As eleições que vão definir os últimos dois anos da presidência Trump. Oito perguntas e respostas para perceber o que está em jogo nas intercalares

Há 2h e 14min
Donald Trump Convenção Nacional Republicana eleições intercalares EUA (Tony Gutierrez/AP)
Donald Trump Convenção Nacional Republicana eleições intercalares EUA (Tony Gutierrez/AP) Supporters hold representations of US flags as President Donald Trump speaks at the Republican convention in Dallas, Wednesday, Sept. 9, 2026. (AP Photo/Tony Gutierrez)

Esta terça-feira, cerca de 210 milhões de eleitores norte-americanos são chamados às urnas para eleger a composição do Senado e da Câmara dos Representantes, e os resultados têm o potencial de impactar de forma mais ou menos profunda o resto do mandato de Donald Trump na Casa Branca. Tradicionalmente, as eleições a meio do mandato presidencial tendem a favorecer o partido na oposição, mas uma vitória esmagadora dos democratas está longe de estar garantida à partida. E há receios de que o presidente republicano possa tentar interferir no plebiscito para impedir ou minimizar a derrota do próprio partido. Eis tudo o que precisa de saber sobre as eleições intercalares de 2026

1. Quem vai controlar o Congresso?

Há muito em jogo nas eleições intercalares deste ano, nas quais o Partido Democrata está investido em recuperar o controlo do Congresso. Para isso, o partido na oposição precisa de manter os assentos que ocupa atualmente no Senado e conquistar pelo menos mais quatro. Já no caso da Câmara dos Representantes, os democratas precisam de eleger pelo menos 219 deputados federais. 

Neste momento, os republicanos controlam não apenas a Casa Branca como as duas câmaras do Congresso, contando com 219 dos 435 deputados federais e 53 senadores, contra 45 democratas e dois independentes. A votos nas intercalares de terça-feira está a totalidade dos assentos na Câmara dos Representantes e 33 ou 34 dos 100 assentos do Senado. Também há eleições para os governos estaduais em 36 dos 50 estados dos EUA, num momento em que os republicanos controlam 55% das legislaturas do país e os democratas 43,8%.

Perante a elevada insatisfação do eleitorado com o estado da economia e o aumento do custo de vida, e com Donald Trump a registar a mais baixa taxa de popularidade das suas duas presidências até ao momento, a maioria das sondagens antevê que os democratas vão conseguir obter o controlo de pelo menos uma das duas câmaras do Congresso.

A duas semanas das eleições intercalares, um dos mais proeminentes analistas de sondagens do país, Nate Silver, refez os seus cálculos probabilísticos após retirar do agregador inquéritos de opinião falsos que estavam a fazer a balança pender mais a favor dos democratas. Isto não significa que os republicanos vão conseguir manter a maioria no Congresso, mas sim que a distância do partido no poder em relação aos democratas diminuiu.

Este ano estão em disputa os 435 assentos da Câmara dos Representantes e 34 dos 100 assentos no Senado; atualmente, os republicanos detêm maiorias mínimas nas duas câmaras do Congresso. foto J. Scott Applewhite/AP

2. Quais são as corridas mais disputadas à Câmara e ao Senado?

Tendo em conta a aritmética e o que está em jogo, há 10 corridas ao Senado que estão a focar grande parte das atenções, entre elas disputas no Maine, no Michigan, Ohio, Carolina do Norte e no Texas. Neste último, os democratas não vencem eleições ao Congresso federal desde 1994. No Michigan, onde Trump ganhou a Kamala Harris nas presidenciais de 2024 com uma margem residual, o candidato progressista Abdul el-Sayed protagoniza uma das corridas mais acirradas destas intercalares, contra o ex-deputado federal republicano Mike Rogers. 

De acordo com as sondagens divulgadas até ao final de outubro, a vitória dos republicanos parece estar apenas garantida à partida numa dessas dez corridas – por um lugar de senador pelo estado do Iowa. A confirmarem-se as previsões, e se os democratas não perderem os outros assentos que já detêm no Senado, isto significaria que passariam a controlar a câmara alta do Congresso.

Da mesma forma, há 10 corridas à Câmara dos Representantes que concentram o potencial de fazer pender a balança para um lado ou para o outro. Entre elas contam-se a disputa por um deputado federal num círculo eleitoral de Nova Iorque onde Kamala Harris derrotou Trump há dois anos mas onde poderá ser um republicano a vencer; corridas por distritos do Texas que foram alvo de ‘gerrymandering’ pelo governo estadual republicano; e a disputa por um distrito do Ohio que, após vários anos como reduto republicano, está agora totalmente em aberto.

Pode ler mais sobre as 20 corridas mais determinantes destas eleições intercalares aqui.

3. Quantas pessoas vão votar?

Este ano, do total de 342,6 milhões de residentes nos EUA, há cerca de 210 milhões de eleitores aptos a votar nas eleições intercalares norte-americanas, incluindo um número recorde de 19 milhões de eleitores no Texas, o maior estado do território continental dos EUA. A duas semanas da ida às urnas, outro recorde já tinha sido batido em relação às últimas intercalares – quase 14 milhões de eleitores recorreram ao voto antecipado, por correio ou presencialmente, em comparação com 9 milhões no mesmo período em 2022. Em paralelo, segundo noticiou o Washington Post no final de novembro, uma análise aos dados sobre a votação antecipada, a par de entrevistas com autoridades e eleitores, sugerem que os norte-americanos, em particular os democratas, estão a optar pelo voto presencial ou pelo depósito de boletins de voto em urnas específicas, perante os ataques incessantes de Trump ao voto por correspondência.

Do total de eleitores registados, é expectável que mais de 100 milhões de pessoas participem nas eleições deste ano, caso a taxa de participação seja semelhante à que foi registada nas últimas intercalares. O número é inferior ao da participação nas presidenciais, dado que historicamente as eleições à Casa Branca atraem sempre mais eleitores às urnas – em 2024, nas presidenciais que deram a vitória a Trump, houve mais de 155 milhões de pessoas a votar.

Tendo em conta esse facto, uma grande incógnita em torno deste ato eleitoral é quantas das 77 milhões de pessoas que votaram para eleger Trump há dois anos irão, de facto, às urnas este ano, também considerando que o atual Partido Republicano tem mais dificuldade em mobilizar os seus apoiantes quando o nome de Trump não consta do boletim de voto.

Uma grande incógnita nestas eleições é quantos dos 77 milhões de eleitores que votaram em Trump há dois anos vão voltar às urnas para participar nas intercalares, dado que o nome do presidente não consta do boletim de voto. foto Julia Demaree Nikhinson/AP

4. Quanto dinheiro foi angariado e gasto em campanhas?

Por saberem que têm muito em jogo, e que as probabilidades não lhes são favoráveis, os republicanos gastaram mais dinheiro do que os democratas na campanha a estas eleições intercalares.

De acordo com uma análise do Financial Times a uma semana e meia da ida às urnas, os comités de ação política (PACs) ligados ao Partido Republicano contavam à data com 683 milhões de dólares em caixa, contra 484 milhões de PACs democratas. Somando o valor atribuído aos grupos republicanos aos recursos investidos por Super PACs ligados ao presidente Trump e ao bilionário Elon Musk – que sozinho investiu 366 milhões de dólares nesta eleições –, o montante disponível para os republicanos quase atingia os 900 milhões de dólares.

Uma larga fatia do dinheiro foi investida numa ofensiva de anúncios na televisão e na internet na esperança de reverter o cenário projetado nas corridas mais acirradas, com comités do partido e grupos externos a destinarem mais de 1,3 mil milhões a esse esforço no atual ciclo eleitoral, em comparação com cerca de 800 milhões investidos do lado democrata. As avultadas reservas refletem a preocupação dos republicanos perante a possibilidade de os democratas conquistarem o controlo da Câmara dos Representantes e, possivelmente, também do Senado. 

Até ao dia 12 de outubro, um montante recorde de 3,8 mil milhões de dólares já tinha sido gasto em propagandas políticas veiculadas. Segundo a AdImpact, que monitoriza as atividades financeiras eleitorais, os maiores gastos concentram-se em três das 10 corridas mais intensas a assentos no Senado dos EUA, nomeadamente nos estados do Texas, Ohio e Michigan.

5. O que mostram as sondagens?

A menos de duas semanas da votação, a taxa de desaprovação de Trump rondava os 60%, de acordo com o RealClearPolitics, um mínimo recorde desde que chegou à presidência pela primeira vez, em 2016. A baixa popularidade do presidente é atribuída, em particular, à sua guerra tarifária e, sobretudo, à guerra que iniciou contra o Irão em fevereiro deste ano, face ao seu impacto inflacionário nos preços dos combustíveis e do cabaz alimentar.

Também a cerca de meio mês das eleições, uma sondagem do Ipsos para o Washington Post/ABC mostrou que, pela primeira vez em mais de uma década, uma maioria dos eleitores norte-americanos considera que o Partido Democrata é mais confiável para lidar com a economia do que os republicanos. 

“Os resultados gerais do novo inquérito revelam um eleitorado que perdeu a confiança no presidente, que está profundamente preocupado com a sua decisão de entrar em guerra contra o Irão, que sente na carteira os reflexos desse conflito – especialmente no preço dos combustíveis – e que, atualmente, deposita mais confiança nos democratas do que nos republicanos para lidar com as principais questões”, referia então o Washington Post. “Hoje, 72% afirmam que o país está a caminhar na direção errada – um aumento de cinco pontos percentuais em relação a abril.”

Ao mesmo tempo, outras sondagens recentes apontam para um maior entusiasmo entre os eleitores democratas do que os republicanos nesta ida às urnas. Se as tendências observadas se traduzirem em votos, isso pode sinalizar uma grande vitória democrata. Também há sinais de que os eleitores latinos – que foram fulcrais para a vitória de Trump em 2024 – podem estar a retornar ao Partido Democrata, devido à frustração com a economia e às táticas anti-imigração da atual administração.

Apesar de tudo, uma vitória esmagadora dos democratas está longe de estar garantida. Os republicanos ainda podem vir a beneficiar do ceticismo persistente em relação aos democratas, uma tendência que tem vindo a sair reforçada a cada ciclo eleitoral desde o fim do segundo mandato de Barack Obama há uma década. O partido no poder também pode beneficiar da vantagem em gastos com a campanha e do receio dos eleitores moderados perante alguns dos candidatos mais progressistas do Partido Democrata em eleições primárias desde o início do ano.

A última sondagem da Universidade Siena para o New York Times antes das eleições apontava aos democratas uma vantagem de 11 pontos percentuais, na ordem dos 52% contra 41% de intenções de votos nos republicanos, com base nas respostas de prováveis eleitores sobre os candidatos específicos à Câmara dos Representantes nos seus respetivos círculos eleitorais.

Nenhum partido conquistou uma margem tão ampla desde 2008, quando os democratas alcançaram esse feito no ano em que Barack Obama foi eleito presidente pela primeira vez. Embora o desfecho das intercalares vá ser decidido assento a assento, um resultado próximo deste inquérito de opinião garantiria uma ampla maioria ao Partido Democrata na câmara baixa do Congresso, oferecendo à atual oposição plenas condições de conquistar estados atualmente alinhados com os republicanos.

As sondagens têm apontado sustentadamente para a vitória dos democratas na Câmara dos Representantes, com menos certezas sobre a possiblidade de o partido passar a controlar também o Senado. foto Nic Antaya/AP

6. E o que mostram as intercalares anteriores?

Se tivermos em conta o passado recente, e não tão recente, o jogo das probabilidades é favorável ao Partido Democrata – historicamente, o partido na presidência perde sempre terreno para a oposição em ano de eleições intercalares. 

A título de exemplo, nas intercalares de 2010, ao final dos primeiros dois anos do primeiro mandato do democrata Obama, os republicanos conquistaram vitórias expressivas, arrematando 63 assentos adicionais na Câmara dos Representantes, num cenário de baixo desempenho da economia. Nesse ano, o partido no poder conseguiu manter o controlo do Senado, mas perdeu seis assentos em relação à maioria que conquistara dois anos antes.

Já em 2018, ao final dos primeiros dois anos da primeira administração Trump, os democratas tiveram a sua revanche, conquistando mais 40 assentos na Câmara dos Representantes, ainda que tenham perdido dois assentos no Senado.

Olhando para toda a história das eleições norte-americanas, o partido do presidente no poder perdeu sempre assentos no Congresso em anos de intercalares, havendo apenas duas exceções a essa regra, em 1934 e novamente em 2002, durante o primeiro mandato de George W. Bush, cerca de um ano depois dos atentados do 11 de setembro.

7. Como é que os resultados podem afetar a presidência?

Dado o historial, as intercalares costumam sempre representar um terreno perigoso para quem está na Casa Branca e em maioria no Congresso. E em 2026, a potencial vitória dos democratas nestas eleições ameaça colocar Trump e os republicanos numa posição política particularmente delicada. Esta ida às urnas é, antes de mais, lida como uma primeira avaliação do desempenho do presidente – e uma avaliação negativa, leia-se, uma vitória do partido da oposição, pode em teoria levar a administração a mudar de rumo.

O Congresso é responsável por aprovar projetos-lei e orçamentos federais e, mesmo que um partido conquiste a maioria em ambas as câmaras, isso pode não ser suficiente para controlar a pauta legislativa do país. Na Câmara dos Representantes, as leis podem ser aprovadas por maioria simples, mas no Senado costuma ser necessária uma maioria de 60 votos para superar um procedimento conhecido como ‘filibuster’ (obstrução legislativa), que permite que um grupo minoritário paralise a tramitação de uma proposta de lei por tempo indeterminado a menos que se alcance essa maioria qualificada.

Os números de assentos que cada partido vai conseguir conquistar – e o impacto disso nas políticas do presidente e do seu partido – importam precisamente por isso. Mesmo quando um projeto de lei é aprovado nas duas câmaras, o presidente ainda pode vetar qualquer proposta que chegue à sua mesa – e, para derrubar um veto presidencial, é necessária uma maioria qualificada de dois terços, quer na Câmara dos Representantes, quer no Senado.

Conseguir o amplo apoio bipartidário necessário para reverter um veto presidencial é uma coisa rara na política norte-americana – aconteceu pela última vez em janeiro de 2021, no final do primeiro mandato de Trump, quando, após a sua derrota por Joe Biden, uma parte dos legisladores republicanos se juntou aos democratas para impedir o veto do presidente de saída a um projeto-lei sobre gastos com Defesa.

Para além de tudo isto, os resultados das intercalares também costumam oferecer pistas sobre quem serão os eventuais candidatos à presidência nas próximas eleições, no caso em novembro de 2028 – às quais Trump não pode ser candidato –, e sobre como ambos os partidos podem ajustar as suas mensagens ao eleitorado ao longo dos próximos dois anos.

Trump tem proferido ameaças de corte de fundos federais a estados onde os republicanos podem ser derrotados pelos democratas e continua a alimentar a retórica falsa de que esta eleição poderá a vir ser "roubada", como mantém que as presidenciais de 2020 também o foram, apesar de vários tribunais já terem rejeitado essa tese. foto Jacquelyn Martin/AP

8. A administração Trump vai tentar interferir nas eleições?

Desde a sua derrota para Joe Biden nas presidenciais de 2020, Trump tem insistido na tese de uma eleição “roubada”, apesar de dezenas de decisões judiciais terem apontado o contrário nos últimos seis anos. E a poucas semanas das intercalares, o presidente continua a promover essa narrativa, alegando que os democratas só serão capazes de recuperar uma maioria de assentos na Câmara e no Senado por via de uma fraude em larga escala.

Também por isso, estas intercalares prometem ser as mais escrutinadas na história política norte-americana, com 1.000 observadores treinados pelo Departamento de Justiça, a par de ativistas e “cidadãos jornalistas”, mobilizados para garantir que o processo eleitoral decorra sem problemas.

Duas semanas antes da ida às urnas, o Washington Post noticiou que um pequeno grupo de oficiais de segurança nacional dos EUA passou os últimos meses a orientar, de forma discreta, governos estaduais e legisladores do Congresso, preparando-os para a possibilidade de o governo Trump tentar interferir nestas eleições.

O jornal citava pessoas envolvidas na iniciativa, que inclui cerca de 10 autoridades, atuais e ex-oficiais federais com experiência no Departamento de Defesa, algumas delas “anteriormente dedicadas ao combate ao autoritarismo no estrangeiro”. Segundo as fontes, a decisão de criar este grupo foi motivada “não por um viés político mas pela crescente preocupação de que o presidente Donald Trump possa prejudicar a democracia americana ao minar a integridade do processo eleitoral, visando manter o Partido Republicano no poder”.

Ainda de acordo com a investigação do WaPo, o grupo de atuais e ex-oficiais consultou autoridades de 10 estados, incluindo governadores, responsáveis eleitorais e membros da Câmara dos Representantes e do Senado de ambos os partidos, que partilham do receio sobre uma intervenção federal no plebiscito – com a iniciativa concentrada sobretudo em estados e jurisdições que vão albergar algumas das corridas mais acirradas deste ciclo eleitoral.

Dias depois da publicação, a Newsweek fez um apanhado das várias ameaças concretas que Trump já fez caso os republicanos percam assentos por um ou mais estados, nomeadamente cortar fundos federais de apoio à recuperação de catástrofes naturais.

Há precisamente um ano, a propósito do lançamento do seu livro sobre o Projeto 2025 em Portugal, o jornalista norte-americano David A. Graham já tinha adiantado à CNN Portugal vários potenciais cenários de intervenção e manipulação destas intercalares pela atual administração, invocando "toda uma panóplia de formas e lugares em que Trump e os seus aliados poderiam tentar interferir nos resultados.

Entre eles, Graham cita a hipótese de haver "tropas federais ou agentes das forças de segurança nas ruas para intimidar os eleitores", seguida de "Trump a tentar exigir que a contagem de votos seja interrompida”, passando pela eventual mobilização das Forças Armadas em caso de protestos, “alegando que há uma rebelião ou um distúrbio civil em curso”.

Neste último caso, vaticinava o jornalista da revista The Atlantic em novembro do ano passado, “poderíamos ver as Forças Armadas ou o FBI a apreender urnas eletrónicas, algo que eles chegaram a considerar fazer em 2020, o que prejudicaria a cadeia de custódia e tornaria o voto pouco fiável”. Posteriormente, haveria ainda a possibilidade de a administração contestar os resultados por via dos tribunais e “chamadas telefónicas de Trump e de outros funcionários para autoridades locais na tentativa de as convencer a alterar os resultados” – coisas que aconteceram após a derrota de Trump há seis anos.

A menos de duas semanas do ato eleitoral, a administração Trump anunciou que pretende não certificar os resultados na corrida ao Senado dos EUA pelo estado do Alasca, sob a alegação incomum de que o nome do terceiro candidato no boletim de voto pode confundir os eleitores.

Perante os cenários mais catastróficos, contudo, há quem acredite que a vontade da presidência em interferir nestas intercalares não passará muito disso. “Nenhum desses cenários afeta, de facto, a votação em si”, escrevia em outubro Lauric Henneton, especialista em política norte-americana, num longo artigo no Le Monde intitulado “Trump dispõe de muitos mecanismos para tumultuar as eleições intercalares, mas conta com muito menos meios para transformar uma derrota em vitória”.

Henneton integra a barricada de analistas que defende que, para alterar de facto o resultado das eleições, “seria necessário invalidar votos válidos em larga escala e/ou contabilizar votos inválidos, produzir uma certificação que contrarie a realidade ou, por fim, convencer o Congresso a exercer a sua prerrogativa de julgar a eleição dos seus próprios membros, alterando a distribuição de um ou mais assentos” – e em cima disso, seria ainda necessário que houvesse provas de fraude tão irrefutáveis a um tal ponto que um juiz as aceitasse.

Em última instância, mesmo que Trump não consiga evitar uma vitória dos democratas numa ou nas duas câmaras do Congresso, a hipótese provável de reforçar a retórica sobre “roubo eleitoral” levará a que uma parte do eleitorado parta rumo às próximas presidenciais convencida de que uma vitória democrata é, por natureza, suspeita. Como refere o especialista francês, “é improvável que Trump consiga ‘roubar’ as eleições intercalares – [mas] o que ele pode fazer é convencer milhões de americanos de que a eleição lhe foi roubada, deslegitimar a maioria democrata durante dois anos, corroer ainda mais a legitimidade eleitoral e transformar 2028 numa eleição de revanche”.

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