com capacidade para escrutinar a sua atuação e dificultar a aprovação das suas prioridades.
"Isso significa uma vertigem de comissões de inquérito", antecipou, acrescentando que o presidente também passaria a ter "maiores dificuldades orçamentais", dado o papel da Câmara dos Representantes nas decisões sobre a despesa e o orçamento federal.
Quanto ao Senado, Portas mostrou-se mais prudente. "Embora haja uma inclinação para os democratas, eu não daria por seguro que a mudança acontece", afirmou. Se os republicanos também perderem essa câmara, acrescentou, os problemas de Trump serão "até mais sérios", nomeadamente pela possibilidade de serem rejeitadas nomeações presidenciais.
Para a Europa, o resultado também terá consequências. Portas espera um Congresso "menos protecionista" e "mais atlantista", sobretudo no Senado, que descreveu como potencialmente "mais para a NATO e menos para a Rússia do que o presidente".
Se perder as duas câmaras, Trump poderá ainda passar a ser visto como um "pato-coxo", considerou o comentador. Nesse cenário, explicou, a atenção dos eleitores começará a deslocar-se para os possíveis candidatos à sucessão, reduzindo o peso político do atual presidente.
"Os americanos votam com o bolso"
Para Portas, a pressão sobre o custo de vida ajuda a explicar as dificuldades eleitorais dos republicanos. "Os americanos votam com o bolso", sublinhou, identificando dois erros de Trump que, na sua opinião, poderão ser penalizados nas urnas: a guerra no Irão e a política de tarifas.
"Há duas coisas que incomodam muito os americanos. A primeira é que as coisas estão cada vez mais caras", afirmou. O comentador estabeleceu uma relação entre a intervenção militar no Irão e o aumento dos preços da energia, citando uma estimativa do laboratório orçamental da Universidade de Yale sobre o custo dessa decisão para os americanos.
As tarifas são o segundo fator destacado. Segundo Portas, "são os importadores e os consumidores americanos que pagam um preço maior". O antigo governante argumentou ainda que a redução da concorrência externa permite que os preços dos próprios produtos americanos também aumentem.
Portas receia reação de Trump a uma derrota
Mais do que o resultado eleitoral, Portas mostrou preocupação com a reação do presidente a uma eventual derrota expressiva. Se perder apenas a Câmara dos Representantes, antecipou, Trump poderá apresentar o resultado como uma vitória parcial: "Ele diz que até ganhou metade."
Uma derrota mais ampla poderá, na sua análise, levar potenciais sucessores a afastarem-se do presidente. "O vice-presidente vai querer começar a descolar. No dia em que o vice-presidente descolar, o secretário de Estado Rubio também vai querer descolar", afirmou.
Portas classificou como "muito perigoso" o período entre as eleições e a entrada em funções dos novos órgãos, receando a atuação de um presidente derrotado antes de a nova maioria parlamentar poder exercer plenamente os seus poderes. Para ilustrar essa preocupação, evocou o ataque ao Capitólio de 6 de janeiro de 2021: "O famoso e infeliz, dramático 6 de janeiro foi nesse período."
A preocupação com a proximidade à Rússia atravessou também o comentário. "É uma das razões pelas quais eu acho que é mesmo preciso travar Donald Trump: é a sua russofilia", declarou. Para Portas, um Congresso "bastante mais atlantista" poderá funcionar como contrapeso à orientação do presidente americano.