Isaac Herzog vai entregar a Gadi Eisenkot a missão de formar um novo executivo, depois de o líder da oposição ter reunido o apoio de 67 deputados. Netanyahu, que perdeu a maioria parlamentar, acusa os partidos árabes de apoiarem o Hamas e antecipa uma vaga de violência superior à dos protestos em cidades europeias
Benjamin Netanyahu ainda é primeiro-ministro de Israel, mas está cada vez mais perto de perder o poder.
A derrota da sua coligação nas eleições de 27 de outubro abriu caminho a Gadi Eisenkot, antigo chefe das Forças Armadas, que recebeu este sábado a missão de tentar formar um novo Governo. A resposta de Netanyahu não tardou: num vídeo dirigido aos israelitas, advertiu que o país poderá mergulhar numa onda de violência se a oposição chegar ao poder com o apoio dos partidos árabes. E foi mais longe, garantindo que, nesse cenário, a própria sobrevivência de Israel estará em risco.
"O fogo e as chamas que vemos nas ruas de Paris e Bruxelas parecerão insignificantes em comparação com o fogo e as chamas que veremos nas ruas de Jerusalém, Telavive, Haifa e nas restantes cidades de Israel", declarou Netanyahu, no segundo vídeo que divulgou desde as eleições legislativas. "Isto não é uma fantasia. Não se trata de táticas para espalhar o medo. É a realidade que enfrentaremos e, por isso, temos de a evitar", acrescentou. "Porque está em jogo a nossa própria sobrevivência. Com um Governo como este, Israel simplesmente não sobreviverá."
As declarações surgiram poucas horas antes de a Presidência israelita anunciar que Isaac Herzog decidiu entregar a Gadi Eisenkot a responsabilidade de formar um novo Governo. A cerimónia está marcada para domingo, às 17h00 locais, 15h00 em Portugal continental, na residência presidencial.
O resultado das eleições explica o impasse. O Likud, partido de Netanyahu, venceu com 27 deputados, mas a coligação governamental ficou reduzida a 53 lugares, oito abaixo da maioria absoluta. Eisenkot, por sua vez, recebeu o apoio de partidos que representam 67 deputados, incluindo os 19 eleitos pelas duas formações árabes, o Raam e a Lista Conjunta. Netanyahu reuniu recomendações de apenas 46 parlamentares.
É precisamente na participação dos partidos árabes que o primeiro-ministro concentra agora a sua estratégia. Netanyahu apelou à formação de um "Governo de unidade nacional", mas com uma condição: manter os partidos da sua atual coligação, incluindo as forças ultranacionalistas e religiosas, e acrescentar-lhes deputados ou partidos da oposição.
Na prática, pretende que os adversários contribuam para uma maioria que preserve a sua base política. Para justificar a proposta, acusou o Raam e a Lista Conjunta de serem apoiantes do Hamas, uma classificação política contestada e que não corresponde à caracterização dos dois partidos, legalmente representados no Parlamento israelita.
Apesar de terem recomendado Eisenkot para primeiro-ministro, as duas formações árabes não têm garantida a participação num futuro executivo. O próprio líder da oposição afastou a hipótese de governar em coligação com estes partidos, embora o Raam tenha manifestado disponibilidade para integrar um Governo.
A situação deixa Eisenkot perante um problema: tem o apoio de uma maioria de deputados para tentar formar Governo, mas não dispõe ainda de uma maioria que aceite governar em conjunto.
Netanyahu conhece estas divisões e procura explorá-las, apresentando a eventual chegada dos adversários ao poder como uma ameaça à segurança nacional.
A escolha de Herzog também não significa que a mudança de Governo esteja garantida. Eisenkot terá 28 dias para negociar uma maioria parlamentar, prazo que poderá ser prolongado por mais 14 dias. Se não conseguir reunir os apoios necessários, o Presidente poderá entregar a missão a outro deputado, mantendo-se aberta a possibilidade de novas eleições.
Até à tomada de posse de um novo executivo, Netanyahu continuará em funções. O primeiro-ministro, que acumula mais anos no poder do que qualquer outro dirigente israelita e enfrenta um julgamento por corrupção, já sobreviveu a sucessivas crises políticas. Desta vez, porém, o Presidente decidiu dar ao seu principal adversário a primeira oportunidade de formar Governo. Eisenkot terá agora de transformar os 67 apoios que recebeu numa maioria efetiva. Netanyahu tentará impedir que isso aconteça.
Para já, o primeiro-ministro apresenta essa possibilidade como uma ameaça à sobrevivência de Israel. Para a oposição, é a oportunidade de acabar com o seu poder.