Combater a depressão com viagens psicadélicas? Há um tratamento inovador no SNS

29 jan, 08:00

O Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, é o primeiro na Europa a usar Ketamina para tratar doentes depressivos com resistência a medicamentos. O uso destas drogas para lidar com a doença está a ser estudado em todo o mundo. Um dos ensaios, que recorre a "cogumelos mágicos", está a ser feito na Fundação Champalimaud

“Sentia-me a flutuar, deixava-me levar, era embalada, sentia-me leve. Permitia-me sentir coisas boas”. A descrição é de uma viagem psicadélica feita por uma das doentes que está a ter tratamento para a depressão no Hospital de Loures através de um tratamento inovador: o recurso a substâncias com propriedades psicadélicas.

“Na Europa, não conheço mais nenhum hospital público a fazer este tratamento na modalidade de terapia assistida por psicadélicos”, revela à CNN Portugal o psiquiatra João Ribeiro, que implementou esta terapia naquela unidade de saúde pública. Começou a fazê-lo no início de 2021 e já o usou em cinco doentes, durante 60 sessões. Ou seja, ao todo, neste serviço de psiquiatria do Hospital de Loures do SNS, foram já realizados nos últimos meses, 60 “viagens psicadélicas” em pacientes com depressões graves, resistentes aos ansiolíticos e antidepressivos tradicionais. Este ano, o médico quer tratar mais 12 pacientes.

Em alguns, garante o médico, os resultados têm-se demonstrado “altamente promissores, com casos de doentes com depressão resistente a deixar de ter de recorrer a ansiolíticos ou a antidepressivos”.

“Os resultados têm sido fascinantes, mas não são milagrosos. Recebemos doentes muito graves e temos tido melhorias incríveis, experiências muito profundas”, conta o médico.

O recurso a psicadélicos para tratar pessoas depressivas tem vindo a ser estudado em todo o mundo. Isto porque têm surgido algumas evidências científicas sobre o potencial terapêutico das drogas psicadélicas, como a psilocibina, o LSD, a mescalina ou DMT - compostos conhecidos como psicadélicos clássicos -, no tratamento da depressão resistente aos fármacos tradicionais, os famosos ansiolíticos e antidepressivos. 

A aplicação médica destes psicadélicos clássicos ainda não foi no entanto aprovada para uso clínico pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA) nem pela Food and Drug Administration (FDA), os reguladores europeu e americano. Por isso, o tratamento inovador que está a ser realizado no Serviço Nacional de Saúde (SNS), pelo médico João Ribeiro, assenta em administrações de Ketamina, também conhecida como Cetamina ou Quetamina, um anestésico comum em quase todos os hospitais e que parece ter um efeito semelhantes aos outros medicamentos.

A Ketamina é uma das substâncias presentes em algumas das "anestesias gerais" administradas antes das cirurgias. Contudo, explica o psiquiatra, tem também a capacidade de induzir o paciente num estado de "viagem psicadélica", quando administrada em doses baixas.

Como foi um tratamento assente em "viagens psicadélicas" aprovado no SNS?

“A Ketamina é um composto com propriedades psicadélicas. Induz o mesmo tipo de experiências que os psicadélicos clássicos”, detalha o especialista, esclarecendo que, por não ser considerado um psicadélico clássico e já ter sido aprovado pelos reguladores, pode ser usado, mesmo que esta não seja a função primária do fármaco. Quando a substância é aplicada aos doentes, estes fazem na mesma “uma viagem psicadélica", garante: “É uma terapia assistida por psicadélicos”.

A Ketamina não é no entanto classificada como uma das drogas psicadélicas clássicas. As diferenças centram-se, sobretudo, na duração da experiência psíquica e na forma como as substâncias atuam no cérebro.

“Aquilo que temos observado é que a Ketamina permite toda a espécie de experiências psicadélicas mas com uma ação muito mais curta. O estado psicadélico induzido pela Ketamina dura sensivelmente uma hora, por oposição, por exemplo a psilocibina que pode durar entre quatro a seis horas”, explica.

A cada paciente são feitas 12 administrações: duas vezes por semana durante as primeiras quatro semanas e a partir daí uma administração semanal. O processo dura um total de oito semanas e é sempre acompanhado por sessões de psicoterapia, que se prolongam mesmo após a última toma.

O tratamento ocorre em ambiente hospitalar e é constituído pelas "trips" aliadas a sessões de psicoterapia, em que as viagens alucinogénias são interpretadas. É Adriana Santos, uma terapeuta ocupacional, que ajuda o médico nesta fase do tratamento. Por um lado, apoio na preparação dos doentes antes de receberem a substância, depois está presente nas sessões de psicoterapia. Antes do início do projeto, os dois tiveram formação específica num curso sobre “Terapia Assistida por Ketamina”, pelo Polaris Insight Center, nos Estados Unidos.

“O que a evidência mostra de forma relativamente clara é que administrações repetidas prolongam o efeito antidepressivo da Ketamina”, diz João Ribeiro.

Para este tratamento ser feito, foi preciso uma autorização especial a nível hospitalar feita pela Comissão de Farmácia e Terapêutica, que permitiu que este medicamento, regularmente destinado para um determinando fim (anestesia), seja utilizado noutra situação clínica (depressão), desde que existam evidências.

É o que se chama uma indicação "off-label", ou "fora da etiqueta". Ou seja, "o Infarmed e as autoridades farmacêuticas dão a cada substância uma série de indicações. Se esse fármaco for usado para uma indicação que não está nessa lista, então é uma indicação off-label", detalha João Ribeiro, sublinhando que nos hospitais há muitos fármacos usados dessa forma, sendo um “processo absolutamente normal na vida da medicina”.

"Tive experiências marcantes"

Pedro Teixeira, 51 anos e antigo diretor do Programa Nacional para a Promoção da Atividade Física da Direção-Geral da Saúde (DGS), enfrentou uma depressão desde os 25 anos. À CNN Portugal, garante que foi este tratamento com psicadélicos que lhe mudou a vida. Nunca tomou antidepressivos, mas “durante décadas”, conta, foi seguido em sessões de psicoterapia.

Descobriu o efeito dos psicadélicos no tratamento da sua doença, ao ler um livro de um jornalista e colunista do New York Times, Michael Pollan. Nesta obra, com o título “Como Mudar a Sua Mente”, o também professor da Faculdade de Berkeley fala das substâncias psicadélicas e da depressão. Pedro Teixeira quis experimentar.

“Tive experiências marcantes que corresponderam a uma capacidade de me ver melhor a mim próprio, de me aceitar melhor, de me conhecer melhor e isso levou a algumas alterações na minha vida que foram positivas, ao nível dos meus relacionamentos, ao nível da minha atividade profissional também”, relata Pedro. Com as viagens psicadélicas, conseguiu uma mudança: “Percebi melhor onde estavam as minhas limitações e onde as poderia ultrapassar para chegar mais perto daquilo que todos nós procuramos, que é uma vida plena, satisfatória e mais aberta a experiências”.

Desde então, o também professor na Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa (FMH) não parou de estudar os efeitos terapêuticos dos psicadélicos no combate a problemas como a depressão. Hoje, é diretor de investigação no The Synthesis Institute, uma organização dedicada à investigação de psicadélicos, e fundou o Safe Journey, um site de disseminação científica e literacia dirigido ao cidadão comum. Por outro lado, está a investigar os efeitos destas substâncias não só na depressão, mas em vários problemas de saúde, como a “ansiedade, a perturbação obsessiva-compulsiva, a dependência (não só a drogas, mas por exemplo a tabaco ou álcool), a anorexia nervosa, a gestão da dor e até as doenças do foro neurológico como Parkinson e Alzheimer”.

“Hoje há um consenso de que estas são as drogas com um perfil de segurança mais elevado”, explica, adiantando: “Não se conhecem casos de pessoas que fiquem dependentes do consumo de psicadélicos” por terem feito este tratamento, frisa, sublinhando que nos psicadélicos clássicos também não são conhecidos casos de overdoses.“Já houve casos de pessoas que consumiram doses de LSD muito superiores, por erro, e invariavelmente regressaram ao ponto de partida da sua viagem e estão em condições de continuar a sua vida sem que tenha havido qualquer problema”, testemunha.  

Explicando que "cada experiência psicadélica é única", Pedro Teixeira refere que se deve ter a “ajuda de um terapeuta ou psicólogo” para “dar sentido à própria viagem”. Na sua opinião, é uma “questão de tempo” até que algumas drogas psicadélicas, como a psilocibina e o MDMA (ecstasy), sejam aprovadas para tratamento hospitalar pela EMA e pela FDA.  O ex-responsável da DGS considera que este poderá representar “ganhos de saúde pública interessantes”, até porque os riscos são praticamente inexistentes.

Ensaio inédito na Fundação Champalimaud

Há vários estudos sobre o tema em todo o mundo. Um dos maiores em curso a nível internacional, promovido pela empresa britânica Compass Pathways, está também a ser testado em doentes portugueses com depressão resistente.  Mas, por ser com psicadélicos clássicos, ainda não aprovados pelas autoridades de saúde, o processo decorre no âmbito de um ensaio clínico.

O estudo recorre à substância presente nos chamados cogumelos alucinogénicos - a psilocibina - e foi realizado na Fundação Champalimaud, sendo dirigido pelo médico psiquiatra Albino Maia. “Em Portugal, no Centro Champalimaud, foram estudados para participação vários doentes e acabaram por ser dados como elegíveis apenas dois”, revela o diretor da Unidade de Neuropsiquiatria da Fundação Champalimaud. A cada um dos doentes, depois de pararem de tomar os antidepressivos, foi dado uma cápsula de psilocibina, substância extraída dos cogumelos. Durante as seis a oito horas que durou a viagem psicadélica, os doentes foram sempre acompanhados por médicos. Os resultados finais ainda estão por publicar mas os dados preliminares do estudo internacional, onde serão incluídos os dois portugueses, apontam para que em um terço dos pacientes, a viagem teve sucesso no combate à depressão.

Também o Imperial Collegue e a Johns Hopkins estão a fazer estudos sobre o uso de drogas psicadélicas no tratamento de transtornos depressivos graves. Ambas as conceituadas universidades já criaram centros de investigação exclusivamente dedicados a esta área.

Tratamento com Ketamina pode estender-se pelo SNS no futuro

O médico João Ribeiro, que usa os anestésicos para promover viagens aos doentes, diz ser importante que outros hospitais do Serviço Nacional de Saúde passem a disponibilizar este tipo de tratamento. Para isso, defende que é preciso formar mais médicos para o efeito. É que segundo o psiquiatra, “a Ketamina tem um perfil de segurança excelente", em ambiente médico controlado. Os "efeitos secundários são ligeiros e transitórios", diz.

Admitindo a ocorrência de "tonturas, boca seca ou visão turva" durante a administração da substância, o médico garante que não há " evidência de efeitos secundários a longo prazo nem de risco grave".

Segundo a Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, a depressão afeta ao longo da vida cerca de 20% da população portuguesa, sendo considerada a principal causa de incapacidade e a segunda de perda de anos de vida saudáveis.

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