Depressão. “Pela primeira vez em 50 anos as pessoas têm um tratamento alternativo aos antidepressivos tradicionais”

17 set 2023, 18:00
David Nutt (PA Images via Getty Images)

ENTREVISTA || David Nutt é um dos nomes mais sonantes do mundo quando o assunto a drogas psicadélicas diz respeito. Em entrevista à CNN Portugal, este especialista fala do uso de cetamina no tratamento de depressões e adições, uma alternativa que tem conquistado espaço na comunidade científica, mas ainda não na comunidade médica, que se mantém cética. O psiquiatra fala ainda dos avanços e das promessas desta terapia que garante ser mais barata do que a convencional e mais eficaz até a curto prazo. “Vai ser a maior inovação nos próximos 20 a 30 anos”, assegura

É um dos nomes mais sonantes do mundo quando o assunto a drogas psicadélicas diz respeito. Há décadas que David Nutt, psiquiatra e professor de Neuropsicofarmacologia no Imperial College de Londres, onde dirige a divisão de Ciências do Cérebro, se dedica a estudar o impacto destes compostos no cérebro, em particular no tratamento de patologias mentais, como a depressão e a adição por álcool e drogas. 

Em Portugal, o uso de cetamina - substância já comummente aplicada como anestésico - chegou ao Serviço Nacional de Saúde pelo Hospital Beatriz Ângelo (o único público a fazê-lo na Europa) e já há clínicas privadas a apostar nela em terapias para o tratamento de casos crónicos e graves de depressão, como acontece na The Clinic of Change, que abriu recentemente em Lisboa e que é parceira da Awakn Life Sciences, onde Nutt assume o cargo de diretor de investigação.

O médico, professor e cientista de 72 anos conversou com a CNN Portugal por videochamada dias antes de se juntar à conferência científica ‘Ketamine Psychotherapy – Clinical Evidence and Brain Mechanisms’ (psicoterapia com cetamina - Evidências clínicas e mecanismos cerebrais, em tradução livre), que se realiza no próximo dia 20 de setembro, em Lisboa, pela mão da The Clinic of Change, em parceria com o ISBE – Instituto de Saúde Baseado em Evidência e o ISPA – Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida.

 

A ciência começou a estudar os efeitos das drogas psicadélicas na saúde mental há cinco décadas. Cinquenta anos depois, a sociedade está pronta para considerar os psicadélicos como aliados da saúde mental?

Espero que sim, porque nesses 50 anos tivemos muito poucos progressos noutros tipos de tratamento. É escandaloso que nos tenha sido negado o acesso a estes tratamentos durante 50 anos por causa das preocupações com o uso recreativo, não médico, que na verdade não é assim tão prejudicial. Por isso, este é um dos piores exemplos de proibição de drogas que conduz a consequências desnecessárias e perversas que alguma vez existiu.

Atualmente, qual é o principal desafio na utilização de substâncias psicadélicas como tratamento? É o ceticismo no seio da própria comunidade científica ou o estigma e o medo entre o público em geral?

É mais estigma e medo entre a classe médica. O público em geral tem a mente aberta. O público em geral sabe que a ciência é boa e forte, e o público em geral sabe que precisamos de inovação. Mas a classe médica está muitas vezes insegura em relação a estes medicamentos porque passou 50 anos a dizer às pessoas que são perigosos e agora, de repente, tem de lhes dizer que não, que se enganaram. Por isso, estão a ter de mudar de opinião. E, por isso, temos de convencer os médicos de que estes medicamentos não só são seguros e eficazes, como também conhecemos o seu mecanismo de ação, o que é muito interessante, porque funcionam de uma forma completamente diferente dos medicamentos tradicionais. E isso significa que dão às pessoas uma oportunidade de responder quando não conseguem responder a outros medicamentos. 

Mas, afinal, o que é que os psicadélicos oferecem no tratamento das doenças mentais que os outros medicamentos não oferecem? 

Oferecem uma abordagem alternativa em termos de mecanismos cerebrais. Muitas vezes funcionam onde outros tratamentos falharam, e funcionam mais rapidamente. E isso é notável. Funcionam muitas vezes numa só dose e não ao longo de semanas e semanas, como acontece com os tratamentos tradicionais para a depressão ou para as dependências. 

É uma terapia mais eficaz a médio e longo prazo ou mais a curto prazo?

Funcionam mais rapidamente a curto prazo e têm perspetivas semelhantes a longo prazo. Mas, na verdade, são melhores do que a maioria dos tratamentos atuais, porque a maioria dos tratamentos atuais falharam nas pessoas em que os estamos a usar. Por isso, nos estudos em que foram confrontados com os tratamentos atuais, parecem ter melhores resultados e ser mais rápidos.

De onde vem, então, o ceticismo da comunidade médica?

Porque é bastante revolucionário e porque não está a ser ensinado nas escolas de medicina. Quero dizer, para ser justo, só agora está a chegar às conferências onde os médicos vão para aprender. Por isso, nos últimos três ou quatro anos, tenho dado aulas sobre psicadélicos nas principais conferências europeias e, atualmente, a maioria das conferências tem pelo menos uma sessão sobre este tema. E há muito interesse. Mas, como sabe, o interesse das pessoas que vão a conferências não é o mesmo que o das pessoas que não vão a conferências. Por isso temos de educar os médicos que podem estar um pouco mais presos aos seus métodos, que se sentem confortáveis a fazer o que estão a fazer, porque, na verdade, quero dizer, na minha perspetiva, é um novo desenvolvimento muito empolgante, porque não é apenas o medicamento, é o medicamento mais a terapia. Por isso, dá aos médicos a oportunidade de se envolverem novamente com os seus doentes e de fazerem psicoterapia, o que anteriormente não acontecia. Trata-se de um desenvolvimento interessante. Talvez alguns médicos não queiram ter de se dar ao trabalho de reaprender. Mas, por outro lado, quando virem os resultados, penso que ficarão satisfeitos.

O professor David vem a Portugal para falar sobre a psicoterapia assistida por cetamina. Pode explicar-nos em que consiste?

A cetamina é uma das novas drogas psicadélicas de que estamos a falar. É uma droga que temos há muito tempo. Utilizámo-la como anestésico e para controlar a dor. Mas agora tem sido utilizada de uma forma diferente para tratar perturbações como a dependência e a depressão. E a forma como é utilizada consiste em produzir um estado cerebral alterado durante uma ou duas horas, que permite às pessoas escapar aos processos de pensamento, aos ciclos de pensamento, que estão na base dos seus problemas. Depois, as pessoas fazem psicoterapia. Uma sessão terapêutica tem como objetivo ajudá-los a compreender as perceções que adquiriram com a experiência da droga. Assim, podem começar a aperceber-se de que, durante a experiência, podem não estar deprimidos ou não estar viciados. E, depois, temos de desenvolver isso para que possam desenvolver novas formas de pensar, como ‘eu não sou um toxicodependente’, ‘eu não estou deprimido’. E uma das coisas interessantes sobre a cetamina é que ela produz um processo chamado neuroplasticidade. Torna o cérebro mais capaz de aprender depois de a tomarmos. 

Mas o tratamento com cetamina é adequado para todas as pessoas que lutam contra a depressão ou adição ou há casos em que não é recomendado?

Não há muitas razões para as pessoas não a tomarem. Há obviamente algumas doenças comórbidas que as pessoas podem ter. Se tiverem muitos problemas cardíacos, pode aumentar a tensão arterial. Se, porventura, tiverem tido [crises] psicóticas, talvez não queiramos fazê-lo nessa altura. O tratamento parece funcionar em pessoas que falharam noutros tratamentos antidepressivos. E pode funcionar em pessoas que não falharam. Pode funcionar em ambos os tipos. Mas, normalmente, estamos a concentrar-nos em pessoas que precisam de algo que não conseguem obter.

David Nutt publicou mais de 400 artigos de investigação originais, oito relatórios governamentais sobre drogas e 27 livros, o mais recente editado este verão pela Yellow Kite: Psychedelics: The revolutionary drugs that could change your life – a guide from the expert (Psicadélicos: As drogas revolucionárias que podem mudar a sua vida - um guia do especialista, em tradução livre, mas ainda não editado em Portugal). (PA Images via Getty Images)

Há pouco disse que as pessoas têm uma mente mais aberta, mas é fácil convencer alguém com um problema mental de que a solução pode estar numa droga?

Nem sempre, há muitas pessoas a quem foi dito que a cetamina é uma droga perigosa e que é uma droga que causa dependência. E há muitas pessoas que têm dito aos seus filhos que a cetamina é algo que não devem tomar. Portanto, existe um grande estigma contra a cetamina. E temos de ultrapassar isso e explicar que, no contexto médico, é seguro e eficaz. 

A cetamina e outros psicadélicos podem ser uma forma de abordar patologias mentais para além da depressão. Li que está a estudar a sua utilização em casos de dependência de opiáceos. O que descobriu até agora?

Descobrimos que, no passado, havia pequenos estudos. Ainda não começámos o nosso estudo, mas é isso que vamos fazer. Mas temos dados muito bons sobre a dependência do álcool. E isso é bastante notável, pois apenas três tratamentos com algumas semanas de intervalo podem produzir melhorias duradouras, podem reduzir o comportamento de beber por seis meses ou mais.

Ainda assim, e continuando no exemplo dos opioides, como se explica a uma pessoa que se vai tratar uma adição a drogas com outra droga?

Esta é uma questão muito importante, e tem tudo a ver com o motivo para o uso da droga. Por exemplo, muitas pessoas que são viciadas em drogas estão a usá-las para lidar com problemas como traumas ou depressão. Se usarmos a cetamina para nos livrarmos desse trauma ou dessa depressão, as pessoas não precisam voltar a tomar drogas. Esse é o primeiro aspeto. A segunda coisa é que a cetamina só é usada, no caso da terapia medicamentosa, três ou quatro vezes ao longo de, digamos, um mês. Por isso, não se fica dependente dela, porque não está a ser usada com a regularidade com que são usadas as drogas de dependência. Trata-se, portanto, de um modelo bastante diferente. A intenção é melhorar. A cetamina vai quebrar os circuitos da dependência. A terapia permite que as pessoas reconstruam a sua atitude perante a vida e perante as drogas. E depois pára-se com a cetamina. 

Em Portugal, a cetamina tem vindo a ganhar destaque no combate a casos graves e crónicos de depressão. Como é que este medicamento pode ser uma potencial solução para esta doença, que tem um impacto tão significativo a nível mundial?

É a primeira inovação real no tratamento da depressão em 50 anos. O seu funcionamento é diferente do dos antidepressivos. Funciona onde os antidepressivos não funcionaram e atua em diferentes partes do cérebro. Por isso, tem muitas coisas diferentes a seu favor. E é por isso que é emocionante, porque pela primeira vez em 50 anos, as pessoas com depressão têm um tratamento alternativo aos antidepressivos tradicionais.

E porque é que a depressão continua a ser uma doença tão desafiante?

Porque provavelmente se trata de mais do que uma perturbação, porque está a tornar-se mais comum devido ao stress e às incertezas da vida. Se formos jovens e olharmos para o mundo e virmos o aquecimento global e pensarmos como as coisas pioraram nos últimos 10 anos, ficamos aterrorizados se as coisas continuarem a piorar tanto como agora. Há muita incerteza no mundo, e isso leva a uma depressão. E penso que as pessoas também estão mais abertas a falar sobre o assunto. Atualmente, as pessoas estão dispostas a tentar procurar tratamento, quando antes talvez sofressem e acabassem por se suicidar. 

Enquanto médico, professor e cientista, as doenças mentais, como a depressão, ansiedade e até adição, estão a receber a devida atenção?

Oh, claro que não. Claro que não. Nós sabemos.

E porquê?

Porque a maior parte das pessoas ainda não se apercebeu que as suas doenças são uma realidade. Deixem-me dar-vos um exemplo no Reino Unido. Temos instituições de caridade que apoiam as doenças cardíacas, o cancro e a saúde mental. Para além de outras coisas. As instituições de caridade para as doenças cardíacas recebem mil vezes mais dinheiro do público. Mil vezes mais dinheiro do que as instituições de caridade para a saúde mental, porque muitas pessoas ainda pensam que os problemas de saúde mental são uma falha de motivação. São um sinal de fraqueza, não uma doença. 

Este ceticismo, até dos profissionais de saúde, torna este tipo de tratamentos menos atrativo para a investigação e indústria farmacêutica?

Em parte, isso é verdade. O estigma é que funciona contra a inovação ou contra o investimento das empresas farmacêuticas. Mas, para ser sincero, o maior problema do investimento farmacêutico é o facto de ser demasiado difícil. Nos últimos 50 anos, as empresas farmacêuticas têm lutado para conseguir inovar no domínio da depressão e de outras perturbações da mente e é por isso que a cetamina é tão importante, porque não vem da indústria farmacêutica, foi criada por médicos à procura de novos tratamentos, que descobriram que a cetamina pode funcionar e que a desenvolveram eles próprios. Portanto, esta é uma iniciativa liderada por médicos e por terapeutas. Não se trata de uma iniciativa das grandes farmacêuticas. 

E a nível de custos? Estamos a falar de quanto, se é que me consegue dizer…

Bem, é bastante barato em comparação com o custo da depressão. Quero dizer, um quilate. Desculpe, uma cetamina. Uma terapia com cetamina administrada nas nossas clínicas no Reino Unido custa aproximadamente o mesmo, um pouco menos do que uma semana no hospital com depressão. Por isso, pode ver-se que é muito rentável em comparação com a necessidade de internar alguém. E também é rentável se o compararmos com os antidepressivos, porque funciona. Se as pessoas tomam antidepressivos e não funcionam, então temos todos os custos de oportunidade perdidos, as oportunidades de emprego, etc. E o custo da incapacidade. Portanto, tirar as pessoas da depressão é muito, muito rentável. 

O que podemos esperar dos tratamentos com cetamina no futuro da saúde mental?

Isto é uma revolução. Penso que este vai ser o futuro do tratamento da saúde mental. Vai ser a maior inovação nos próximos 20 a 30 anos. E vai transformar o tratamento e vai dar muita esperança a muitas pessoas que atualmente não têm esperança.

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