Costa pode chocalhar (quase) todos, mas nesta Bragança falta juventude para cortejar

24 jan, 23:38

Ao nono dia, o humor entra na campanha socialista. Zé Albino, o gato subitamente mais famoso do país, terá motivos para deixar de estar “deprimido”, diz Costa: Rio vai ter mais tempo para tratar do bichano. Um dia peludo, ou não tivessem os caretos de Podence animado a caravana. Mesmo numa terra vazia, onde uma criança faz toda a diferença.

No jardim de infância há 11 crianças. “Já foram 12”. Por aqui, cada criança faz a diferença. Quem o diz é a “educadora Domitila” Alves, habituada a usar a profissão como primeiro nome. As crianças vêm quase todas das freguesias ao lado. De Podence só há mesmo uma menina.

Três gaiatos abandam bandeiras socialistas. Sabem que hoje é dia de uma visita especial, mesmo que não lhe tenham decorado o nome. Preferem lembrar o orgulho de já terem sido facanitos, a versão em miniatura dos Caretos de Podence.

Guilhermina Rodrigues também está sentada no recreio. Dizem as amigas que foi “chocalhada toda a vida”. Gargalhada geral. As rugas escondem os tempos de garota, em que as figuras mais típicas do Carnaval português – os Caretos, lá está – a cortejavam.

E é aqui que se introduz o convidado do dia: António Costa, o secretário-geral do PS. Ele que habituou os portugueses a namoros partidários para poder governar. E, depois do dia das eleições, como vai ser? “Vai chocalhar o Bloco de Esquerda”, ri-se Guilhermina.

Caretos de Podence são Património da Humanidade

O mata e o esfola

Poucos metros acima, José Luís Desidério e António Alves observam, de longe, a bolha socialista a formar-se. São sobretudo jotas, que vêm à terra gritar pela caravana de Costa. Quando é para falar de Podence, pode dizer-se que esta dupla de agricultores, habituados às lides da castanha, está em plena sintonia. Um mata, o outro esfola.

“Eles fazem baixas de passes mas é só para Lisboa e Porto”, começa José Luís. O outro ri-se e completa: “Aqui não há autocarros sequer”. Para chegar a Podence, se não for de carro, não há alternativa, dizem.

Se não bastasse o primeiro exemplo, não poupam no segundo. “Os políticos deviam vir viver um mês cá para cima”, atira José Luís. O outro ri-se e completa: “E dormir em casa de um idoso numa noite de geada”. Condições duras, tão incontornáveis em Trás-os-Montes, que já levam umas das filhas da família Desidério a ponderar ir fazer a sua vida para outro lado, o Porto.

Chocalhar Rio ainda é opção

Costa veste-se a rigor para o percurso. De mural em mural, nas paredes da freguesia. E há dois que merecem uma atenção especial. O de Marcelo Rebelo de Sousa, que tem de lhe dar luz verde a um eventual governo. E o de António Guterres, que o inspira a governar “medida a medida” se não houver a desejada maioria.

José Desidério não esconde que prefere Rio a Costa. Mas, se os dois decidissem juntar-se no mesmo executivo, acredita que não vinha daí mal ao mundo. “Tem de chocalhar o Dr. Rui Rio para o namorar”, atira.

A hipótese, por agora, não está fora de cena. Em Podence, quando os chocalhos dão uma breve pausa, Costa admite que a porta está aberta ao diálogo. “Estamos disponíveis para nos sentarmos à mesa com todos, à exceção do Chega”. O Chega que, minutos antes, colava aos sociais-democratas para falar de um “Governo dependente e refém da extrema-direita”. A frase de Costa acabaria por marcar o dia, sendo interpretada como uma inversão na sua estratégia de pedir a maioria absoluta. Afinal, está disponível para dialogar. À esquerda. E à direita. "Com todos" menos o Chega.  

Mural de Marcelo Rebelo de Sousa em Podence

Uma questão de pelo

Por Podence, as criaturas mais peludas são mesmo os Caretos. Gatos nas ruas não se encontra nenhum. O felino que mais dá que falar na terra chega pela voz dos jornalistas, depois de Rio ter dito que Costa devia seguir o “exemplo” do bichano, “que não perde uma única oportunidade para estar calado”.

Costa recupera aí o rasgo humorístico que o caracteriza no ataque político. “A última vez que vi uma foto do gato do Dr. Rui Rio estava deprimido”. Mas, em contraponto, o secretário-geral do PS está otimista. E isso até são boas notícias para o gato mais famoso do país: “O Zé Albino vai sentir-se menos só, o Dr. Rui Rio vai ter mais tempo para estar em casa”.

Enquanto isso, no alpendre da Casa dos Caretos, há quem refresque a garganta, a alimentar “mais desgaste no fígado”. Hoje, por aqui, há muita rapariga para chocalhar. É preciso recuperar do entusiasmo. Um Careto não mostra a cara mas pode dizer o nome. Para José Correia, não interessa se a moça é jeitosa. “Não temos preferência, com a crise que há por aqui”. No Carnaval, não se importava de dar um saltinho a Ovar. O carnaval de Podence é “o autêntico”, mas seria junto ao mar que teria muito onde chocalhar.

António Costa faz-se acompanhar pela sua mulher (Lusa/Miguel A. Lopes)

De Cabo Verde para Bragança

Costa segue para o Instituto Politécnico de Bragança, um reduto de jovens num distrito envelhecido, desertificado. A tuna canta-lhe duas canções à chegada. O secretário-geral do PS segue para o auditório, onde há de dizer que “a única chave para darmos a volta a este despovoamento é criar economia”. Como? Levando “conhecimento para atividades seculares”.

Os membros da tuna não lhe ouvem as certezas. “Bora lá, que tenho de estudar. Tenho exame amanhã e não é ele que me vai safar”, diz um deles mal Costa vira costas.

Também as irmãs Fortes ficam no átrio. Delgisa e Nelgisa, só uma letra a diferenciá-las no nome. Edmara Borges completa o trio. Vieram as três para Bragança estudar, à boleia de um protocolo do politécnico com Cabo Verde, a sua terra natal.

“No início, quando chegámos, era mais complicado”, dizem as irmãs. O quê? “Lidar com a população mais velha”, responde a amiga. Gostam de Bragança e até reconhecem que têm existido mudanças nos últimos anos. Juntas, ajudam a combater a desertificação estrutural neste território. Mas não pensam cá ficar quando acabarem os cursos. O motivo é simples, “é difícil encontrar trabalho nas nossas áreas”.

A capital está no horizonte. Porque, ao contrário da canção dos Xutos, de Bragança a Lisboa não são nove horas de distância. São 45 deputados de diferença.

Caravana passou pelo Instituto Politécnico de Bragança (Lusa/Miguel A. Lopes)

 

Relacionados

Decisão 22

Mais Decisão 22

Patrocinados