Quem são e o que pensam os indecisos que podem dar a vitória a Costa ou a Rio

21 jan, 07:00
Campanha de António Costa e de Rui Rio

Enquanto a distância na intenção de voto entre os líderes do PS e o do PSD é cada vez mais curta, a percentagem dos que ainda não decidiram mantém-se nos 20%, segundo a Tracking Poll da CNN Portugal. Politólogos e especialistas em sondagens explicam o que pode fazer estas pessoas mudar de opinião e dar a vitória a um dos candidatos

São maioritariamente do sexo feminino, têm uma idade média de 44 anos e, de acordo com vários politólogos e especialistas ouvidos pela CNN Portugal, podem mudar o rumo das eleições e decidir a vitória entre Rui Rio e António Costa. Os últimos dados da Tracking Poll da CNN Portugal indicam que o número de indecisos continua a ser superior a 20% (20,1%), enquanto a distância entre Costa e Rio diminui - o primeiro teve uma queda de 0,3 pontos percentuais, situando-se no 28,8%, o segundo conseguiu subir 1,6 pontos percentuais, aproximando-se do adversário com 26,0% da intenção de votos.  

“Quanto menor é a diferença entre o partido A e B dominantes, maior é a importância dos indecisos. Estes vão fazer uma diferença significativa”, garante à CNN Portugal, o politólogo António Costa Pinto. 

José Filipe Pinto, professor catedrático na Universidade Lusófona e investigador de ciência política, garante, por seu lado, que muitos ainda não decidiram o sentido de voto nestas eleições por não saberem “se preferem a estabilidade, com crescimentos anémicos em que não há um verdadeiro desenvolvimento social”, mantendo o PS, ou “a mudança sem saber o que isso significa no dia-a-dia”, com um novo governo do PSD.  De resto, diz, “há muito pouco que os separa”.

Os partidos sabem o impacto que o voto destes indecisos vai ter nas derrotas e vitórias de dia 30 janeiro. “A tendência de voto dos indecisos vai ser decisiva”, avisa ainda o politólogo José Fontes, lembrando que são um conjunto de pessoas cujo voto tende a ser “volátil”.

 

 

O secretário-geral do Partido Socialista (PS), António Costa, durante uma ação de campanha eleitoral para as Eleições Legislativas 2022, Beja / (Lusa/Miguel A. Lopes)

 

Como se consegue o voto dos indecisos?

“A personalidade do líder, os temas da campanha eleitoral e as estratégias e alianças partidárias que podem estar em causa são fatores que influenciam os indecisos”, explica Marco Lisi, Professor Auxiliar no Departamento de Estudos Políticos da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e autor de vários livros sobre o tema.

Para o investigador, as frases que se dizem nos comícios e a imagem que Costa, Rio e os restantes líderes partidários estão a passar aos portugueses nas várias localidades que andam a percorrer no país são algumas das armas mas fortes para conquistar eleitores entre os 20% que não escolheu em quem votar.

Os indecisos são “inspirados pela forma como se constrói as narrativas na campanha eleitoral e por uma espécie de dinâmica de vitória que junta mais pessoas ao candidato que está à frente nas sondagens”, nota o investigador de estudos políticos da Universidade Nova, João Cancela.

Segundo o investigador, além da cobertura da campanha e das frases que ficaram dos debates eleitorais, também as notícias de última hora e os escândalos “podem encaminhar as pessoas mais para um sentido do que para o outro”. E dá o exemplo do caso que durante a campanha para as autárquicas envolveu a presidente da junta de freguesia de Arroios. Margarida Martins, entretanto, constituída arguida por alegado uso pessoal de bens públicos.

“As vezes até um acontecimento internacional” pode convencer os indecisos, acredita Marco Lisi, notando que, de resto, “há vários outros os fatores conjunturais que influenciam”, como o estado da inflação e do desemprego e até a covid-19. “A própria pandemia acaba por beneficiar, em teoria, os pequenos partidos na oposição”, diz.

Uma das estratégias dos partidos é perceber que estes indecisos são muito influenciados por “fatores de curto prazo”, diz João Cancela, esclarecendo que isto significa que tendem a privilegiar aquilo que são as suas circunstâncias pessoais, como terem sido afetados pelo lay off simplificado.

 

O presidente do Partido Social Democrata (PSD), Rui Rio, durante um contacto com a população de Bragança, 20 de janeiro de 2022 (Lusa/Tiago Petinga)

 

Este aspeto pode ser determinante para o eleitorado indeciso que trabalha na Função Pública, acredita o politólogo José Filipe Pinto. “Portugal tem mais de 700 mil funcionários públicos e grande parte pensa com os bolsos e vêem muito daquilo que é mensagem de futuro que o PS ou o PSD lhes dá”, argumenta o especialista, destacando que a flutuação de votos nesta camada dependerá se observam o descongelamento das suas carreiras como relevante o suficiente para decidirem por um voto de continuidade.

“António Costa tem intensificado o discurso para estes eleitores que ainda têm memória da redução do número de professores nas escolas e dos seus baixos salários nos tempos da Troika”, sustenta José Filipe Pinto, sublinhando que um descontentamento generalizado neste sector leva a uma “migração de massa” de votos entre PS e PSD.

Tendo em conta a proximidade entre os dois homens na corrida  a primeiro-ministro, a forma como passam estas mensagens é com o passar dos dias, cada vez mais fulcral.

“O grande objetivo do PS e PSD é conciliar as bases eleitorais e convencer os indecisos” pois sabem que só com eles conseguem ganhar em especial com a maioria absoluta, conclui Marco Lisi.

O dia em que tomam a decisão? 

O último estudo feito sobre o perfil do eleitorado indeciso dá uma ideia de quem se trata:  são maioria mulheres (57,7%), têm uma idade média de 44,4 anos, apresentam um interesse razoável pela política e estão empregados na maioria (57,4%) .

Segundo João Cancela, este estudo, publicado em 2019, apesar de avaliar o fenómeno apenas entre 2002 e 2015,  representa bem o que hoje ainda acontece. De acordo com o investigador, desde a publicação deste trabalho – “Os indecisos em Portugal: evolução longitudinal e perfil sociopolítico -, não ocorreram “alterações significativamente transformadoras no eleitorado e nos partidos do poder que levassem a que estes dados pudessem ser alterados".

 

Evolução da indecisão eleitoral em Portugal, 2002-2015

Quando foi tomada a decisão? 2002 2005 2009 2011 2015 Média
No dia das eleições 2,8% 8,7% 6,9% 3,6% 7,0% 7,5%
Na véspera 1,6% 4,7% 3,9% 2,7% 4,8% 3,7%
Na semana antes das eleições 7,2% 9,2% 7,5% 10,0% 8,1% 7,9%
No mês antes das eleições 8,5% 11,8% 9,1% 15,7% 8,9% 9,8%
Mais de um mês antes das eleições 78,7% 65,5% 72,6% 67,9% 71,3% 71,0%

Fonte: Lisi, Marco; 2019. Eleições - Campanhas eleitorais e decisão de voto em Portugal. 1.ª Edição. Edições Sílabo, Lisboa. 

 

Analisando os resultados podem-se tirar várias conclusões. A primeira é de que, ao longo dos anos estudados, em média, 7,9% dos indecisos decidiram o voto na semana antes das eleições e 7,5% só escolheu em quem votou no próprio dia da ida às urnas. E, nesse momento, entra a emoção, salienta José Filipe Pinto. “Muita gente, quando chega à mesa do voto, ainda não decidiu em quem quer votar. A diferença do PS e do PSD nestes casos entra no foro emotivo e a razão perde muito do seu peso”. 

Esta indecisão até ao minuto final não é um mau indício, considera José Fontes que o prefere interpretar como um sinal “de grande sentido de responsabilidade, evitando assim a clubificação da política”. 

Quanto às eleições que costumam gerar mais indecisão, o politólogo José Filipe Pinto, diz ser exatamente nas legislativas. O que pode ser explicado pelo facto de, por exemplo nas presidenciais, só existir um círculo nacional e na qual as candidaturas são na sua maioria suprapartidárias. “O que conta é a figura, a pessoa”, frisa o investigador.

Já nas legislativas, acrescenta, “o que temos é o partido, é o símbolo” e a indecisão é maior porque os cidadãos “não participam na elaboração das listas”. Este distanciamento entre o eleitor e os nomes que constam nas listas distritais dos partidos faz com que os eleitores “tenham dificuldade em perceber quem é o deputado em que votam”. “O deputado não leva com ele um caderno de encargos”, ironiza José Filipe Pinto.

É através das sondagens que os partidos vão sabendo a dimensão de eleitores que ainda não decidiram o voto. Segundo Alexandre Picoto, administrador da Pitagórica, os indecisos são as pessoas que se identificam ao responderem que não sabem à pergunta “se as próximas eleições legislativas fossem hoje em quem é que votariam”. 

.Já o cálculo relativamente a que partido os indecisos acabaram por decidir votar é feito mais tarde, até porque os inquéritos iniciais são sempre destruídos . “Depois são feitos estudos de opinião pós-eleitorais que visam caracterizar socialmente e demograficamente em termos de atitudes os eleitores”, explica o investigador João Cancela, esclarecendo que é utilizado um outro inquérito em que se pergunta quando tempo o eleitor demorou a tomar uma decisão e em que partido votou.

Que partidos são mais beneficiados? 

Segundo António Costa Pinto todos os partidos podem, teoricamente, beneficiar dos eleitores indecisos. O Livre, por exemplo, pode captar “aquele eleitor que quer punir o Bloco pela sua responsabilidade na crise política”, refere.

Já o Chega e a Iniciativa Liberal “podem ir buscar votos aos segmentos micro que habitualmente votam PSD”, tendo como bónus dois anos de visibilidade no parlamento, argumenta o politólogo.

Por outro lado, é previsível que António Costa o discurso em torno da estabilidade e da maioria absoluta tenha algum impacto no eleitorado que ainda não tomou uma decisão, considera José Filipe Pinto, argumentando, no entanto, que as bandeiras do líder social-democrata sobre o crescimento económico abaixo do espectável e a oferta de um novo modelo pode ser mais aliciante para quem quer punir o atual primeiro-ministro, “ainda que o programa eleitoral de Rui Rio careça de explicações sobre o seu impacto na saúde, no dia-a-dia e na segurança”.

Quanto ao Bloco de Esquerda, foi, segundo aquele estudo que analisou os indecisos entre 2002 e 2015 o partido que mais beneficiou naqueles anos deste tipo de eleitorado. Em 2002, altura em que Francisco Louçã era o coordenador, o partido conseguiu 54,5% dos votos do eleitorado indeciso. Em 2015, já com Catarina Martins, o BE conquistou 50%.

Apesar de os partidos estarem todos em campanha a tentar manter, recuperar e conquistar votos, há partidos que parecem seduzir menos os que ainda não tomaram uma decisão.  Segundo Marco Lisi, “o CDS e o PCP por serem ideologicamente muito marcados não têm grande espaço entre os indecisos”. 

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