“Há crianças amamentadas até aos 7 ou 8 anos. Não lhes faz mal nenhum” (e ainda a história de Isabel, que amamentou “24 anos seguidos”)

5 ago, 10:00
Mulher a amamentar

A OMS recomenda a amamentação pelo menos até aos dois anos, mas há profissionais que dizem que os benefícios podem ir muito além dessa idade

Isabel já tem alguma dificuldade em fazer as contas mas calcula que terá amamentado “23 ou 24 anos seguidos”. Amamentou em livre demanda os oito filhos e ainda uma bebé que acolheu durante um ano. “Fui mãe pela primeira vez com 26 anos. Os outros foram um bocadinho mais seguidos. Os primeiros dois têm só um ano de diferença. Quando o segundo nasceu, eu estava a amamentar o primeiro e continuei”, diz à CNN Portugal.

Isabel Rute Reinaldo, agora com 56 anos, tem uma missão: ajuda outras mulheres a fazer um caminho que nem sempre é fácil e encerra muitos desafios . o do aleitamento materno. Nesta que é a Semana Mundial do Aleitamento Materno, lembra como foi o início, há 30 anos, de um processo que anos mais tarde havia de resultar no projeto SOS Amamentação.

Se hoje “ainda há muita falta de informação e de formação dos profissionais do Serviço Nacional de Saúde (SNS)” sobre amamentação, Isabel garante que, quando nasceu o primeiro filho, era muito pior. “Há 30 anos os bebés nasciam e levavam biberões logo de início. Quando tive o primeiro filho é que percebi que a realidade em relação à amamentação era diferente. Saí do hospital com uma lata de leite. Nunca lha dei, mas trouxe-a da maternidade”, lembra a agora Conselheira da Amamentação (CAM).

Benefícios da amamentação - e os perigos de não o fazer

Ana Conde foi mãe há quase um ano. Amamentou a filha Carolina em exclusivo e em livre demanda até à diversificação alimentar, aos seis meses. A bebé ainda mama “duas ou três vezes” durante a noite e sempre que quer quando está com a mãe. “Não me importo de acordar durante a noite para amamentar. Sei que é o melhor que posso fazer pela minha filha e isso traz-me motivação.”

Mas afinal quais sãos os benefícios de amamentar? A pediatra Graça Gonçalves, da clínica Amamentos, é perentória na resposta a esta questão: “Amamentar é a consequência natural de engravidar. As mulheres que não amamentam vão ter um preço que vão pagar. Ao invés de falarmos em benefícios, devíamos falar antes em perigos de não amamentar. Em primeiro lugar para as mães: diabetes, AVC, hipertensão, obesidade, síndrome metabólico…  Todas as coisas em nós são multifatoriais. Mas este fator para todas aquelas doenças existe e está bem descrito. Se for uma mulher que não engravidou, não sofreu as alterações metabólicas e hormonais, por isso não há problema... Mas uma mulher que engravidou sofreu todas as alterações que a gravidez implica e a amamentação é o complemento para que o ciclo se feche”.

Amamentação traz inúmeros benefícios para a mãe e para o bebé, garantem os especialistas (Tim Clayton/Corbis/Getty Images)

 

“Quanto ao bebé, também não se deve falar propriamente em vantagens. Para ele, é normal ser amamentado. Se não for, tem o risco de não ter proteção contra doenças futuras. Não é que os amamentados não adoeçam. A amamentação não lhes coloca uma rede protetora à volta. Nem isso é desejável. Mas ajuda a imunidade da criança até ela estar desenvolvida, que é por volta dos sete anos. Além disso, as alergias nas crianças não amamentadas têm, por norma, uma maior gravidade, por exemplo”, acrescenta a pediatra.

Mas as vantagens vão muito mais além do palpável. A pediatra assegura que a relação entre mãe e filho só tem a ganhar com a amamentação: “Pode ser uma relação mais fácil, mais estreita, mais visceral, mais natural do que quando existe um biberão de premeio. Os afetos são diferentes, naturalmente. Não estou a dizer que as mulheres que não amamentam não amem os seus filhos. Mas é inevitavelmente diferente”.

Meio mililitro de “ouro líquido”

Os benefícios do leite materno adquirem ainda outra dimensão, asseguram os especialistas, quando falamos de bebés prematuros. Elsa Paulino é pediatra da neonatologia do Hospital de Cascais e sabe melhor do que ninguém o que os seus bebés têm a ganhar com aquilo a que chama “ouro líquido”. Elsa Paulino está a falar do colostro, que, na prática, é o primeiro leite a sair das mamas da mãe logo a seguir ao parto.  

“Temos um protocolo de extração precoce do colostro. Imediatamente após o nascimento, e assim que as mulheres vão para o recobro, propomos a extração de leite enquanto o bebé está na neonatologia. Conseguimos uma quantidade muito pequenina de colostro. As vezes é só meio mililitro, que é recolhido com uma seringa e é administrado ao bebé. Depois, incentivamos a mulher a fazer essa extração de três em três horas”, explica a neonatologista.

Um bebé prematuro alimentado com leite materno tem menos risco de contrair infeções (Arquivo)

“As pessoas não valorizam o colostro. Às vezes pergunto às mães se o bebé está a mamar e elas dizem ‘ah, mas é só colostro’. Não é ‘só colostro’, é ‘o colostro’! O colostro tem propriedades incríveis que mais nenhum outro fluido orgânico tem. Tem glóbulos brancos que vão proteger os bebés das infeções, tem imunoglobulinas muito superiores às do sangue. O leite materno maduro continua a ser muito bom, mas é nos primeiros três dias que a sua riqueza é incomparavelmente maior”, explica.

De acordo com Elsa Paulino, “quanto mais cedo este colostro chegar ao bebé mais reduz a taxa de infeções, a taxa de mortalidade e mais ajuda no crescimento do bebé”.

O que diz a OMS

O leite materno incrementa o desenvolvimento do sistema imunitário do bebé e promove uma boa microflora intestinal, com “bactérias que controlam o nosso sistema imunológico e que são importantes até do ponto de vista psiquiátrico”, assegura a pediatra Elsa Paulino.

Também por isso as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) passam pela amamentação em exclusivo até aos seis meses de vida. Depois disso, a recomendação é que o bebé continue a ser amamentado até pelo menos aos dois anos, em complemento com a alimentação diversificada.

E até quando? As pediatras Elsa Paulino e Graça Gonçalves não hesitam: “Até quando mãe e bebé quiserem”. “Há crianças amamentadas até aos sete ou oito anos. E não lhes faz mal nenhum”, assegura Graça Gonçalves. “Não precisam dizer a ninguém. É melhor até que nem digam porque já sabem que vão ser condenadas. Mas essas mães sabem e sentem que vai ser benéfico para os filhos. Amamentar depois dos sete anos não é prejudicial. Essa é uma ideia que os psicólogos vieram defender. Colocam uma carga emocional na amamentação como se fosse uma dependência. Esta dependência é saudável e normal”, assegura.

“Dizem as pessoas às mães: ‘ele é muito dependente de ti’. E desde quando é que uma criança não é dependente? É uma dependência de afetos e isso não é prejudicial. Claro que é dependente da mãe e ainda bem que é. É sinal de que é uma boa mãe e de que o bebé tem na mãe um porto de abrigo”, acrescenta.

As recomendações da OMS ponto por ponto:

  • amamentação exclusiva até aos 6 meses (nesta fase não administrar qualquer outro alimento incluindo água);
  • amamentação em livre demanda (quando o bebé quiser, dia e noite);
  • não oferecer tetinas, biberões ou chupetas;
  • a partir dos 6 meses, iniciar a diversificação alimentar e continuar a amamentar pelo menos até aos 2 anos.

Elsa Paulino diz que “é muito raro um bebé querer desmamar espontaneamente antes dos 2,5 anos. A idade normal é por volta dos 3,5 anos”. E garante que, “até ao desmame, enquanto o bebé mamar é benéfico para ele”.

A importância dos profissionais de saúde

Nem todas as mães se cruzam com profissionais de saúde defensores da amamentação e informados suficientemente para as apoiar no processo de amamentação. Neste primeiro ano de vida de Carolina, Ana Conde já ouviu de uma enfermeira no centro de saúde que tinha de “interromper a amamentação para tomar antibiótico para tratar uma mastite” e do médico de família que só poderia ser medicada devidamente para um problema de saúde que a acompanha quando deixasse de amamentar.

“Dos profissionais que apanhei no privado sempre senti um grande incentivo. Sem pressões, mas um incentivo. No SNS até me deram uma chucha para dar à bebé na primeira semana de vida, quando sabemos que, até a amamentação estar devidamente estabelecida, devem ser evitadas as tetinas. E disseram-me coisas como ‘ela não pode estar na mama se não estiver a mamar!’, quando sabemos que os bebés vão à mama não só para se alimentarem mas também para procurar conforto para alguma dor ou por mimo, por exemplo. Se não fosse o segundo filho e não estivesse minimamente informada, se tivesse seguido determinados conselhos, não teria sequer passado do primeiro mês de amamentação.”

O sucesso do processo de amamentação começa com o apoio dos profissionais de saúde ainda na maternidade (JAY DIRECTO/AFP)

A falta de informação de muitos profissionais de saúde é, na verdade, um entrave enumerado até pelos profissionais de saúde ligados à amamentação. “A OMS diz que os cursos da área da saúde têm de ter pelo menos 20 horas de formação em aleitamento materno. Mas os nossos cursos não têm essa componente e os enfermeiros e os médicos que sentem essa necessidade têm de fazer formação à parte”, lamenta a enfermeira Ana Lúcia, do Centro de Saúde de Oeiras, a única unidade de saúde primária que tem o selo “amiga do bebé”.

Também a pediatra Graça Gonçalves sublinha a importância do apoio dos profissionais de saúde: “As pessoas não têm consciência das amamentações que destroem logo na maternidade à conta dos disparates que dizem e que fazem. Os nossos hospitais são do século passado e há profissionais de saúde do século passado. Afastam-nos ao nascimento, colocam bicos de silicone à nascença, metem-se a tentar colocar um bebé à mama quando ele não deu sinais disso. A OMS já disse que o bebé deve ficar junto da mãe nas primeiras horas e mamar quando assim mostra interesse”, exemplifica.

“Nas escolas, nas universidades, ninguém é ensinado sobre aleitamento materno. Vão para as especialidades e também ninguém lhes diz nada sobre aleitamento materno. Para se saber sobre amamentação é preciso fazer um trabalho extra que nos custa esforço e dinheiro”, prossegue ainda Graça Gonçalves.

Para fazer face a esta procura, a Universidade Católica criou o primeiro curso de formação avançada em aleitamento materno. A procura foi de tal ordem que a primeira edição esgotou em três dias. O segundo arranca já em meados de outubro e também já esgotou.

Sem pressões

A ajuda dos profissionais que acompanham mãe e criança é preciosa mas é preciso não aumentar o limite da pressão. É fundamental que a mãe se sinta acolhida na decisão de amamentar, mas não se sinta obrigada a fazê-lo se não o desejar. A pediatra Graça Gonçalves lida em consultório com mães que vivem a amamentação como uma sentença e tenta reverter os malefícios da pressão imposta por outros profissionais. Aqui o físico e o psicológico andam intimamente ligados.

“Essa pressão existe e é completamente contraproducente. Estou a fazer pressão, mas não estou a ajudar. De que me adianta dizerem-me para apanhar aquele comboio se eu não sei onde o apanhar. O que há mais é essa pressão negativa e isso não faz bem a ninguém. É preciso mostrar à mãe que ela é capaz, que está a fazer um bom trabalho, e isso vai fazer fluir a ocitocina e a coisa dá-se”, reconhece.

“Se uma mulher vier ter comigo e vier dizer-me que só quer amamentar até aos três meses, se essa decisão for informada e consciente, a minha obrigação é ajudá-la a amamentar até aos três meses. Sem julgamentos”, remata.

A enfermeira Ana Lúcia ressalva apenas que “não se confunda informação com pressão”. A especialista em aleitamento materno exemplifica: “Se uma mulher vem ter comigo aos dois ou três meses pedir ajuda para fazer o desmame, eu tenho de me certificar que está informada das consequências da sua decisão. Se estiver, só tenho de a ajudar. Mas se notar alguma lacuna de informação, é minha obrigação preenchê-la”.

Amamentação “é coisa de todos”

A ajuda no aleitamento materno ultrapassa os limites das portas das maternidades, dos hospitais e dos centros de saúde. A pediatra Graça Gonçalves lembra: “Muitos colegas meus médicos acham que amamentação é coisa de enfermeira. Errado! É de todos”.

E quando diz “todos” refere-se ao obstetra, ao pediatra, aos enfermeiros, mas também à família. “Se o pai ou a outra mãe não for muito empenhado no processo, vamos ter muita dificuldade em manter a amamentação dessa criança. A probabilidade de desmame é maior”, sublinha.

É, pois, necessário cuidar das mães: “Nos primeiros dias, a mulher tem de estar quase em exclusividade a cuidar do bebé. Mas há comida para fazer, casa para arrumar. E é preciso que familiares e amigos ajudem nestas tarefas do dia-a-dia. Há que cuidar da mãe, há que maternar a mãe. Proporcionar-lhe conforto”.

E o apoio dos pares é também de extrema importância - são os médicos que o reconhecem porque a experiência bem-sucedida de uma mãe é fundamental para incentivar outras mães. A experiência e os conhecimentos. Daí o sucesso de associações como a SOS Amamentação. O que começou por ser um grupo de mães na sala de casa de Isabel Rute Reinaldo, muito antes dos grupos de mães no Facebook, tornou-se uma rede de voluntárias que apoia centenas de mulheres.

A ajuda dos pares é fundamental para o sucesso de um processo de amamentação (Diana Bagnoli/Getty Images)

“Foi a perceção que tive da falta de informação que havia que me levou a procurar ajudar outras mulheres”, recorda Isabel Rute Reinaldo. “O processo começou em 1996. A linha telefónica começou a funcionar a 1 de novembro de 1998 e a associação nasceu, enquanto tal, em 2002. Até aí éramos apenas consideradas voluntárias da UNICEF”, resume.

As conselheiras da SOS Amamentação receberam formação e estão disponíveis para ajudar outras mulheres. Há sempre alguém a quem recorrer: “O nosso foco é sempre o voluntariado, o apoio voluntário”.

A rede de conselheiras estende-se por todo o país. O que traz vantagens mas dificulta a aferição da quantidade de mulheres ajudadas nos 26 anos de história da SOS Amamentação. “Temo-nos focado mais no aspeto qualitativo do que no aspeto quantitativo”, sublinha.

Além das conselheiras da amamentação, que fazem uma formação da UNICEF em aleitamento materno, em Portugal existem já os consultores de lactação certificados. São profissionais de saúde que se sujeitam a um exame de certificação renovável a cada cinco anos.

A Associação dos Consultores de Lactação Certificados nasceu em 2019 para promover a profissão de consultor de lactação certificado e “atuar como agente de proteção, promoção e apoio à amamentação e aleitamento materno, trabalhando em conjunto com mães, famílias, profissionais de saúde, sociedade e decisores políticos”.

Ana Conde diz que se no primeiro filho tivesse toda a ajuda disponível que conhece hoje e estivesse mais bem informada, não teria desmamado Francisco antes dos dois anos, como aconteceu. Agora, com Carolina, quer escrever um final diferente para a história da filha: “Não sei se vai ser até depois dos dois anos ou não. Nem estou preocupada com isso. Será enquanto ambas quisermos e nos sentirmos bem. Mas não será nunca por falta de informação que o processo será interrompido”.


Nestas páginas pode saber mais ou procurar ajuda sobre a amamentação:

SOS Amamentação
Rede Amamenta
Associação Portuguesa dos Consultores de Lactação Certificados
La Leche League
E-Lactancia

Saúde

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