"Um terço dos doentes tiveram uma resposta suficiente" ao tratamento com psicadélicos

29 jan, 08:02

Albino Oliveira-Maia, da Unidade de Neuropsiquiatria da Fundação Champalimaud, explica como pode a psilocibina vir a ser uma hipótese para milhares de doentes para quem não existe uma solução realmente eficaz. "Na medicina há poucas revoluções, as coisas fazem-se devagarinho, com muito cuidado e muito trabalho"

A Fundação Champalimaud  foi escolhida para integrar um ensaio clínico internacional que investiga o potencial terapêutico da psilocibina, uma substância psicadélica presente nos cogumelos, para tratar doentes com depressão resistente. Financiado pela Compass Pathways, empresa focada na investigação científica na área da saúde mental, o estudo internacional contou com 233 pacientes, espalhados por vários pontos do Globo. Em Portugal, dois doentes foram acompanhados na Unidade de Neuropsiquiatria da Fundação Champalimaud.  O diretor e médico Albino Oliveira-Maia explica como decorreu todo o processo e qual o impacto que esta abordagem pode ter na depressão.

Porque é que a Fundação Champalimaud  se envolveu num estudo sobre uso da psilocibina no tratamento de doentes com depressão resistente?
Este estudo foi desenvolvido por uma empresa britânica, a Compass Pathways. E  o nosso envolvimento derivou dos nossos interesses científicos. Mais particularmente de dois grupos dentro da instituição: um, muito interessado sobre os efeitos neurobiológicos deste tipo de substâncias, liderado pelo Dr. Zack Mainen; e o meu grupo, com interesse nos efeitos clínicos, muito derivado do facto de tratarmos, na Fundação, doentes com cancro e de os primeiros estudos com estas substâncias terem sido feitos em doentes oncológicos. Estes são doentes cuja situação cria muitos desafios em relação ao tratamento da depressão. Isto levou-nos a pensar em trabalhar nesta área, desenvolver trabalho em conjunto e, entretanto, conhecemos as pessoas da Compass que nos entusiasmaram para a participação e o estudo aconteceu.

Qual a diferença entra psilocibina e os ansióliticos ou anti-depressivos tradicionais?
É um fármaco que tem uma particularidade, que não é exclusiva, mas que não é típica nos medicamentos utilizados para tratar a depressão. Essa particularidade é que provoca efeitos agudos do estado mental

A que procedimento foram submetidos os participantes no estudo?
Os candidatos foram observados por um psiquiatra e outros médicos para avaliar a sua elegibilidade. Depois da avaliação, existiu uma segunda fase, em que o doente deixou de tomar os medicamentos antidepressivos que lhe estavam prescritos, mas que não eram eficazes, durante um período de algumas semanas. No final, chegado ao dia do estudo, a pessoa era admitida no nosso internamento e consumia as cápsulas com psilocibina, onde estava uma de três doses do medicamento experimental: uma dose muito baixa, que foi utilizada como sendo equivalente a uma dose placebo; uma dose intermédia; que no fundo era uma dose de teste e que não se sabia se poderia ou não ser eficaz; e uma dose máxima, que era o "target" do estudo e que se antecipava que seria a dose eficaz. Depois de ser consumida a cápsula, a pessoa ficava connosco sob supervisão de dois psicólogos e depois tinha alta. Passava aqui o dia, mas não dormia na instituição. Posteriormente, fazia uma série de avaliações nos dias, semanas e meses seguintes para avaliar se a depressão tinha melhorado.

Que alterações ocorrem no cérebro com a toma de drogas psicadélicas?
Não sabemos. A resposta honesta é esta: não sabemos. Acho que não vamos ter uma resposta tão cedo. Provavelmente, vamos ter uma resposta sobre a utilidade clínica do uso destas substâncias e só mais tarde poderemos ter umas luzes mais claras sobre os mecanismos através dos quais funcionam.

O que distinguiu este estudo dos anteriores?
Aquilo que foi muito original neste estudo, e muito diferente da forma como tratamos a depressão, com todos os outros meios que temos à nossa disposição, foi o facto de o medicamento ser aplicado uma única vez.

Quantos doentes participaram no ensaio clínico?
O estudo a nível internacional teve mais de 200 doentes [233, de acordo com a Compass Pathways]. Em Portugal, no Centro Champalimaud, foram estudados para participação vários doentes e acabaram por ser dados como elegíveis apenas dois.

Como se definia se o doente estava a reagir ao tratamento?
Na psiquiatria, a única forma de medirmos se as pessoas estão bem ou estão mal é perguntar-lhes. Portanto, o método de avaliação utilizado foram entrevistas estruturadas, que nos permitem ter uma forma relativamente padronizada de avaliar a gravidade dos sintomas. Como esta substância tem efeitos subjetivos, que são discerníveis não só pelo próprio, mas também pela observação do comportamento dos doente, houve a preocupação de que a avaliação por entrevista não fosse feita por ninguém da equipa que tivesse estado em contacto com o candidato, para tentar manter o estudo o mais 'cego' possível'. Essa avaliação foi feita telefonicamente por pessoas que não estavam aqui nem conheciam o doente. Havia uma chamada telefónica, a entrevista era feita e fazia-se uma avaliação do grau de sintomas que a pessoa tinha em cada momento.

Qual era a maior preocupação inerente a um ensaio clínico deste tipo?
A preocupação maior era poder existir um efeito agudo do consumo da substância. Os ditos efeitos associados às ‘bad trips’ ou a possibilidade de as pessoas poderem ter estes sintomas, que esperaríamos que fossem agudos, a prolongarem-se no tempo.

Nenhum desses cenários aconteceu, nenhum foi observado no estudo. Não foram observadas grandes alterações do ponto de vista de agitação ou psicose, de coisas que nos preocupavam que fossem efeitos tóxicos da administração da substância. Agora, surgiram coisas que nós esperávamos que surgissem em pessoas que têm depressão e que têm uma depressão particularmente difícil de tratar, como a possibilidade de terem ideias de fazer mal a si próprias ou atentarem contra a própria vida.

Quando serão publicados os resultados do estudo?
Os resultados já começaram a ser divulgados pela Compass e o resultado mais importante, que era avaliar a diferença na eficácia antidepressiva das diferentes doses do medicamento, revelou que havia de facto uma disparidade importante entre a dose mais alta e as duas outras doses. Isto sugere, para o futuro, em estudos adicionais que venham a ser feitos, que a dose que interessará investigar é a dose mais alta.

Os primeiros resultados do ensaio sustentam a eficácia da psilocibina no tratamento de doentes com depressão resistente?
Aproximadamente um terço dos doentes tiveram uma resposta suficiente e duradoura com uma única administração do fármaco. Um terço não é uma perspetiva extraordinariamente animadora, quando estamos a propor um tratamento a um doente, portanto suspeito que, para o futuro, poderão vir a ser ensaiados métodos de administração da substância que não impliquem apenas uma administração, mas que possam, eventualmente, permitir a aplicação de múltiplas doses para sustentar o efeito ao longo do tempo.

Podem as drogas psicadélicas ser aprovadas pela Food and Drug Administration (FDA) e pela Agência Europeia dos Medicamentos (EMA) para uso hospitalar nos próximos anos?
Temos que estar preparados para que os resultados possam ser negativos e que possamos chegar à conclusão ou que o tratamento não é suficientemente eficaz ou que o tratamento não é seguro. Se não estivermos, não vale a pena fazer investigação. Portanto, é possível que no prazo de dois ou três anos haja uma aprovação regulamentar pela FDA e/ou pela EMA.? É, mas é provável? Não me parece. Não sabemos, não sabemos sequer se a psilocibina alguma vez vai chegar à prática clínica. Se olharmos só para as probabilidades, o mais provável é nunca chegar, porque a maior parte dos fármacos que são testados não chegam.

Existe o risco da psilocibina vir a ser aprovada para uso clínico e no futuro estarmos a braços com uma "crise psicadélica" à semelhança do que aconteceu com os fármacos opióides nos Estados Unidos?
Esse risco existe com qualquer tratamento. Existe com qualquer tratamento a possibilidade de os medicamentos serem introduzidos com base em investigação clínica de qualidade e depois chegar-se à conclusão que há um resultado indesejado e que nos leva a ponderar se aquele tratamento é de facto uma boa ideia ou não. Esse risco existe sempre, para este ou qualquer outro tratamento.

A probabilidade de acontecer algo similar ao que aconteceu com os fármacos opióides parece-me baixa, porque já sabíamos que os opióides são fármacos com um conteúdo aditivo importante. Também há outra coisa importante a ter em conta, os opióides continuam a ser utilizados e têm um papel importantíssimo no tratamento de doentes. Esta instituição, que trata doentes com doença oncológica avançada, grave e em que muitas vezes a dor é um problema, é naturalmente um dos locais em que os doentes beneficiam das vantagens dos opióides.

Podem as drogas psicadélicas revelar-se uma revolução no tratamento de transtornos depressivos graves?
Na medicina há poucas revoluções. Na medicina, tal como na maior parte das áreas de trabalho humano, as coisas fazem-se devagarinho, com muito cuidado e muito trabalho. Acho que há aqui um papel útil para a utilização destas substâncias em doentes para os quais não tínhamos outras alternativas. Mas não penso que isto vá eliminar a utilização dos instrumentos terapêuticos que, neste momento, temos à nossa disposição.

Há uma percentagem enorme de pessoas que sofrem de depressão ao longo da sua vida, dessas pessoas aproximadamente um terço não responde aos tratamentos que temos disponíveis, um terço de muitas pessoas continua a ser muitas pessoas e nós temos de encontrar alternativas para essas pessoas. Não sei se é um complemento, é uma alternativa para quem não tem mais nenhuma.

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