Costa transformou-se no doce da casa de um distrito que só quer levantar voo

19 jan, 21:27

Há dois anos, Beja deu a vitória a António Costa. Por este Alentejo, há quem goste dele e quem esteja magoado com o que diz na televisão. Os campos têm trazido o mundo, outros tons de pele, ao distrito. Os bejenses querem ser uma porta de entrada direta desse mundo. E ver passar os aviões carregados de esperança de uma vida melhor.

A porta gira desde 1893, sempre no mesmo sentido. Quando se entra no Luiz da Rocha, a vitrina não deixa ninguém indiferente. São andares de bolos para todos os gostos. “Os nossos pastéis de nata não ficam a dever nada aos de Belém”, diz António Leandro. Mas as queijadas de requeijão e o chamado Porquinho Doce também fazem as delícias dos locais.

Há 49 anos à frente do café mais antigo de Beja, prefere não guardar amargos de boca, por muito que tenha motivos. “A pandemia foi o momento mais duro, embora a gente tenha passado outros períodos difíceis”. O relógio marca o meio-dia em ponto. Dali a quatro horas, mais coisa menos coisa, espera-se um convidado especial. Mas nada que crie ansiedades. “Quando há eleições não falham, no resto do ano não é muito normal”, confessa.

É de António Costa que se fala. Por aqui, já todos sabem da visita. Também Rui Rio vem na próxima semana, para almoçar. A ementa ainda não está fechada, mas o social-democrata terá muito por onde escolher. Açorda alentejana, ensopado de borrego ou migas seriam as sugestões para Costa, o secretário-geral do PS que só vem para tomar um café com o presidente da Câmara.

António Leandro está habituado a receber visitas do mundo da política. Rui Rio é o próximo

Arménio Salgueiro senta-se ao canto, atento à movimentação. Não faz questão de estar na sala quando o líder dos socialistas chegar. “Se estiver é para o chamar de aldrabão. Se tivermos o azar de ganhar com maioria absoluta, estamos feitos”, conta, ladeado pelos amigos. É antigo funcionário público, está magoado porque a reforma não sobe como Costa fala na televisão.

À hora prevista, Arménio Salgueiro cumpre a palavra. Nem ele nem os amigos estão à mesa. O primeiro-ministro que quer continuar a sê-lo entra apressado. Tem a porta da casa de banho como alvo. Afinal, os políticos também são humanos. A comitiva não fez pedidos especiais à casa. Quando Costa volta, vê um café ser-lhe entregue poucos minutos depois. Na mesa há dois pastéis de nata. Não lhes toca sequer.

As teias de aranha

Nem pastéis de nata, nem o Beijinho Mariana Alcoforado que a Pastelaria Bambina, duas ruas abaixo, se orgulha de vender. A caravana de António Costa não passa por aqui, nem de relance. Mas o que há para contar, conta-se a quem quer ouvir. “É exclusivo nosso”, explica Francisco Martins. Amêndoas, ovos e pinhão, assim se consegue a receita.

Não houve tempo para um Beijinho Mariana Alcaforado, uma iguaria de Beja

“O primeiro-ministro vem de avião? Podia parar ali no aeroporto, a ver se lhe tira as teias de aranha”. António Costa chega de carro, a partir de Lisboa. Mas, para começar na capital, teve de apanhar avião, já que o dia anterior de campanha foi passado na Madeira.

Podia mesmo ter aterrado em Beja, se o desejo do potencial-futuro aliado de governação, o PAN, fosse já uma realidade. Para Francisco Martins, pouco importam as vontades dos partidos. A terra que o viu nasceu está primeiro. É simples: “a gente quando não tem cão caça com gato. Eu debato temas. Não é PAN nem PIN, nem Chegas nem Empurras”.

E, enquanto isso, a caravana de Costa segue em Beja, numa mini arruada – o ajuntamento possível num distrito onde há cada vez menos gente. O socialista enverga samarra, mas não alentejana, como a terra que pisa. A coberta foi comprada em Vinhais. A compor o calor humano, entre quem interrompe o corte de cabelo para o ver passar e quem se preocupa com tanto jornalista à volta. “Ai, ainda me matam o meu Costinha”. “Maioria, maioria”, repete-se. É o que mais se deseja, para não ter dissabores com outros partidos, reconhece Costa: “O PS só está dependente dos portugueses, não está dependente de mais ninguém”.

António Costa aposta na proximidade, apesar da pandemia

O arco-íris de escovas e piaçás

Anabela Cardoso sabe que, para fazer negócio, depende de muita gente. Como uma idosa que entra curvada, quase à altura da bengala, a pedir uma “palmilha 39”. Na Drogaria Martins, o teto é baixo, porque o que há para vender lhe toma o lugar. Um arco-íris em forma de escovas e piaçás.

Do balcão vê-se uma antiga delegação do Banco de Portugal. Fechado há largos anos, sem vida. Mas o horizonte da comerciante, que herdou o negócio do pai, está mais longe. Quando se fala de António Costa, deixa um pedido: “que ele olhasse mais por Beja, temos o aeroporto ali parado”. Para que a infraestrutura possa chegar ao resto do país, faltam as estradas e a linha do comboio. Mas Anabela Cardoso sabe que vale a pena investir: no sentido contrário, virão os empregos. E as pessoas.

E é, neste momento, que um dos clientes faz uma revelação que deixa todos boquiabertos. “Trabalhei na construção do aeroporto quando era garoto, com 14 ou 15 anos”. Chama-se Manuel, prefere guardar o apelido. Antigo professor do secundário, não hesita em gabar as qualidades da pista de Beja, criada para os militares. “Por aqui, já ninguém acredita no aeroporto. É como aquelas crianças que já estão batidas. Mais um safanão já não lhes dói”, compara.

Na Drogaria Martins, o aeroporto de Beja é motivo frequente de conversa

O morango que Domingas não imaginou colher

É por ar que chegam muitos dos trabalhadores da Pax Berry, a primeira paragem de António Costa na visita a Beja. Paquistaneses, indianos, nepaleses. Trabalham na recolha do morango. Só que este não é um morango qualquer. Não é preciso descer à terra para colhê-lo. Está ao nível das mãos, em suspenso, como a maioria absoluta que os socialistas tanto ambicionam.

Sem estes imigrantes, admite o dono da empresa a Costa, não seria possível ter o negócio a funcionar. A comparação com as estufas de Odemira torna-se inevitável, recordam-se as vergonhosas condições de vida de quem trabalha o campo. Mas para o socialista, Odemira é um cenário completamente diferente: o fruto de “vários anos sem que se tenha tratado de um tema crucial: a habitação”.

Domingas Valentim não tem motivos de queixa. É a única mulher a trabalhar por aqui a colher morangos. Estreou-se há sete colheitas, porque já trabalhava para a família do proprietário. “É mais confortável e temos trabalho garantido o ano inteiro”. Faça chuva, faça sol, os plásticos - aqueles que se veem do céu - protegem quem labuta.

Por acaso, que a vida é feita de acasos, havia de ser ela a escolher um morango para o líder do PS provar. “Estes são bons”, reconheceu Costa. Domingas Valentim não tem muito para pedir, mesmo que pudesse. O trabalho e a casa numa aldeia aqui perto servem-lhe de consolo. E agora a memória deste dia. “Achei-o simpático”. Um António Costa doce, como a campanha que quis fazer em Beja. Sobre aeroportos e aviões, nem uma palavra.

Domingas Valentim cruza-se com António Costa pela primeira vez (Lusa/Miguel A. Lopes)

 

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