A "Bíblia" de Trump: "Os arquitetos do Projeto 2025 têm uma visão de um mundo cristão e a Europa é realmente importante para isso"

15 nov, 07:30
Projeto 2025 Heritage Foundation campanha presidenciais 2024 Donald Trump (Charlie Neibergall/AP)

"Os arquitetos do Projeto 2025 não se importam com políticas específicas, estão mais preocupados em exportar a sua visão de mundo cristão, bíblico"

ENTREVISTA || Há duas grandes lições a tirar das eleições especiais da semana passada nos EUA, diz David A. Graham à CNN Portugal: "a oposição a Trump é uma boa estratégia política" mas "não há um único perfil ideológico vencedor" para os democratas conseguirem derrubar a atual administração. Após ter passado a campanha presidencial a rejeitar ligações ao Projeto 2025, Trump integrou no ramo executivo vários dos conservadores envolvidos na preparação desse guião ideológico. E agora, nada será como dantes, ressalta o autor do livro O Plano, à venda em Portugal a partir da próxima semana

Quando Donald Trump perdeu as eleições para Joe Biden em 2020, num processo que culminou com o ataque ao Capitólio pelos seus apoiantes a 6 de janeiro de 2021, um conjunto de influentes conservadores considerou que era preciso outro tipo de "assalto, organizado com todo o cuidado, ao governo dos Estados Unidos tal como ele existia". Como escreve o jornalista David A. Graham na introdução do seu mais recente livro, O Plano, "o próximo presidente republicano teria de repensar não apenas as políticas públicas mas também as questões mais fundamentais sobre o funcionamento do Estado e, talvez com igual importância, sobre os futuros protagonistas dessa missão".

Assim nasceu "a 'Bíblia' de Trump para transformar a América e o mundo", como Graham o define no subtítulo do livro, que chega aos escaparates portugueses na terça-feira. Delineado por Paul Dans, Russel Vought (que é o atual diretor do departamento de gestão e orçamento da Casa Branca) e outros elementos da Heritage Foundation, o Projeto 2025, do qual Trump tentou distanciar-se ao longo da campanha para as presidenciais de 2024, tem-se provado o guião de políticas e política da atual administração, de uma forma que já fez estragos impossíveis de reverter, nos EUA e no resto do mundo, defende Graham.

"Os autores do Projeto 2025 estão a conseguir ter aquilo que queriam: assumir o controlo do poder executivo, marginalizar o Congresso e dar mais poder ao presidente", diz em entrevista à CNN Portugal. Numa conversa que vai da mais longa paralisação governamental da história dos EUA às formas como Trump pode vir a tentar interferir nas eleições intercalares do próximo ano, o jornalista da revista The Atlantic avisa que "leis que parecem muito claras só são tão fortes quanto o Supremo Tribunal estiver disposto a torná-las e enquanto alguém puder aplicá-las". E adianta: "Este é o momento não necessariamente para reescrever a Constituição, mas para repensar como reequilibrar os poderes em Washington."

David A. Graham, jornalista de política e assuntos nacionais na revista norte-americana The Atlantic, falou com a CNN Portugal a partir da Carolina do Norte, onde vive; publicado nos EUA em abril, o seu novo livro chega em versão portuguesa já na próxima semana. foto DR

Mergulhou no Projeto 2025 já depois das presidenciais de há um ano, por considerar que o tema foi pouco debatido ou até mal interpretado durante a campanha. O que é que o surpreendeu mais ao ler o documento em comparação com o que já sabia?

Acho que a coisa que mais me surpreendeu foi que eu entendia algumas das políticas, mas não compreendia, em primeiro lugar, o cuidado com que haviam delineado os métodos para alcançá-las. E acho que também não entendia a profundidade da visão de sociedade que estava por trás do projeto. É, antes de mais, uma visão do mundo e, em segundo lugar, as maneiras pelas quais eles previam que essas coisas se concretizariam por meio de políticas governamentais. 

Uma espécie de guião sobre como implementar essas políticas para transformar a sociedade americana?

Exatamente. Quer dizer, muitos destes tipos de documentos [para orientar campanhas políticas] falam sobre políticas, mas não sobre como implementá-las, e acabam mais a parecer uma mera lista de desejos. Mas neste caso, eles pensaram muito bem em como reformular o governo e como fazê-lo funcionar para eles, de forma a concretizar os objetivos delineados. 

Estamos a falar no rescaldo do que muitos veem como a capitulação de oito democratas para pôr fim à mais longa paralisação da história do governo americano. Figuras proeminentes do partido, como o governador Gavin Newsom, têm criticado esses senadores por roerem a corda, e as críticas alargam-se aos media liberais - Jonathan Chait, seu colega na The Atlantic, diz que "cometeram um grande erro", Ezra Klein do New York Times ecoa a opinião. Concorda que capitularam?

É interessante ver tantas figuras de todo o Partido Democrata, tanto da esquerda quanto do centro, a criticar isso. É uma situação estranha, porque eu acho mesmo que uma paralisação do governo é um ambiente difícil para exercer poder e raramente funciona. Mas parecia que os democratas estavam a vencer politicamente. Acho que as promessas de Trump não estão a ser cumpridas, ele não vai cumprir as suas promessas. Então fiquei surpreso ao vê-los recuar dessa forma quando pareciam ter tanto ímpeto. E não sei quando é que eles terão outra oportunidade como esta para tentar conter Trump novamente. 

Refere-se a que promessas de Trump?

Uma das grandes questões aqui era que os democratas sabem que têm de concordar com um projeto de lei sobre a despesa. Isso exige 60 votos no Senado, mas os republicanos estão dispostos a usar uma medida de 50 votos para revogar algumas coisas. Então, qualquer acordo que os democratas façam pode não aguentar. Sob o acordo, os republicanos concordaram em levar a cabo uma votação sobre a extensão dos subsídios dos seguros de saúde, os subsídios do Obamacare. Mas não sabemos quando é que isso acontecerá e presumimos que será rejeitado. Então, é uma votação praticamente oca. E portanto, na minha opinião, eles abriram mão da sua influência por muito pouco.

Muitos não entendem a decisão de oito senadores em alinharem com os republicanos para acabaram com a mais longa paralisação governamental da história dos EUA. "Fiquei surpreso ao vê-los recuar dessa forma quando pareciam ter tanto ímpeto", assume Graham, "e não sei quando é que eles terão outra oportunidade como esta para tentar conter Trump novamente". foto AP

De certa forma isto só veio demonstrar ainda mais a grande divisão no Partido Democrata atualmente. Tem havido muitos debates internos e análises sobre como é que o partido deve lidar com este segundo mandato Trump, em muitos aspetos muito mais agressivo do que o primeiro: devem tornar-se mais progressistas e mais de esquerda? Devem moderar-se? Devem manter ou abandonar completamente o anti-Trumpismo? Devem tornar-se mais conservadores e aproximar-se mais de Trump para atrair parte dos eleitores que perderam...? Qual é a sua opinião?

Acho que as eleições da semana passada trouxeram duas lições. Uma delas é que oporem-se a Trump é uma boa estratégia política, para além de ser uma boa política pública. Vimos os democratas que se opuseram a Trump de várias maneiras a sair-se todos bem. E vimos uma grande participação eleitoral contra Trump. E acho que tudo isso aponta para a ideia de que trabalhar com Trump não leva a lugar nenhum. Novamente, não se ganha nada com isso. Ele só está interessado em conseguir o que quer e não é um bom aliado. E os eleitores estão descontentes com Trump - ele é muito impopular, os republicanos são muito impopulares, as suas políticas são impopulares.

A outra coisa que acho que as eleições da semana passada mostram é que não há um único perfil ideológico vencedor. Repare, na cidade de Nova Iorque, Zohran Mamdani é muito liberal, muito de esquerda - é um bom candidato para a cidade de Nova Iorque, mas provavelmente não teria sido um bom candidato a governador da Virginia. E na corrida a governadora da Virginia, tínhamos uma candidata moderada para um eleitorado moderado. No fundo, acho que os democratas estão a vencer onde escolhem pessoas que representam o eleitorado. E acho que não importa muito se eles são consistentemente de esquerda ou de direita. O Partido Republicano trabalhou duro para ter uma política unificada. O Partido Democrata também, mas há muitas facções diferentes dentro dele. E acho que, ao responder a essas facções individualmente, eles têm mais chances de vencer. 

Pouco antes dessas eleições entrevistei o cientista político Ruy Teixeira, cujo livro mais recente, escrito em parceria com John B. Judis, foi algo polémico - defendem que o Partido Democrata deveria tornar-se mais conservador em muitos dos aspetos ditos culturais da política. Se bem entendi, defende que, em vez disso, a resposta deve passar por adaptar cada candidato do partido a cada tipo de eleitorado. Nesse sentido, até que ponto podemos olhar para as eleições da semana passada como um prenúncio do que está para vir nas intercalares de 2026? Há quem considere que faz sentido, há quem considere que não, precisamente por causa desta questão de cada cidade e estado ter as suas particularidades...

Certo. Diria que são o melhor indicador que temos até agora, mas que não é um indicador muito bom para as eleições intercalares. A participação eleitoral foi algo que me chamou a atenção. Em 2018 e depois em 2022 vimos que os democratas estavam realmente empolgados para votar contra Trump ou contra candidatos alinhados com Trump. Mas também vimos uma alta desaprovação aos democratas, uma insatisfação geral entre os eleitores. O facto de, desta vez, estarem dispostos a comparecer em grande número, acho que faz uma grande diferença para a eleição. Isso sugere que há alguma energia.

Também acho que, de certa forma, isso significa que os democratas não têm uma resposta clara sobre o que fazer, porque estamos a ver muitos tipos diferentes de candidatos a vencer, quando acho que o partido está à procura de uma resposta clara e simples.

A outra coisa que eu diria é que todos estes candidatos ofereceram uma alternativa a Trump de uma forma ou de outra, não se limitaram a opor-se a Trump, ofereceram também algum tipo de política diferente. Tanto na Virgínia quanto em Nova Iorque, esta ideia de acessibilidade e custos elevados é algo que, ao mesmo tempo que se opõe a Trump, também oferece aos eleitores uma boia de salvação. Portanto, há uma visão positiva envolvida nisso.

Quando falo de alfaiataria, de adaptar os candidatos, também estou a pensar em Teixeira. Tomemos a cidade de Nova Iorque, onde havia dois democratas basicamente moderados naquela disputa, e ambos perderam para Mamdani porque era ali que os eleitores estavam. Os democratas chegaram a um ponto em que os eleitores acreditam que eles não se importam com os seus problemas. Os candidatos que venceram na semana passada conseguiram convencê-los do contrário. E, em parte, isso deve-se ao facto de terem dito aos eleitores o que vão fazer para mudar as coisas. Isso é um sucesso em ambos os casos. E isso meio que contorna algumas dessas questões culturais mais delicadas.

"Os democratas estão a vencer onde escolhem pessoas que representam o eleitorado, não importa se são de esquerda ou de direita. Na cidade de Nova Iorque, havia dois democratas basicamente moderados na disputa, e ambos perderam para Mamdani porque era ali que os eleitores estavam. Os democratas chegaram a um ponto em que os eleitores acreditam que eles não se importam com os seus problemas. E os candidatos que venceram na semana passada conseguiram convencê-los do contrário." foto Angelina Katsanis/AFP/Getty Images

Há uma semana também vimos a Proposta 50 ser aprovada na Califórnia, uma tentativa de oposição aos esforços atuais dos republicanos de gerrymandering e redistribuição de distritos eleitorais, que o partido de Trump já está a tentar reverter. Recentemente, o David publicou um artigo que tem por base um cenário imaginado relacionado com a integridade eleitoral, sob o título “O plano de Donald Trump para subverter as intercalares já está em andamento”. Pode explicar-nos esse cenário? E qual é a probabilidade de se concretizar no próximo ano? 

Sim. Então, o que eu imaginei passa-se no condado de Maricopa, no Arizona, perto de Phoenix, onde há dois distritos eleitorais muito disputados, muito próximos. Neste momento estão indefinidos e a minha expectativa é que continuem assim até às eleições do próximo ano. E, no fundo, imaginei as várias maneiras pelas quais Trump poderia tentar interferir nesses distritos.

A primeira seria ter tropas federais ou agentes das forças de segurança nas ruas para tentar intimidar os eleitores. Depois, poderíamos ver Trump a tentar exigir que a contagem de votos fosse interrompida na noite eleitoral - ele tem vindo a argumentar que todos os votos deveriam ser contados até à noite da eleição e poderia usar o Departamento de Justiça para ameaçar as autoridades locais.

Poderíamos vê-lo mobilizar as Forças Armadas em caso de protestos, alegando que há uma rebelião ou um distúrbio civil em curso. Poderíamos ver as Forças Armadas ou o FBI a apreender as urnas eletrónicas, algo que eles chegaram a considerar fazer em 2020, o que prejudicaria a cadeia de custódia e tornaria o voto pouco confiável. Poderíamos ver processos judiciais para tentar anular os resultados. Poderíamos ver chamadas telefónicas de Trump ou de outros funcionários para autoridades locais, na tentativa de convencê-las a alterar os resultados, como vimos em 2020. E, finalmente, poderíamos ver os republicanos na Câmara dos Representantes recusar-se a empossar democratas.

Há toda uma panóplia de formas e lugares em que Trump poderia tentar interferir nos resultados, Trump e os seus aliados.

Ia precisamente pedir-lhe uma comparação com 2020, porque este não é um cenário assim tão descabido se considerarmos o que aconteceu nesse ano, antes de Trump ser derrotado por Joe Biden nas urnas e até à invasão do Capitólio a 6 de janeiro de 2021. Algumas das coisas que invocou já estão a ter lugar, como o destacamento de tropas, em particular para cidades e estados democratas… Como olha para o que pode vir a acontecer em 2026 à luz do que se passou em 2020?

Estou preocupado que venha a ser mais do que em 2020. Acho que estás absolutamente certa, já vemos algumas dessas coisas, como o envio de tropas, a acontecer. Vemos que eles aprenderam com alguns dos seus erros em 2020, acho que estão mais sofisticados, estão a pensar na lei e nos métodos com mais clareza. E também estão mais dispostos a fazer coisas que não fariam em 2020.

Em 2020 falaram sobre confiscar as urnas eletrónicas, mas não o fizeram. Falaram em usar as forças armadas, mas não o fizeram. E todas as coisas que tentaram em 2020 não tiveram consequências sérias para Trump, apenas para algumas pessoas próximas dele. Então acho que ele estaria inclinado a fazer todas essas coisas novamente. É muito difícil prever as ações dele, mas acho que existem muitas maneiras pelas quais eles podem interferir nas eleições e muito pouco para os conter neste momento.

O que poderiam os democratas fazer se algumas ou todas essas coisas realmente se concretizassem no próximo ano? 

Acho que essa é uma ótima pergunta. Quer dizer, acho que os tribunais são provavelmente a melhor maneira de conter Trump. Acho que as pessoas podem apoiar as autoridades locais. A questão é que os democratas têm tão pouco poder em Washington que, além de interporem ações judiciais, de tentarem usar os tribunais e chamar a atenção para o assunto, não têm grande poder.

Além dos tribunais, acho que a outra coisa poderosa são os eleitores. Se virmos uma participação particularmente alta contra candidatos apoiados por Trump, será muito mais difícil interferir nas eleições. Uma eleição acirrada pode ser defraudada. Com uma vitória esmagadora isso é muito mais difícil. Então, acho que a participação e o voto farão uma grande diferença no que toca ao que Trump possa tentar fazer.

"Para os autores do Projeto 2025, Trump representa uma oportunidade de assumirem o controlo do governo e todos saem a ganhar." foto EPA

Voltando ao seu livro, em vários capítulos há esta sensação de que Trump e os arquitetos do Projeto 2025 não estão totalmente alinhados em alguns aspectos. Quem está a instrumentalizar quem ou quem é que está a controlar quem nesta charada?

Acho que funciona nos dois sentidos. Trump ganha uma equipa de pessoas profundamente empenhadas na sua administração, que o apoiam e fazem as coisas acontecerem, algo que ele não tinha no seu primeiro mandato. E também ganha controlo sobre coisas como o Departamento de Justiça, que lhe permite seguir as suas prioridades, como a retaliação contra inimigos políticos.

Para os autores [do Projeto 2025], Trump representa uma oportunidade de assumirem o controlo do governo que não tinham antes e implementar essas políticas, especialmente as políticas socialmente conservadoras, com as quais Trump não está tão preocupado. Todos saem a ganhar. Acho que o ponto em que os vemos a fazer concessões é em algo como as tarifas – acho que os autores do Projeto 2025 entendem que Trump se importa com as tarifas e que é algo que ele vai querer fazer e eles estão dispostos a comprometer as suas crenças ou a ceder nisso para obter poder sobre outras coisas que desejam. 

Já contamos cerca de 10 meses de Trump 2.0…

Parece que é mais... [risos]

E há esta sensação, também ao ler o seu livro, de que o mal já está feito, que as mudanças e reformas que já foram implementadas são tão profundas e abrangem tantos estratos do aparato político que é impossível voltar atrás, mesmo que os democratas reconquistem a Câmara e/ou o Senado em 2026 e até a Casa Branca em 2028. Fará alguma diferença que o consigam? 

Sim, quero dizer, acho que faz diferença, mas não acho que haja como voltar atrás. Acho que será mais uma questão de refundação. Quer os republicanos permaneçam no poder, quer os democratas assumam o poder, será uma questão de repensar a forma como o governo americano funciona. Posso imaginar dois cenários com um presidente democrata. Um deles é um presidente democrata que basicamente tenta agir da mesma forma que Trump, usando poder irrestrito para atingir os seus objetivos, tentando contornar o Congresso, usando o poder executivo da mesma maneira, simplesmente pela esquerda. Ou posso imaginar uma tentativa de reforma. 

Há, contudo, coisas que veremos de certeza – o governo federal será mais pequeno para o próximo presidente. O presidente terá mais controlo sobre as agências reguladoras. Todos esses poderes estarão em vigor. E, portanto, quem assumir o poder terá de descobrir como trabalhar nesse sistema. E acho que o Congresso vai ter de repensar que tipo de poderes possui, quer em relação a gastos excessivos quer quanto a regulamentações excessivas, por exemplo.

Isso está diretamente ligado à ideia que defende várias vezes no livro, de que os autores do Projeto 2025 não estão errados nalgumas críticas, simplesmente apresentam más soluções para os problemas invocados…

Sim, e no caso acho que os autores do Projeto 2025 estão certos ao dizer que o Congresso é disfuncional há muito tempo. Só que a resposta deles é simplesmente contornar o Congresso. Acho que uma resposta melhor seria fazer o Congresso funcionar melhor. E o que eu gostaria de ver como resultado disso é, em vez de tentar voltar ao que era em 2021 ou 2015, tornar o Congresso mais eficaz e restabelecer o equilíbrio de poder. Diria que este é o momento de repensar – não necessariamente para reescrever a Constituição, mas repensar como reequilibrar os poderes em Washington.

O novo livro de David A. Graham sobre o Projeto 2025 chega às livrarias portuguesas a 18 de novembro, com chancela D. Quixote

Esta semana o Politico publicou um artigo sobre "como a Heritage Foundation está a passar do MAGA para o MEGA”, ou seja, 'Make Europe Great Again'. O site noticia reuniões, deste e desse lado do Atlântico, entre membros da fundação ligados ao Projeto 2025 e líderes e representantes da extrema-direita de vários países europeus, inclusivamente aqui ao lado, em Espanha. Sabemos que Trump olha para a UE como um bloco criado para enfraquecer os EUA, sabemos o tipo de discurso que J.D. Vance veio fazer aos europeus em Munique em fevereiro, mas no livro não há referências à Europa, apenas à NATO. Como é que os autores do Projeto 2025 olham para a Europa e, em particular, para a UE e de que forma é que essa visão está ou não alinhada com a de Trump?

Em termos do que está no Projeto 2025, fiquei surpreendido com o quão pouco se fala sobre a Europa. Acho que muito disso se deve ao foco excessivo na China. Eles limitam-se a olhar para um mundo bipolar, onde é EUA contra China. E quase todo o pensamento deles sobre política externa gira em torno das formas de conter a China ou de como se aproximarem da China. 

Trump tem esta espécie de antipatia em relação à Europa, essa atitude de soma zero a respeito da UE. Mas entre os autores do projeto não há a mesma antipatia, vemos apenas um pouco de desinteresse, é como se eles não se importassem. Acho que eles se interessam pela Europa na medida em que querem aliados para ajudar, por exemplo, a conter a Rússia, outra coisa com a qual Trump não se importa, e também na luta contra a China. Mas há realmente uma indiferença em relação à Europa do ponto de vista político.

Tendo em conta que é um documento tão extenso, achei surpreendente o quão pouco eles parecem ter pensado na Europa. Sabe, acho que o que vemos nas pessoas envolvidas no Projeto 2025, na forma como elas pensam sobre o mundo, é esta ideia de uma direita global. Eles inspiraram-se particularmente na Hungria, mas também noutros movimentos de direita, como o de Geert Wilders [nos Países Baixos], por exemplo, e têm esta ideia de exportar as suas ideias, particularmente sobre uma espécie de sociedade cristã, bíblica, e querem trabalhar com a direita global para a alcançar.

Nesse sentido, existem conexões, por exemplo, com o Brasil, com Espanha, com a Hungria, com a AfD na Alemanha ou com o Reform UK [de Nigel Farage] na Grã-Bretanha. Ao mesmo tempo, não se importam com políticas específicas, estão mais preocupados em exportar a visão que têm para outros lugares, a visão sendo esta ideia de um tipo de mundo cristão. E a Europa é realmente importante para isso, obviamente.

Ainda deste lado do Atlântico, gostava de abordar o escândalo que, esta semana, levou à demissão de dois diretores da BBC. Alastair Campbell, antigo porta-voz do primeiro-ministro Tony Blair, diz que “a tática de Trump de atacar os media que lhe são críticos e recompensar a bajulação jornalística está a funcionar a seu favor nos EUA e agora está a deixar a sua marca aqui”, na Europa, e que “não podemos permitir que a direita maligna destrua a BBC”. Com o Presidente dos EUA a ameaçar processar a BBC por difamação, exigindo uma indemnização de até mil milhões de euros, que leitura faz deste caso?

É interessante. De certa forma, é uma clara extensão do que Trump tem vindo a fazer nos Estados Unidos em termos de intimidação dos media. E acho que ele vê as leis britânicas de difamação como melhores do que as americanas, porque são mais restritivas e oferecem mais margem de manobra para pessoas como ele processarem. Mas é muito estranho vê-lo a processar uma emissora pública. Parece-me quase uma interferência americana nos assuntos internos da Grã-Bretanha. 

Para Graham, o escândalo na BBC que levou à demissão dos diretores Tim Davie (na foto) e Deborah Turness "é uma clara extensão do que Trump tem vindo a fazer nos EUA em termos de intimidação dos media"; "temos visto o governo Starmer a tentar apaziguar Trump e a trabalhar com ele e estou curioso para ver como isto se vai desenrolar", adianta, após o Presidente dos EUA ter indicado que pretende levar o canal público britânico a tribunal por difamação. foto Kin Cheung/AP

Ao mesmo tempo, parece que, muitas vezes, Trump está muito atento a como tem de responder aos seus eleitores, mas não entende que outros líderes estrangeiros e outros governos estrangeiros também têm um público com o qual lidar. Ele simplesmente não tem noção do tipo de pressão que o governo britânico sofre, por exemplo. Espera que eles trabalhem de acordo com o que ele precisa, e acho que vemos isso aqui também. Ele fica feliz por interferir sempre que possível até que alguém lhe diga que não pode. E o que temos visto da parte do Governo Starmer é que, de um modo geral, está a tentar apaziguar Trump e a tentar trabalhar com ele. E nesse sentido estou curioso para ver como é que isto se vai desenrolar. 

No final da introdução no seu livro, cita uma frase do "Mandate for Leadership", a base do Projeto 2025, em que o líder da Heritage Foundation, Kevin Roberts, diz que os conservadores “têm apenas dois anos e uma única oportunidade para acertar”. Considerando tudo isto, diria que estão a acertar?

Acho que estão a conseguir ter aquilo que querem. Acho que tiveram mais sucesso do que eu esperava, e talvez até mais do que eles próprios esperavam. O que eles tinham de fazer era, o mais importante para eles, era assumir o controlo do poder executivo, marginalizar o Congresso e dar mais poder ao presidente. Acho que fizeram isso de forma mais eficaz do que a maioria das pessoas esperaria neste curto período, e isso permitir-lhes-á fazer muitas outras coisas.

Mesmo que eles percam as eleições intercalares, dependendo da magnitude da derrota, o presidente já terá muito mais poder e eles terão conseguido concretizar muito. E isso prepara o terreno para políticas mais conservadoras e de direita no futuro. Fiquei mesmo surpreendido com o sucesso que eles tiveram e com o quanto já avançaram na reformulação do governo e na mudança da sociedade americana.

Falando nisso, desde a vitória de Trump há um ano, temos visto muitas figuras da sociedade norte-americana, como professores da Universidade de Yale, a fugir dos EUA, invocando que o país está a resvalar ou já resvalou para o fascismo e o autoritarismo. De que forma é que isso está ligado ao Projeto 2025? E que expectativas tem quanto ao futuro do seu país?

De muitas maneiras vejo um declínio rumo ao autoritarismo, facilitado em grande parte pelo Projeto 2025. Sabe, há uma citação no projeto sobre liberdade, em que eles falam da “liberdade não de fazer o que queremos, mas o que devemos”. Essa é uma ideia muito autoritária. O que devemos segundo quem? É um autoritarismo baseado na religião.

Temos pressão sobre os media independentes, pressão sobre as universidades, pressão sobre as sociedades de advogados, pressão sobre os estados democratas, menos restrições ao presidente por parte do Congresso ou dos tribunais. Toda essa visão, na minha opinião, está a infringir muitas liberdades americanas, e eles estão a tentar exportar essas ideias para o mundo todo. Acho que Trump tem uma espécie de autoritarismo reflexivo, mas ele não é um pensador político profundo, um líder que pense as políticas públicas a fundo. E o que o Projeto 2025 faz é criar maneiras para ele estabelecer o tipo de governo autoritário que ele sempre quis. 

Um tipo de governo autoritário para ele ou para qualquer outro, certo?

Exato, ele ou qualquer outra pessoa. Ele é uma pessoa que tende a pensar no curto prazo, e eles [arquitetos do Projeto 2025] estão a pensar não apenas no que podem fazer no mandato de Trump mas no que podem fazer com o próximo presidente e com o que vier a seguir a esse. Penso que eles querem mudar a sociedade americana em poucas décadas e [a administração Trump] é outro sítio onde podem trabalhar todos juntos nesse sentido.

Um dos "homens dos bastidores" da Heritage Foundation e do Projeto 2025 é Paul Dans; sobre o "outsider", David A. Graham escreve no livro: "Comparando-se, com vanglória, a Cincinato, o estadista romano que abdicou do poder para regressar à vida simples no campo, Dans decidiu recolher-se à vida privada e dedicar-se aos seus assuntos pessoais [após o primeiro mandato de Trump]. Quando Kevin Roberts o convidou para liderar o Projeto 2025, Dans estava pronto paa assumir essa responsabilidade." foto George Walker IV/AP

Como devemos encarar então esta hipótese de um terceiro mandato Trump? Há vezes em que o presidente parece colocar essa hipótese, depois afasta-a mas diz que gostava… E pelo meio vai havendo discussões sobre o que é que a Constituição permite ou não. O que pode acontecer em 2028?

A lei é muito clara. Mas acho que algo que vimos, mesmo nestes últimos 10 meses, é que leis que parecem muito claras só são tão fortes quanto o Supremo Tribunal estiver disposto a torná-las e enquanto alguém puder aplicá-las. E acho que é aí que reside a ambiguidade.Trump já falou bastante sobre isso, mas acho que não podemos mais descartar isso como uma simples piada. Acho que uma parte disso é ele a tentar evitar parecer um presidente sem poder. Ele quer manter alguma influência. Há esse lado. E depois acho que ele adoraria poder permanecer no poder. 

Muitas vezes, o que vemos acontecer é que ele apresenta ideias com bastante antecedência, e elas são ultrajantes quando ele fala delas pela primeira vez, e depois ele continua a falar sobre elas e, quando as implementa, passam a parecer não aceitáveis mas muito mais normais. E isso também me preocupa.

Por outro lado, diria que uma razão pela qual houve apenas um presidente que cumpriu mais de dois mandatos, mesmo antes da mudança na Constituição, é que as pessoas se cansam de um líder depois de oito anos. As pessoas já estão cansadas de Trump, basta ver a taxa de aprovação dele. Então é difícil imaginá-lo com um mandato popular para um terceiro mandato. A questão é se ele tentaria conseguir isso contornando as pessoas. E já o vimos tentar subverter uma eleição antes, pelo que não descartaria essa possibilidade.

Considerando então essa baixa taxa de popularidade de Trump neste momento, quem diria que poderiam ser os candidatos do Partido Republicano e do Partido Democrata a disputar a presidência em 2028? Pelo menos do lado dos democratas, tem sido muito difícil e complicado prever quem poderá ser a figura a sair vitoriosa das primárias...

Acho que, do lado republicano, é praticamente certo que a nomeação irá para J.D. Vance, a menos que ele a perca. Ele está na posição certa para isso. E está muito alinhado com a visão do Projeto 2025, acho que essa também é a visão dele para a sociedade. A questão em aberto é se ele tem a habilidade política e o carisma, e não tenho a certeza se terá. Acho que ele é muito inteligente, mas não é um candidato assim tão atraente. E acho que, se ele vacilar, veremos alguém como Marco Rubio, que está ansiosamente à espera para voltar à disputa. 

Do lado democrata, é muito difícil prever. Sinto que, de semana para semana e de mês para mês, um ou outro candidato se vai destacando. Neste momento, eu diria que Gavin Newsom [governador da Califórnia] e J.B. Pritzker [governador do Illinois] são os dois candidatos mais óbvios. Acho que ambos têm trabalhado muito para construir um perfil nacional, enfrentando Trump, e ambos têm uma boa posição enquanto governadores.

O atual governador da Califórnia, Gavin Newsom, é tido como um dos mais bem posicionados para conseguir a nomeação democrata e disputar a presidência em 2028. "É um tipo tão estranho, temo-lo visto a ir a podcasts conservadores, o que também é outra forma de fazer essa jogada [populista]…", diz David A. Graham. "É um camaleão, não entendo muito bem qual é a sua identidade política ou onde poderá estar em 2027." foto Justin Sullivan/Getty Images

Mas quer dizer, J.B. Pritzker é um milionário… Como é que um milionário consegue passar a mensagem que discutíamos há pouco, provar que é alguém que se preocupa com as pessoas e que vai dar resposta às suas preocupações económicas e ao elevado custo de vida?

Pois, é interessante. Achei que ele seria muito mau nisso quando surgiu na política e agora acho que ele tem sido surpreendentemente bom. Fiquei surpreendido com a facilidade com que ele consegue, para alguém criado num ambiente tão privilegiado, abordar essas preocupações tão bem. E, sabe, Chicago é uma cidade tão operária... Ainda assim, não vejo nenhum democrata que possa ser um verdadeiro populista como Trump. O único democrata que realmente tem essa capacidade é Bernie Sanders, que já se candidatou antes e que provavelmente está velho demais para se candidatar novamente. Mas acho que todos os democratas vão aprender lições com o que Sanders e Trump fizeram para tentar falar mais diretamente com a classe trabalhadora.

Gavin Newsom tem usado as táticas de Trump contra o próprio Trump, o que acaba por ser uma estratégia bastante populista, não concorda?

Sim, tem feito aquelas coisas no Twitter, de imitar o Trump, mas é esquisito porque… é uma estratégia populista, mas ao mesmo tempo parece uma espécie de paródia. Fica-se um bocado ‘estás a fazer isto a sério ou estás só a gozar com ele?’ É uma coisa esquisita, não sei bem. Newsom é um tipo tão estranho, temo-lo visto a ir a podcasts conservadores, o que também é outra forma de fazer essa jogada… É um camaleão. Não entendo muito bem qual é a sua identidade política ou onde poderá estar em 2027.

Portanto, mantém que não existe nenhum democrata à data que compita com o populismo de Trump, que tenha o mesmo alcance político?

Sim, não creio que haja… Quer dizer, a Alexandra Ocasio-Cortez ainda é muito nova, mas diria que é a óbvia porta-estandarte nesse sentido. Não sei se seria uma candidata nacional de sucesso, mas acho que vai ser uma força importante nessa conversa.

E.U.A.

Mais E.U.A.