Em Santarém nasceu um bloco central antiChega. E há quem já veja Costa e Rio sentados “no colo um do outro”

20 jan, 23:32

António Costa escolheu o conforto de uma sala com militantes em Santarém, a contrastar com o vazio das ruas do centro histórico. Numa cidade governada por uma aliança entre PS e PSD, quis vincar as diferenças - mas nem todos as veem

“Cuidado, meu amor, a gente nunca sabe quem passa.” O conselho parte de um rosto enrugado. No centro histórico de Santarém, sabe-se que quando a noite começa a cair as ruas perdem a segurança solar. Não são ainda 19:00. Aqueles que passam vão com pressa à procura do calor de casa.

Aimoré Saraiva é exceção. Saiu para passear o cão. Sente-se escalabitano há três décadas, por muito que o sotaque lhe denuncie a origem brasileira. Segue pelas ruas de uma cidade que nas últimas autárquicas protagonizou algo raro: um bloco central. É que o PSD, para afastar o Chega do poder camarário, acabou por se alinhar aos socialistas.

Será que António Costa e Rui Rio podiam seguir o exemplo e, "a bem do país", colocar os desentendimentos de parte? “Acho que sim. O PS é uma esquerda mais próxima da direita, em especial no lado económico. Às vezes é o povo quem vê mais brigas.” À cabeça vem o ditado: quem está no convento é que sabe o que vai lá dentro. É que a política também é uma religião.

Rua Capelo e Ivens, no centro de Santarém, ao cair da noite

O sofá de todos

Os frutos da aliança entre socialistas e sociais-democratas ainda não tiveram tempo para crescer em Santarém. “Foi há muito pouco tempo”, diz Jorge Rito, parado na Rua Capelo e Ivens. Foi a primeira artéria da cidade a deixar de ter carros, uma decisão que continua a deixar os comerciantes desolados: primeiro porque falta o estacionamento em redor, depois porque muitos serviços públicos deixaram de estar no centro da cidade. “Fazia falta o Costa viver cá em Santarém para conhecer este gueto, onde até no largo do cemitério se paga o estacionamento”, critica Jorge Rito, ao ouvir que a caravana socialista vem cá esta noite. “A união do PS e do PSD na Câmara é uma facada.” Votou num caminho, acabaram lá dois. E agora, com novas eleições, não se admirava que se repetisse a fórmula santarena em São Bento. “Eles querem é tacho e assento. E, se houver sofá, nem que tenham de se sentar no colo um do outro.”

Já Maria Assunção Lourenço vai apressada, agarrada à mala, que o frio da rua não é bom para ninguém. Mas acede a responder se puder continuar o caminho. Não sabe que Costa e Rio estão empatados, que de política diz não perceber nada. Mas lá reconhece que vão ter de se entender para se chegar a algum lado. “Até acho que é isso que vai acontecer. Eles são todos rivais na campanha mas na política são todos amigos.” E a rua, com a mulher a desaparecer na esquina, volta a ficar vazia. Gélida de tamanha solidão.

Ribatejo vestiu-se a rigor para receber o líder socialista

O ‘se’ de Rio, o ‘já’ de Costa

António Costa não vê as ruas desertas de Santarém mal cai a noite. Depois de um dia na estrada, com várias iniciativas no distrito de Évora, prefere o calor de uma plateia de militantes, já convencidos à partida. Muitos de pé, não há lugar para todos – ao contrário das históricas artérias da cidade.

O dia, longo, começou com Costa no debate das rádios a insistir na maioria absoluta e a argumentar que Marcelo Rebelo de Sousa nunca deixaria o PS “pisar a linha”. O território natural para negociar, por muito que a geringonça esteja morta, continua a ser à esquerda. Porque “a direita não se consegue entender” entre si, quanto mais com o PS.

Um bloco central, como o de Santarém, parece longínquo. Se dúvidas houvesse, o último discurso do dia em solo ribatejano dissipa-as. Já em palco, Costa puxa da cassete de argumentos e vinca as diferenças. PS e PSD, insiste, não estão do mesmo lado. “Do outro lado, o que temos é um PSD que diz que não vai baixar o IRS em 2022, 2023, 2024. E, se tudo correr muito bem, começar a pensar baixar o IRS em 2025 ou 2026. Não, os portugueses não podem esperar por 2025 e 2026. Não, os portugueses não têm direito a um ‘se’, os portugueses têm direito a um ‘já’. E o ‘já’ é agora em 2022.”

No palco, Costa fez questão de vincar as diferenças face a Rio

E o nome de Rio lá entra em cena para vincar os riscos para um Serviço Nacional de Saúde (SNS) que não seja “tendencialmente gratuito”: “O que ele quer é que a classe média passe a pagar os cuidados do SNS”.

Entre o resumo do trabalho feito e os apelos ao voto antecipado, o secretário-geral socialista expressa uma vontade. “Não vimos pedir que nos agradeçam, não vimos pedir um prémio. Vimos pedir força para continuar a avançar.” E essa força, nesta noite, não se chamou maioria absoluta. Só “votação maciça”.

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