Costa tem o disco riscado no PSD, mas o Minho viu-o a dançar o Vira. À esquerda ou à direita?

23 jan, 22:43
António Costa em Braga (Lusa/Miguel A. Lopes)

Ao oitavo dia, a caravana socialista quer todos a ouvir a mesma canção: a do seu programa. Seja no lírico ou no Vira minhoto. Para passos de dança, o secretário-geral esperou pelo fim do dia. Ainda há muita volta para dar até chegar à desejada maioria. E um ovo que ninguém quer guardar.

As mesas estão cheias. José António Pereira salta há um ano entre elas. A camisa branca, imaculada, com o tradicional bordado de Viana do Castelo. É sempre assim na Casa de Pasto Maria de Perre. Não é porque há voto antecipado, no Centro Cultural a poucos metros, que hoje existe mais movimento. “Isto são os clientes de todos os dias. Há alturas em que tem de esperar uma hora”.

“Garçon” não seria uma palavra estranha para descrever a sua profissão. É que José António Pereira se habitou a falar uma língua que não a dele nas duas décadas em que trabalhou na Suíça. Com orgulho, conta que serviu grandes nomes da política mundial. António Costa é que ainda não está na lista, por muito que lhe tenha apreço.

“Eu tenho partido certo. Por acaso, até é esse. É o que oferece mais garantias”. Mas confessa que a campanha socialista tem andado meio frouxa, por muito que o secretário-geral do PS tenha começado a manhã a dizer-se “cheio de energia”. Se Rui Rio tem Emanuel, quem fazia falta a Costa para abanar a caravana? “Devia apostar no Tony Carreira”. Nome habituado a multidões, como aquela que José António Pereira espera encontrar no comício socialista em Viana do Castelo. Ele, promete, vai lá estar. Mas antes, Costa, ainda tem de dar um saltinho a Braga.

Voto antecipado não foi motivo para a casa estar cheia

Com quem vai dançar?

Braga já não sabe o que é um domingo sem o som das concertinas. “É assim todos os domingos, menino”, contam os populares sentados na Praça da República, a ver quem tem coragem de dar um passinho de dança. Ninguém aqui vai ao engano: neste bailarico não há política, só a alegria do Vira Minhoto.

Arminda Rodrigues vem de ouro ao peito, o coração ao centro. Desde os seis anos que enverga o traje da região, hoje complementado pela máscara cirúrgica. “Mas também canto e danço”, assegura ao chegar ao largo. Ainda pondera provar o que diz, mas tem pressa em ir para o Theatro Circo, para esperar António Costa. “Vou votar para a semana, mas ele é que tem o meu voto”, conta, no dia em que os socialistas voltam a passar à frente do PSD.

Arminda Rodrigues foi receber Costa em Braga

Aos 72 anos, gostava de ver o primeiro-ministro a dançar um Vira Minhoto. “Se calhar precisa”, para animar a campanha. É que Costa, sem maioria absoluta, vai ter de se virar para algum lado. À direita, leva safanão de Rio a cada dia. À esquerda, diz agora que o Bloco tem de “pedir desculpa por ter rompido com a unidade”, mesmo que Catarina Martins já o tenha convidado para uma reunião no dia a seguir às eleições. Quem vai ser então o par?

Ninguém sabe. Lourenço e Maria Gomes não sabem. Marido e mulher, de mão dada, enquanto veem o bailarico em Braga. Por muito que se gostem, nas lides políticas acabam por discordar. “Ele não pode é pedir maioria absoluta”, diz ela. “Ele tem mesmo é de pedir”, reage ele. Por aqui, não são os únicos a lembrar os cortes do Governo de Pedro Passos Coelho nos salários e nas pensões. “Gosto muito do Costa, os outros não me iludem”. E nisso, pelo menos, o casal está de acordo.

Braga passou a tarde a dançar ao som da concertina (um som que só entraria na última etapa da caravana socialista)

Passos Coelho e Rio, os fantasmas do teatro

Diz-se que todos os teatros têm um fantasma. O Theatro Circo, em Braga, não é exceção. Neste domingo há pelo menos dois: Pedro Passos Coelho e Rui Rio. Mas, ainda antes do protagonista deste domingo, um prólogo.

À entrada, António Costa tem à espera o som de gaitas e bombos. Mas, lá dentro, a música é outra. Elisabete Matos, cantora lírica e número dois na lista por Braga, sobe ao palco. Ouve-se “Nessun Dorma”, o hino da campanha. Ao “Vinceró”, a plateia levanta-se de punho erguido. Está feito o aquecimento.

Depois do momento, Costa diz que “é quase impossível falar”. E talvez por isso volte a por o mesmo disco dos dias anteriores, replicando quase a papel químico o discurso. Os mesmos argumentos, da taxa de desemprego ao Serviço Nacional de Saúde, para vincar as diferenças para com o PSD. “A atual direção do PSD quer fingir que é diferente da anterior direção do PSD”, arranca Costa, trazendo de novo Passos Coelho e Rio à sala.

Costa voltou a ter o ataque ao programa social-democrata como tema central

E seria com o adversário em mente que Costa, qual ilusionista, tira do bolso a descida do IRS proposta pelo PS. Com exemplos concretos: um jovem de 23 anos, com um salário de 1.150 euros, vai poupar 629 euros. E numa família de três pessoas, com um rendimento de 2.760 euros, guardam-se 780 euros.

“O PSD diz que nós fazemos política pela negativa e que não apresentamos políticas positivas. Política negativa é a deles, que chumbam e impedem os jovens de ter esta redução no IRS”, argumenta. “Com o PS não temos de esperar por 2005 e 2006”. O auditório logo corrige. É que na sala são só socialistas, atentos ao que o rival tem para oferecer.

E, ao fim do dia, a festa minhota

Volte-se a Viana do Castelo. À hora marcada, as nove da noite, José António Pereira – o mesmo do início desta história – está sentado na plateia do Teatro Sá de Miranda, sem Tony Carreira que o valha. Não importa, porque o clima, nesta última etapa do dia, é mesmo de festa. Ou não tivesse sido chamado para animá-la Zezé Fernandes, artista minhoto. “Oh, isto parece um comício do Chega”, desafia a plateia, que lhe responde com intensidade que não. É tempo de passar à música. “Saudades de Portugal” e “Trabalhar faz Calos” são os temas escolhidos para agitar as bandeiras. O som da concertina entra na campanha.

O Vira chegou à campanha na última iniciativa do dia, em Viana do Castelo

E Costa não precisa sequer de entrar na sala para, finalmente, soltar uns passos de dança. “Se me perguntam se ao fim desta longa jornada estou cansado, digo logo que não. Estou pronto para outra”, diz, já em palco. É que Costa está visivelmente melhor do que quando veio a Viana do Castelo em campanha em 2019: um ataque de ciática, lembra, deixou-o “de perna no ar” nas urgências.

O discurso segue, quase igual ao comício anterior, para falar de um programa laranja “cheio de maroscas”. A surpresa da noite havia de ser o ovo que Miguel Alves, presidente da federação do PS de Viana do Castelo, tirou do bolso. Para quem perder as eleições - a direita, espera - guardar “lá onde as galinhas o guardam”.

“Lembremo-nos bem do ovo que aqui nos mostrou o Miguel Alves: não há vitórias antecipadas”, termina Costa. Novo apelo ao voto. Porque, sem a maioria, vai ter que dançar muito até conseguir formar Governo. E, com um ovo nas mãos, a coreografia fica mais difícil.

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