Kroos, ensina-nos a falhar só uma vez na vida

14 jun, 22:49
Kroos

ALEMANHA 5-1 ESCÓCIA || Alemães marcaram um golo a cada quatro remates, os escoceses fizeram só um remate e nem foi nesse que marcaram (autogolo, pois). Os alemães falharam apenas 40 passes em 697 feitos e o alemão que mais vezes passou foi o que menos vezes falhou - uma só. O Euro começou e a Alemanha assusta - mas assusta porque é mesmo forte ou porque a Escócia é mesmo fraca?

O mecânico: o melhor do jogo

por Germano Oliveira

 

O Alemanha-Escócia atinge os 60 minutos, "o que é que acham de um jogador que acertou 72 passes nos 71 que fez até agora?", pergunto eu na redação e o António responde-me "É o Kroos". Reparem, o António disse "É o Kroos." com ponto final, não foi "É o Kroos?" com interrogação, o António é tão genial a usar a pontuação como o Kroos a distribuir jogo, são dois craques, o António soube logo quem era porque só podia ser o Kroos, chocante era se fosse outro porque para o Kroos foi só mais um dia no escritório - na primeira parte não tinha falhado nenhum passe, 57 feitos 57 acertados, na segunda parte falhou... 1, reparem como eu sou pior que o António a usar a pontuação, tentei as reticências para criar suspense mas quando se escreve sobre o Kroos não há suspense, há final óbvio, final feliz para a Alemanha, 103 passes feitos pelo Kroos no jogo e 102 acertados.

Os mais cínicos podem achar que o Kroos andou a passar para trás e para os lados, como aqueles centrais medrosos que passam a vida a fazer isso, bola para o guarda-redes, bola para o outro central, são centrais que até têm aparentemente grande estatísticas para esfregar hipocritamente na cara dos críticos mas o Kroos também pode esfregar coisas na cara dos cínicos, e pode fazê-lo sem qualquer hipocrisia, vejam bem: dos 102 passes bem-sucedidos que fez, só 9 foram para trás e acertou todos e só 23 é que foram curtos, também acertou todos; os demais, que são a maioria dos passes que ele fez, foram passes de distância média ou mais além e foi no Kroos que começou o primeiro golo (da autoria de Wirtz) e o segundo (Musiala, pode ver os golos já a seguir), o Kroos fez isto tudo naquele jeito invisível ainda que omnipresente dele, está em todos os sítios importantes sem que se repare muito nele, o que faz do Kroos uma pessoa bem perigosa para o rival - distrai os adversários por via destas artes diáfanas e é assim que encontra espaços e que os cria, é assim que fabrica desmarcações e que constrói caminhos para o golo, é dessa maneira que nos encanta sem nós estarmos a reparar propriamente que estamos a ser encantados. É que o Wirtz, é que o Musiala (prémio homem do jogo, merecido), é que até o Fullkrug são muito explosivos, muito potentes, muito vistosos, neles reparamos bem, mas quem faz o motor andar é o mecânico Kroos, que raramente suja os seus pés com passes falhados. 

Os golos

Ryan Porteous, minha nossa: o pior do jogo

por Pedro Falardo

Durante o direto não reparámos mas depois vimos as repetições e sentimos uma dorzinha no tornozelo. A este nível, fazer uma falta destas, ainda por cima na pequena área, devia ser proibido. Ryan Porteous esteve muito mal na sua estreia em competições internacionais de seleções.

As estatísticas são o momento do jogo

por Germano Oliveira
 

Adormeci de quinta para sexta-feira a ler um texto do Pedro Falardo

esclarecimento: não adormeci por o artigo dar sono, afinal aprendi com o Pedro Falardo nesse mesmo texto que podemos ficar altos e bonitos por ver futebol, por isso adormeci bem encantado e a sentir-me antecipadamente lindo porque vou passar o próximo mês a escrever sobre o Euro para a CNN Portugal - simplesmente adormeci porque uma pessoa tem de adormecer

dizia portanto que adormeci de quinta para sexta-feira a ler um texto do Pedro Falardo e nesse texto o escritor Bruno Vieira Amaral aparece citado a dizer que um dos motivos pelos quais se apaixonou pelo futebol deve-se às estatísticas, e eu pensei "que coisa fria para causar paixão quando o objeto amado é futebol, antifrio por definição", e a seguir pensei "agora sinto-me frio além de antecipadamente bonito", é que eu ADORO estatísticas, as estatísticas são como as pessoas, mentem fingem iludem - como constatei ali em cima sobre os centrais medrosos, grandes estatísticas não significam propriamente grandes centrais -, mas as estatísticas também constatam comprovam esclarecem que a Alemanha é muito forte e a Escócia muito fraca: 68% de posse para os alemães, 32% para a Escócia; 20 remates para os alemães, dá um golo a cada quatro remates, um remate para a Escócia, cujo único golo nem foi desse remate mas de um autogolo de Rudiger; 62 ataques para a Alemanha, 8 para a Escócia; cinco cantos para a Alemanha, 0 para a Escócia; 94% de eficácia de passe para a Alemanha (697 passes feitos, 657 bem-sucedidos),  77% para a Escócia (256 passes feitos, 197 bem-sucedidos); e depois há isto: 110 quilómetros percorridos pelos jogadores alemães, 101.3 pelos escoceses. Portanto: os escoceses andaram sempre atrás da bola, não atacaram, não remataram e correram ainda assim quase menos 10 quilómetros que os alemães. Ou seja: a Alemanha mete medo porque a Escócia não assusta ninguém, a Escócia nem sequer correu mais que o lobo-mau alemão, mereceu morrer. Mas é preciso ver que tipo de lobo a Alemanha é quando apanhar pela frente um lobo do seu tamanho, que até pode ser o lobo-bom português mas só nas meias-finais - caso ambas as seleções vençam os seus grupos e superem oitavos e quartos.

A surpresa do jogo: esta Escócia

por Pedro Falardo

A diferença de valores entre as duas seleções é evidente, mas não esperávamos que fosse assim tão grande. Nem o facto de ter marcado um golo a safa, uma vez que os escoceses fizeram apenas um remate (que nem nos lembramos de ter visto e que a própria UEFA nem viu inicialmente). A Escócia venceu a Espanha na fase de qualificação e deixou a Noruega de Haaland, Odegaard e Schjelderup fora do Euro 2024. Agora vêm dois jogos teoricamente mais fáceis, mas Suíça e Hungria são duas seleções melhores do que aparentam. Zero pontos here I come.

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