A extrema-direita "está às portas do poder" em França. Partido de Le Pen vence a primeira volta e é alvo a abater

1 jul, 00:04

Ensemble de Emmanuel Macron está "praticamente aniquilado" disse Marine Le Pen que viu o seu partido conseguir quase um terço dos votos. Até domingo, frente de esquerda e bloco centrista vão tentar concentração de votos para ultrapassar o inimigo comum

Gabriel Attal, primeiro-ministro francês, não adoçou a realidade. No dia em que o partido de Marine Le Pen atropelou a aliança centrista de Emmanuel Macron e colocou-se à frente na primeira volta das eleições antecipadas francesas, o pupilo do presidente vincou que "a extrema-direita está às portas do poder".“Temos o dever moral de fazer tudo aquilo que está ao nosso alcance para impedir o pior de acontecer”. 

No início da noite de domingo, o atual residente do Hôtel Matignon garantiu que eleger a extrema-direita iria “reduzir os valores dos franceses a nada e enfraquecer consideravelmente o país”. “Votem juntos pela República e votem pelos candidatos que defendem a República”, apelou, num derradeiro apelo ao mesmo tempo em que eram conhecidas as últimas projeções da noite. 

Segundo as últimas estimativas, conhecidas às 21:00 horas, a Reagrupamento Nacional (RN), que quer ver eleito como primeiro-ministro Jordan Barella, deverá conseguir 33,50% dos votos, com a coligação de esquerda Nova Frente Popular (NFP) a aparecer com 28,50% e, por último, o Ensemble de Macron com 22,1%. As mesmas projeções indicam que, após a segunda volta das eleições, no próximo domingo, a UN obterá entre 230 e 280 lugares na Câmara dos Deputados, com 577 lugares, enquanto o NFP obterá entre 125 e 165 lugares e o Ensemble entre 70 a 100 lugares.

A primeira volta mostra um crescimento considerável do partido de Le Pen que se revela a caminho de ser o mais dominante do espectro político francês - isto em apenas 2 anos. Para comparação, nesta primeira volta o UN conseguiu 12 milhões de votos, quase triplicando os 4,2 millhõe nas últimas eleições parlamentares, em 2022. 

Primeiras projeções conhecidas este domingo/ EPA

Le Pen tem uma explicação para isto. Logo após o encerramento das urnas, sublinhou que os franceses mostraram "num voto inequívoco... o seu desejo de virar a página de sete anos da desdenhosa e corrosiva [presidência]" de Macron. E, num discurso que procurou não ofuscar o do seu candidato a primeiro-ministro, sublinhou que tem esperanças de já no próximo domingo ver Jordan Bardella a substituir Gabriel Attal. 

Para que isso aconteça, contudo, há um caminho íngreme a percorrer. Por um lado, terá de aumentar os atuais 88 lugares na Assembleia Nacional para os 289 que permitiriam uma maioria absoluta. Por outro, terá de resistir a uma remontada da esquerda e do centro que, a partir de segunda-feira, deverão entrar numa espiral de negociações para que seja posto um cordão sanitário à volta da Reagrupamento Nacional. 

A receita não é inédita. E a família de Le Pen conhece-a bem. Em 2002, quando o pai de Marine, Jean-Marie Le Pen ficou à frente de Lionel Jospin nas eleições presidenciais, os partidos de esquerda uniram-se, na segunda volta, para dar uma esmagadora vitória ao conservador Jacques Chirac. Uma estratégia semelhante poderá entrar em marcha a partir de segunda-feira.

Numa primeira reação aos resultados, vários membros da Nova Frente Popular mostraram-se abertos à ideia de concentração de votos em alguns círculos onde os seus partidos se tenham posicionado em terceiro lugar, perdendo a eleição para o partido de Le Pen. Jean-Luc Melenchon, o líder da França Indomável - o maior partido do NFP - já deu esse sinal, sublinhando que há “instruções claras”. “Nem mais um voto, nem mais um lugar para o Reagrupamento Nacional”. 

Também Marine Tondelier, líder dos ecologistas, assumiu o mesmo princípio, mas pediu reciprocidade a Macron. "Contamos consigo: retire-se se ficar em terceiro lugar numa corrida a três, e se não se qualificar para a segunda volta, chame os seus apoiantes para votarem num candidato que apoie os valores republicanos", disse.

Jean-Luc Melenchon, o líder da França Indomável, pediu união contra a extrema-direita / EPA

De Macron, a vivo e a cores, não se ouviu praticamente nada durante a noite - à exceção de uma curta declaração pouquíssimos minutos depois de serem conhecidas as primeiras projeções à boca das urnas, onde pediu uma "grande aliança claramente democrata e republicana" para a segunda volta.

O presidente francês, que decidiu marcar eleições antecipadas após o rombo nas europeias deste ano, pode vir a ter agora de lidar com um futuro político extremamente difícil até 2027, se tiver Jordan Bardella a ‘coabitar’ consigo. Isto porque, embora seja o chefe de Estado que decide matérias de política externa ou defesa, é a maioria no parlamento que é responsável por passar leis que mexem com assuntos internos (pensões, impostos). 

Num discurso de semi-vitória, Bardella abordou este tema e prometeu  "respeitar" os poderes do presidente francês, se vier a ser eleito, mas sublinhou que será “intransigente” com Macron em algumas pastas, como maiores restrições à imigração. Certo é que concentrou a maior parte do seu discurso a alertar para os “perigos” impostos pela Nova Frente Popular que acusou de querer desarmar a polícia, abrir as fronteiras francesas aos imigrantes e de não ter "limites morais".

Com isto, surgiu também durante a noite um sinal das possíveis dificuldades vindouras. Já depois de todas as reações políticas e com milhares de pessoas - especialmente jovens - a protestar o crescimento da extrema-direita na Place de la République, em Paris, foi avançado pela Reuters a intenção de Gabriel Attal de suspender os planos para a reforma do subsídio de desemprego, que reduziria muitos dos benefícios de quem está à procura de trabalho. 

Esta segunda-feira, volta a campanha eleitoral. Até lá, pelo menos 37 candidatos da Reagrupamento Nacional já garantiram um lugar na câmara baixa do parlamento francês. 

Relacionados

Europa

Mais Europa

Patrocinados