Os seus filhos podem precisar de ajuda para fazer amigos depois da grande pausa da pandemia. Eis como

CNN , Elissa Strauss
20 ago, 22:00
As crianças podem ter dificuldade em fazer amigos ao regressarem às interações em pessoa (CNN Internacional)

Os últimos anos de pandemia não criaram as circunstâncias ideais para os nossos filhos fazerem ou aprofundarem amizades. 

No início, houve isolamento físico, um obstáculo claro e óbvio à construção ou manutenção de ligações. Depois, passámos para o navegar nas políticas covid-19 de cada família. Claro, os nossos filhos querem conviver. Mas os pais e encarregados de educação estarão em sintonia, com a monitorização de máscaras, janelas abertas e narizes entupidos? Já foi difícil determinar isto com velhos amigos, quanto mais com uma família que tínhamos acabado de conhecer. 

As restrições caíram, muitos pais e cuidadores baixaram um pouco a guarda, mas, nessa altura, já as crianças estavam "enferrujadas". Talvez tivessem amigos, mas do ponto de vista dos pais e dos cuidadores, faltava algo: uma intimidade ou dependência que recordavam das suas amizades de infância. Ou talvez os vossos filhos tenham passado o ano letivo sem falar muito ou pouco sobre amigos, novos ou de longa data. Por vezes, essa falta de ligação nem parecia incomodá-los. 

"Não havia nada que pudéssemos fazer em relação aos contratempos sociais", disse Anya Kamenetz, repórter especializada em educação e autora do livro a publicar "The Stolen Year: How COVID Changed Children's Lives, and Where We Go Now" (O Ano Roubado: Como a covid mudou a vida das crianças e para onde vamos agora, na tradução literal). "Agora, temos alguma recuperação social a fazer." 

É provável que todos os nossos filhos precisem de uma ajudinha para reconstruir laços sociais quando começarem este ano letivo. Eis algumas formas de abordar este recente desafio. 

O desafio: pais e cuidadores, podemos ajudar os nossos filhos a fazer novos amigos e a aprofundar amizades com os atuais amigos sem os envergonhar no recreio ou em mensagens de grupos. A "parentalidade helicóptero" não é necessária. 

Porque é importante: as amizades são uma parte essencial da infância, dizem os especialistas. Não só pelas razões evidentes de que é agradável ter uma ligação com os outros, mas também porque criam importantes oportunidades de desenvolvimento que levam a um melhor funcionamento na escola e na vida. 

"Para os jovens, muito de como estão a construir a sua identidade é através dos seus pares", disse Karen VanAusdal, diretora sénior de prática da CASEL, o Colaborativo para Aprendizagem Académica, Social e Emocional. "As amizades são onde podemos experimentar novas ideias, praticar novas habilidades sociais, ramificar-nos para fora da nossa zona de conforto e partilhar os nossos sentimentos." Por mais importantes que sejam os laços familiares, os amigos fornecem um escape social essencial fora da família, onde as crianças podem ter mais espaço para descobrir quem são, disse. 

Eis várias formas aprovadas por especialistas para abordar a problemática. 

Comece do início

"As crianças precisam de praticar coisas pequenas, como apresentarem-se. Coisas tão simples como "Olá, o meu nome é... Qual é o teu nome? Queres brincar comigo?", disse VanAusdal. "Ajude-os com as introduções de conversa, como falar sobre pedir desculpas e partilhar, e faça-os praticarem primeiro com a família." 

Na semana passada, o nosso filho de 5 anos, que costuma ter dificuldades em novas situações sociais, teve a sua primeira brincadeira no jardim-de-infância. Enquanto estávamos a prepará-lo para conhecer os seus novos colegas, na noite anterior, pus em prática este conselho. Infelizmente, nunca o tínhamos ensinado explicitamente a apresentar-se. 

No dia seguinte, não o fez propriamente bem – segundo os seus relatórios, esqueceu-se de partilhar o nome, ou de perguntar os nomes aos miúdos — mas esse guião na cabeça fê-lo sentir-se mais confortável em ir ter com miúdos novos e perguntar-lhes se queriam brincar. 

Incentive a curiosidade 

"Acho que os pais podem ajudar os seus filhos a desenvolver amizades mais profundas fazendo-lhes perguntas sobre os amigos", disse Maurice J. Elias, professor de psicologia na Universidade de Rutgers, na Nova Jérsia, e coautor de "Emotionally Intelligent Parenting" (Parentalidade Emocionalmente Inteligente). "Uma das razões pelas quais as amizades não são tão profundas é porque muitas vezes as crianças estão apenas focadas nelas próprias." 

Se os vossos filhos forem como os meus, não saberão a resposta para metade das perguntas que lhes fazem sobre os amigos deles, novos e antigos. Mas notei que fazer essas perguntas regularmente os deixa entusiasmados por partilharem connosco quaisquer novos detalhes que descobriram sobre os seus amigos. (Exceto nas alturas que me dizem que há segredos envolvidos, o que é um sinal de curiosidade, também.) 

Incentivar a curiosidade também pode acontecer em reinos fictícios. "Leiam livros ou vejam filmes juntos, e depois falem sobre como a personagem se está a sentir. É uma forma muito boa de ter uma conversa sobre sentimentos", disse Kamenetz. Pela minha experiência, as crianças podem não adicionar as lições que tiraram do "Trolls World Tour" à sua dinâmica de sala de aula imediatamente, mas estas ideias tendem a ser absorvidas ao longo do tempo, e de formas significativas. 

Também pode falar sobre a sua própria vida, o que não é tão excitante como um filme ou um programa de TV, mas tem a mais-valia de ser real. "Partilhe exemplos de como a amizade é importante para si, para que os jovens comecem a entender o valor de manter amizades ao longo do tempo", disse VanAusdal. 

Seja recetivo a potenciais amigos 

Nós, pais e cuidadores, quer nos apercebamos ou não, tendemos a ter ideias sobre quem é um amigo adequado para os nossos filhos, e quem não é. Kamenetz sugere que alarguemos as nossas ideias sobre que tipo de amigos os nossos filhos podem fazer, e de onde esses amigos podem vir. "Algumas crianças vão dar-se melhor com crianças que são mais novas, e algumas podem dar-se melhor com crianças que são mais velhas. Há que apoiar isso, também."

Promova a inclusividade. Seja proativo a garantir que os seus filhos saibam que todos têm lugar, que todos são potenciais amigos. "Todos podemos pensar em formas de ser melhores aliados e trabalhar para sermos mais inclusivos com as crianças nas nossas turmas que são neurodivergentes, ou que vêm de diferentes etnias ou religiões (das da nossa família)", disse Kamenetz.

Uma vantagem em discutir a inclusividade na nossa casa é que fez os nossos filhos sentirem-se mais confortáveis sobre as suas diferenças – seja um passatempo peculiar, ou o facto de sermos judeus. Ao imaginar um mundo que é um lugar inclusivo, eles veem-se como tendo também lugar, e entram em situações sociais com um pouco mais de segurança. 

Limite o tempo de ecrãs nos encontros para brincar 

Este é um clássico, mas tente, se puder encorajar os jogos analógicos. 

"As amizades podem ficar presas na fase do jogo paralelo por muito tempo, por causa de dispositivos eletrónicos", disse Elias. A brincadeira paralela, que é comum em crianças muito pequenas, é quando as crianças brincam umas com as outras, mas não se envolvem umas com as outras. Este tipo de jogo dificulta a ligação através da conversa, que é a essência das relações duradouras, disse. 

Para crianças que podem precisar de uma pequena dose de tempo digital para ajudar a sentirem-se confortáveis a socializarem novamente, Elias sugere tentar fazê-los jogar um jogo que seja colaborativo. "Certifiquem-se de que há interação e conversa, e eles estão a trabalhar juntos em alguma coisa", disse. 

Leve tudo com calma 

Quer tenham um transtorno de ansiedade clinicamente diagnosticado ou sejam neurodivergentes ou um pouco mais sensíveis às tensões sociais da pandemia, há algumas crianças que precisarão de mais apoio do que outras quando se trata de reparar amizades e fazer amigos. O mais importante é levar as coisas com calma, segundo os peritos. 

Toda a orientação acima pode demorar mais tempo, ou acontecer ocasionalmente ou pequenas doses, e tudo bem. Kamentez disse que ouviu falar de algumas escolas que fazem "grupos de almoço" — pequenos grupos de crianças que almoçam com um professor numa sala de aula, ou noutro lugar longe da potencialmente avassaladora cantina. 

"A minha filha mais nova começava a expressar angústia com as festas de aniversário", disse Kamentez." Mas eu sabia que não valia a pena dizer-lhe 'Porque não queres ir a uma festa de aniversário? São divertidas' e, em vez disso, dizia-lhe que só tínhamos de ir por cinco minutos, e depois podíamos ir embora." 

Na primeira vez, seguiram o plano. Mas, a cada vez, começavam a ficar um pouco mais de tempo e a filha divertia-se cada vez mais — tudo ao ritmo que funcionava para ela. 

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