"Ídolo que se apercebe que está perante o fim". Cristiano Ronaldo chorou e o mundo percebeu com ele que já não é mesmo o melhor do mundo

2 jul, 12:58
Portugal-Eslovénia (UEFA via Getty Images)

Textos publicados na imprensa internacional deixam a entender que dificilmente alguém vê o capitão da seleção como o jogador que foi. Segue-se a França e mais vale não perder muito tempo, pode ser que a coisa ainda vá lá

"O atleta mais famoso do planeta estava em lágrimas". É assim que o New York Times começa análise àquilo que a CNN Internacional chama de "drama de penáltis" após 120 minutos delirantes em que Cristiano Ronaldo desabou em campo após falhar uma grande penalidade contra a Eslovénia.

Depois disso teve engenho - voltou a assumir a marca dos 11 metros no desempate e dessa vez marcou - e uma estrelinha em Diogo Costa - no Twitter havia quem pedisse que se deixasse marcar os dois penáltis restantes só para ver se o guarda-redes também os defendia.

Foi errático, foi complicativo, foi demasiado a pior versão de si próprio durante quase todo o jogo. E nem é do penálti que falamos, mas sim da quase obsessão em marcar, em ser o primeiro a marcar em seis europeus, em ser a solução quando, muitas vezes, claramente não o foi - não podia Bruno Fernandes ter batido um daqueles livres?

"Não chorava por um jogo perdido, mas, ao que parece, pelo fim das suas forças. Assemelhavam-se às lágrimas de um ídolo de fim de tarde que se apercebe que está perante o fim", continua o jornal norte-americano, numa crónica assinada por Oliver Kay em que se percebe, por um lado, a figura idolatrada e de dimensão mundial que é o capitão da seleção, mas também a forma como muitos já perceberam que já não é sempre solução, incluindo talvez o próprio, o que também acaba por justificar a reação que teve.

"Por um momento pareceu tão vulnerável, tão falível, tão... humano", continua a crónica escrita num jornal cujos leitores nem terão especial interesse em futebol. Talvez por isso se conte a história de algo que percebem melhor, do aparente colapso emocional. Oliver Kay fica, inclusive, surpreendido por Roberto Martínez ter mantido o capitão em campo: "É notável que o tenha mantido naquelas circunstâncias", pode ler-se, numa lógica de concordância com o que também escreveram o Pedro Falardo e o Germano Oliveira na CNN Portugal após o jogo.

Ficou, levantou-se e foi lá novamente. Marcou e converteu o primeiro penálti de uma caminhada que entra para a história dos europeus, com Diogo Costa a ser o primeiro guarda-redes que defendeu três grandes penalidades. A partir daqui é olhar para a frente.

Oliver Kay deixa isso bem claro: o próprio Ronaldo deve perceber se há coisas que fazem sentido. É que há "tantos ataques prometedores e livres perigosos sacrificados no altar do comodismo". "Houve um livre contra a Eslovénia em que, até num estádio cheio de fãs de Ronaldo, ele deve ter sido o único a pensar que ia marcar". Saiu ao lado, bem ao lado.

A conclusão é do New York Times, mas talvez já lá tivéssemos chegado, talvez Ronaldo lá tenha chegado também e daí as lágrimas: "O seu melhor foi há muito tempo. Talvez há mais tempo do que ele queria imaginar. A aceleração, velocidade e força já não são o que eram".

"É tudo sobre Ronaldo"

Talvez mais cáustico, Jonathan Wilson pôs o dedo na ferida num artigo para o The Guardian. "Neste mundo de adoração, a vitória em jogos de futebol é uma preocupação secundária. É tudo sobre Ronaldo", lê-se na entrada do texto.

"Haverá um dia em que um jogo de Portugal não é sobre Ronaldo - mas não aqui, não agora. É tudo sobre Ronaldo; o futebol português tornou-se o maior psicodrama do seu envelhecimento", continua o colunista, ironizando que até o brilhantismo de Diogo Costa ficou para segundo plano. Se calhar a UEFA ajudou, até porque Portugal venceu e as câmaras foram em busca do capitão, e não do guarda-redes que acabava de assinar uma das exibições mais históricas com a camisola das Quinas.

O artigo do The Guardian faz depois um relato do que foi a exibição de Cristiano Ronaldo, bem para lá dos vários livres cobrados, sublinhando que é um jogador em fora de forma e cuja magnitude da sua presença causa desequilíbrios na equipa.

"Questionamo-nos se as hordas de talentosos jogadores do ataque de Portugal se importam em ser atores secundários no show de Ronaldo. E questionamo-nos sobre a sabedoria de levar uma equipa imensamente talentosa para o Mundial ou para este Europeu para tratá-la essencialmente como uma tournée de despedida. Oportunidades de ganhar grandes troféus, oportunidades reais, surgem muito raramente e sacrificá-las diante do ego de uma estrela em declínio, não importa o quão grande ele já foi, parece indefensável", continua Jonathan Wilson.

Daqui temos para dizer a Oliver Kay e a Jonathan Wilson que pode nem ser tão mau assim. Cristiano Ronaldo está frustrado, procura um momento em que se volte a sentir a sua importância, mas também já se viu que pode ser uma mais-valia. Esteve bem, dentro do possível, contra a República Checa, esteve bem contra a Turquia, até fez aquela assistência.

Agora vem aí a França e o que se espera é que volte a ser o melhor de si.

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