Dar mesada aos filhos: sim ou não? Os conselhos dos especialistas

18 jul, 09:00
Dinheiro

Os filhos crescem e as dúvidas parecem não ter tendência a diminuir. Apenas mudam de foco

Um dos dilemas que vivem muitos pais à medida que os filhos crescem é se devem ou não dar-lhes mesada e, em caso afirmativo, a preocupação anda em torno dos cuidados a ter. Os especialistas ouvidos pela CNN Portugal são unânimes em afirmar que, havendo disponibilidade financeira, só há benefícios em dar mesada às crianças.

“A mesada ou semanada é uma boa ferramenta para educar financeiramente as crianças”, destaca Bárbara Barroso, fundadora do MoneyLab e especialista em finanças pessoais. Também a psicóloga Cátia Lopo, da clínica Escola do Sentir, é perentória: “Sim, deve existir mesada”. A especialista diz mesmo que o benefício vai muito além da idade infantil: “Vai capacitar a criança para que se torne capaz de definir prioridades e gerir o seu próprio dinheiro, sendo esta capacitação essencial quer para o seu desenvolvimento, quer para a sua vida adulta”.

A atribuição de um valor para as crianças gerirem deve ser feita “assim que começam a ter noção do dinheiro”. Bárbara Barroso aponta a entrada na escola – os cinco ou seis anos -  como uma boa idade para dar esse passo. Já a psicóloga Sara Almeida considera a transição para o quinto ano uma boa altura, uma vez que é aí “que as crianças começam a ter necessidade de ter consigo algum dinheiro”.

A atribuição de uma mesada deve ser feita quando a criança "começa a ter noção do dinheiro"

Tanto psicóloga como especialista em finanças pessoais são unânimes no primeiro alerta aos pais: nestas idades deve atribuir-se semanada em vez de mesada. “As crianças até à adolescência devem gerir sobretudo o dinheiro à semana, pela dificuldade em gerir um espaço temporal tão grande como um mês”, explica Bárbara Barroso.

“Através da semanada é mais fácil para a criança ter noção dos gastos que terá e fazer uma gestão eficiente do seu dinheiro. Posteriormente, e à medida que a criança cresce e se torna adolescente - pelos 14/15 anos -, a semanada pode crescer e transitar para mesada”, explica Sara Almeida.

Como calcular o valor a atribuir?

As psicólogas ouvidas para este artigo e a especialista em finanças pessoais consideram que, pelo menos nessa fase inicial, a semanada deve ser atribuída em dinheiro vivo, “não só por ser mais tangível como pelas próprias limitações que existem de idade para utilização de cartão físico”. À medida que a criança cresce e se torna adolescente pode passar-se para um cartão, se essa for a modalidade mais confortável para a gestão familiar.

Mas qual é o valor justo e ponderado para atribuir? Há dois fatores a ter em conta quando se responde a esta questão: as necessidades da criança ou jovem e o contexto familiar.

Na verdade, há teorias que apontam para uma espécie de fórmulas mágicas para calcular o valor da mesada de cada filho:

  • Há quem defenda a atribuição de um euro por cada ano da criança. O cálculo é fácil nesta modalidade: uma criança de 10 anos receberia €10 por mês, enquanto um adolescente de 15 anos receberia €15 mensais;
  • Outra teoria defende a atribuição de €0,50 semanais por cada ano da criança. A mesma criança de 10 anos receberia €20 por mês (0,50 x 10 anos x 4 ­­­­­­­­­­semanas = 20) e o adolescente de 15 anos receberia €30 mensais (0,50 x 15 anos x 4 ­­­­­­­­­­semanas = 30).

Mas as especialistas ouvidas pela CNN Portugal lembram que as fórmulas não respondem a todos os fatores a considerar. “Não acredito muito em fórmulas porque cada criança, cada família é única e pelo contexto conseguimos identificar o que pode ser mais ajustado. Uma criança de sete ou oito anos pode receber, por exemplo, um ou dois euros por semana. Um jovem de 14 anos certamente receberá mais, mas claro que depende se irá gerir também esse dinheiro para lanches na escola ou se será apenas para si e para lazer. O que pode fazer é pedir à criança ou jovem uma sugestão, até porque falam com outro colegas e depois pode negociar e ajustar”, sugere Bárbara Barroso.

Há quem defenda a atribuição de €1 por cada ano da criança como valor ideal para definir a mesada.

Por outras palavras, a mesma posição é defendida pela psicóloga Cátia Lopo: “A semanada ou mesada deverá ter por princípio a cobertura de todas as despesas da criança ou adolescente no seu dia a dia, o que naturalmente vai variar em todas as famílias. Assim falamos de um valor que permita, se for caso disso, cobrir transportes, alimentação, despesas específicas da criança ou adolescente - este deve ser o primeiro cálculo a fazer. Posteriormente, consoante aquilo que os pais considerem adequado, deve ser adicionado um valor extra que permita atividades lúdicas ou gastos excecionais, como lanchar com os amigos ou fazer algumas compras. Aqui, o valor além das despesas da criança deverá crescer à medida que a criança cresce, uma vez que as crianças mais novas, regra geral, terão menos despesas fora daquilo que estava planeado.”

Que cuidados ter

A psicóloga Sara Almeida considera fundamental que se prepare a criança para a responsabilidade de passar a gerir o seu próprio dinheiro e aconselha uma conversa entre pais e filhos em que seja “explicada a importância do dinheiro e a liberdade que permita a cada um de nós”. “Deve ser indicado à criança exatamente quais são as despesas que aquele valor deve cobrir - que agora passam a ser responsabilidade da criança,. Isto deve ser feito sempre numa perspetiva de confiança, ‘a mãe e o pai confiam em ti, por isso passarás a ser responsável por comprares o almoço e o bilhete de autocarro’”, exemplifica a psicóloga.

Bárbara Barroso alerta os pais para que se certifiquem que as crianças não usam o dinheiro para algo ilícito ou desadequado para idade e que, tirando isso, se “deixe a criança gerir livremente o seu dinheiro, assuma as consequências suas escolhas e, se houver algum erro ou arrependimento de algum gasto, que ela ou ele sejam livres de aprender com esse erro”.

E se o dinheiro não chegar?

Entre os erros apontados por Bárbara Barroso está gastar tudo antes de o período negociado em família terminar. Se o dinheiro atribuído não chegar ao fim do mês ou da semana, não se deve dar mais dinheiro à criança. “Dizer-lhe que terá de esperar pelo próximo mês (ou semana, caso seja semanada) para voltar a receber e que da próxima talvez tenha de rever a gestão. Mas sempre com postura pedagógica e não crítica”, defende.

É preciso ser firme na gestão do assunto quando o dinheiro não chega ao fim do mês ou da semana

Uma posição que é corroborada pelas psicólogas Cátia Lopo e Sara Almeida. As especialistas sublinham a importância dessa conversa com a criança ou adolescente em que se avaliem os gastos efetuados e as despesas previstas para que se perceba qual foi o motivo de o dinheiro não ter sido suficiente para a semana ou para o mês. “Consoante as circunstâncias, pode ou não haver a atribuição de um valor extra”, considera Cátia Lopo.

Aproveitar para poupar... e não só

A mesada ou semanada pode também ser uma oportunidade para incutir o hábito de poupança nos filhos. Isso mesmo defendem as três especialistas. “Se a criança aprender a poupar - mesmo que uma pequena parte - da sua semanada ou da sua mesada para posteriormente adquirir alguma coisa com um valor importante para si estamos a ensiná-la a pensar a longo prazo e fazer uma gestão mais eficiente do seu dinheiro”, explica Sara Almeida.

A especialista em finanças pessoais avança mesmo com a criação do hábito de investir e aponta uma fórmula simples que se pode ensinar à criança: “ensinar a dividir o seu dinheiro em três partes: uma para gastar, outra para poupar e outra para investir”. “A parte para gastar é a que vai gastar agora, a poupar é que guarda para algum objetivo de curto ou médio prazo e a terceira parte de investir é que vai para algo de mais longo prazo”, explica.

Especialista em finanças pessoais explica que é importante ensinar as crianças a dividir a mesada em três partes: uma para gastar, outra para poupar e outra para investir.

Bárbara Barroso lembra ainda que é importante fomentar a solidariedade e fomentar o conceito de doar. “É importante que as crianças compreendam a importância de partilha com o outro, com quem tem menos, incutindo um espírito solidário e de boa vivência em comunidade”, conclui.

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