O presidente russo chegou à conclusão de que não pode vencer no Donbass enviando mais homens para a batalha e de que a única forma de quebrar essa situação é, na verdade, destruir a economia, e "estão a fazê-lo de forma sistemática
A Rússia está com dificuldades em avançar no terreno no leste da Ucrânia, mas, enquanto isso, está a investir mais recursos na guerra aérea. Segundo os analistas, os mísseis e drones russos estão a atingir as infraestruturas energéticas da Ucrânia com maior intensidade e o Kremlin alargou os seus alvos para causar ainda mais danos à economia ucraniana.
Um painel de investigação independente das Nações Unidas concluiu, na semana passada, que a Rússia cometeu crimes de guerra e crimes contra a humanidade ao atacar intencionalmente infraestruturas civis, nomeadamente através de ataques a sistemas energéticos vitais durante o rigoroso inverno de 2025-2026.
Este inverno, segundo os especialistas, prevê-se que os ataques sejam ainda mais graves. Com os EUA preparados para mediar novas negociações de paz na próxima semana, o presidente russo, Vladimir Putin, está a intensificar os seus ataques à Ucrânia.
A campanha aérea russa está agora "claramente destinada a destruir a economia ucraniana", afirma John Lough, responsável pelas parcerias internacionais no New Eurasian Strategies Centre, um grupo de reflexão sediado em Londres. Lough diz à CNN que acredita que muitos dos aliados de Kiev na Europa ainda não compreenderam "o quão grave é esta situação que se está a desenvolver na Ucrânia", nem o peso financeiro que isso poderá representar para os parceiros europeus.
"Putin chegou à conclusão de que não pode vencer no Donbass enviando mais homens para a batalha e tentando avançar, porque os ucranianos tiveram, na verdade, um verão relativamente bem-sucedido", afirma Lough. "(Putin) chegou à conclusão de que a única forma de quebrar essa situação é, na verdade, destruir a economia, e estão a fazê-lo de forma sistemática."
Cristian Vlas, investigador especializado em Europa de Leste na ACLED — organização que monitoriza conflitos em todo o mundo —, afirm: “Veremos uma situação humanitária terrível este inverno, e muito mais cedo do que no ano passado”. “Não será um inverno como os outros”, diz à CNN.
O número de ataques russos lançados contra a Ucrânia tem aumentado de forma constante em 2026. Em janeiro de 2026, registaram-se 3.650 ataques russos contra a Ucrânia. Em outubro, esse número aumentou para 5.532.
Os ataques da Ucrânia no interior da Rússia também aumentaram, com 2.302 ataques realizados em outubro. O Ministério da Defesa da Ucrânia afirmou ter atingido, no mês passado, pelo menos sete empresas russas envolvidas na produção de armas, três aeródromos militares e instalações-chave de radar e comunicações militares. Este verão, a Ucrânia também lançou ataques contra os armazéns da maior retalhista online da Rússia, a Wildberries.
A Rússia tem como alvo a indústria e as exportações de cereais
Os ataques russos às exportações ucranianas do Mar Negro, aos portos do rio Danúbio, aos armazéns industriais, às infraestruturas ferroviárias e à indústria siderúrgica são agora eventos frequentes.
Algumas dessas infraestruturas têm fins tanto civis como militares, mas os especialistas afirmaram que os ataques recentes têm visado descaradamente apenas civis.
Pelo menos 55 ucranianos perderam a vida na segunda-feira, quando a Rússia bombardeou um edifício escolar utilizado como abrigo e centro de assistência em Zaporizhzhia, num dos incidentes mais mortíferos deste conflito que já entra no seu quinto ano. Moscovo nega sistematicamente que tenha como alvo civis.
As principais siderurgias ucranianas em Kryvyi Rih e Zaporizhzhia foram alvo de ataques com mísseis balísticos entre agosto e outubro, o que as obrigou a encerrar a atividade. A cidade de Kryvyi Rih alertou para as "graves consequências socioeconómicas" e a perda de rendimentos para milhares de famílias devido ao encerramento da siderurgia.
"Estes são golpes na base tributária da Ucrânia, não apenas na 'indústria' de uma forma muito abstrata", explica Vlas. "Isso afeta os salários das pessoas."
Em conjunto com os ataques russos a outros setores importantes, como a agricultura e as exportações de cereais, Vlas considera que parece haver um esforço de Moscovo para criar múltiplas tempestades económicas em toda a economia ucraniana ao mesmo tempo.
"A Rússia está a tentar alcançar, através do frio e da escuridão, o que não consegue alcançar no campo de batalha."
"Estão a visar locais como centros comerciais, armazéns e depósitos — o que perturba o fluxo de mercadorias, a venda de bens e assim por diante", diz Kateryna Stepanenko, responsável pela equipa dedicada à Rússia no Institute for the Study of War, um grupo de reflexão de Washington que acompanha de perto o conflito. E embora, no passado, atacasse principalmente à noite, Stepanenko sublinha que a Rússia tem vindo a realizar cada vez mais ataques durante o dia, que visam, em parte, perturbar as atividades comerciais quotidianas na Ucrânia.
"O que isso faz é ativar um alerta aéreo, ao abrigo do qual muitos edifícios governamentais ou empresas ucranianas não podem operar legalmente, o que acaba por perturbar a atividade empresarial",explica à CNN.
Os ataques à infraestrutura energética também perturbam a atividade económica, uma vez que as falhas de energia e de abastecimento de água afetam gravemente as empresas.
As forças russas também começaram a atacar infraestruturas energéticas em áreas da Ucrânia que anteriormente não eram alvo de ataques, como a cidade de Rivne, no oeste do país, afirmou Stepanenko, o que cria novos desafios para as defesas aéreas da Ucrânia, que se encontram bastante desgastadas. Os impactos dos ataques às infraestruturas energéticas estão a agravar-se. Muitas das centrais elétricas da Ucrânia estão danificadas de forma irreparável.
"Temos simplesmente de ter em conta o efeito cumulativo desta guerra e o enorme desgaste do lado ucraniano", sublinha Lough. "Com o tecido económico assim sobrecarregado, este é realmente um momento muito perigoso."
As autoridades locais de Kiev afirmaram que, no sábado, cerca de 40 % dos edifícios não dispunham de aquecimento. Entretanto, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Andrii Sybiha, lançou mais um aviso severo este fim de semana, quando a primeira nevada do ano chegou à Ucrânia.
"Moscovo está deliberadamente a tentar deixar milhões de ucranianos sem eletricidade, aquecimento e água à medida que o inverno se aproxima», afirmou Sybiha. "A Rússia está a tentar alcançar, através do frio e da escuridão, o que não consegue alcançar no campo de batalha."
Os civis pagam o preço
O aumento do número de vítimas civis acontece num momento em que a Rússia expandiu a utilização de drones Shahed a jato e de munições de voo estacionário — armas que são difíceis de abater pelas forças ucranianas. A Ucrânia está a trabalhar para melhorar as suas capacidades de interceção de ambas, mas, neste momento, segundo os especialistas, as armas russas têm vantagem.
A Ucrânia enfrenta também uma escassez persistente de interceptores Patriot de fabrico norte-americano, que são uma das poucas armas defensivas capazes de derrubar um míssil balístico russo.
Consequentemente, "as mortes e vítimas civis têm vindo a aumentar praticamente desde abril, de forma quase constante. Mas o aumento repentino de mortes em outubro — no início de outubro — é simplesmente impressionante", explica Vlas, da ACLED, à CNN.
Os civis também estão a pagar um preço elevado. Um novo relatório do Comité Internacional de Resgate (IRC) revelou que, nas regiões do sul e do leste da Ucrânia, as dificuldades financeiras estão a levar os civis a abandonar as suas casas ou a correr riscos graves para continuarem a ganhar dinheiro. Por exemplo, em algumas regiões, o IRC constatou que os agricultores estavam a arriscar as suas vidas para trabalhar em terrenos contaminados com minas, apenas para poderem manter alguma fonte de rendimento.
Entre as centenas de famílias inquiridas na região de Mykolaiv, 91% afirmaram ter necessidade urgente de assistência financeira. Em Dnipropetrovsk, 42% referiram a assistência financeira como uma necessidade urgente.
"A falta de recursos financeiros não se resume apenas a pagar as contas. Cria, de facto, a pressão para tomar decisões que mudam a vida", diz Olga Kashuba, diretora-adjunta de gestão no terreno do IRC na Ucrânia. E, para muitos civis no leste da Ucrânia, o conflito começou a perturbar as suas vidas e meios de subsistência em 2014, lembra, o que significa que têm sofrido mais de uma década de pressão económica.
A própria Kashuba, que vive em Kiev, testemunhou as crescentes preocupações económicas e a perda de rendimentos dos seus vizinhos. O mercado de agricultores local fechou depois de ter sido destruído num ataque russo. Um armazém nas proximidades foi atingido noutro ataque recente, danificando o stock de várias pequenas livrarias, conta à CNN.
"Quando as mercearias são incendiadas, quando os armazéns são incendiados… sim, isso afeta os produtos", afirma Kashuba. "Mas, além disso, esta é a fonte de rendimento de muitas pessoas – de milhares de pessoas."
* Becky Pinnington, Kosta Gak e Victoria Butenko, da CNN, contribuíram para este artigo.