Uns foram apontados como sucessores de Cristiano Ronaldo e acabaram longe da carreira que lhes prometiam. Outros ainda são miúdos, fintam adversários mais velhos e alimentam a esperança de que o Sporting volte a formar um jogador como ele. Entre o talento perdido de Fábio Paim e as promessas de José Garrafa e Yanick Filipe, há várias histórias de quem podia ter sido Ronaldo. E de quem ainda pode ser
Cristiano Ronaldo precisou de quatro palavras para responder a uma história com 20 anos.
Era dia 20 de novembro de 2023 quando lhe apareceu no Instagram um vídeo de Fábio Paim, o antigo companheiro das camadas jovens do Sporting que, em tempos, chegara a ser considerado mais talentoso do que ele. Paim fazia contas a uma carreira que nunca teve: se tivesse tido metade da cabeça de Ronaldo, talvez a disputa pelas Bolas de Ouro não tivesse sido apenas entre o português e Lionel Messi. Uma das cinco que Cristiano conquistara, admitia, podia ter acabado na sua casa. Ronaldo viu o vídeo e escreveu:
“Quem é este gajo?”
Tinham passado 20 anos desde que Cristiano saíra de Alvalade para Manchester, onde começou a construir uma carreira que esta quinta-feira, aos 41 anos, anunciou estar prestes a encerrar ao serviço da Seleção Nacional. Pelo caminho ficaram, até agora, 234 internacionalizações, 146 golos, um Campeonato da Europa e duas Ligas das Nações. E uma quantidade difícil de contabilizar de rapazes a quem, numa idade em que ainda se anda de mochila às costas, alguém prometeu que podiam ser o próximo Ronaldo.
Houve um tempo em que o próprio Cristiano também era sobretudo um rapaz que gostava de fintar. Jogava nas alas, levava a bola para cima dos adversários, acumulava mudanças de direção, bicicletas e outros movimentos que nem sempre terminavam num passe ou num remate, mas que lhe davam uma relação particular com o jogo.
No Manchester United, Sir Alex Ferguson haveria de lhe exigir maior eficácia. Aos poucos, o extremo que procurava o duelo individual foi aproximando-se da baliza, aprendendo a escolher os momentos e a transformar a velocidade em golos. O homem que se despede da Seleção já pouco se parece, futebolisticamente, com o adolescente que atravessou o relvado de Alvalade naquela noite de agosto de 2003 em que o Manchester United foi derrotado por 3-1 e decidiu levá-lo para Inglaterra.
O rapaz que fazia da bola o que queria
Fábio Paim foi provavelmente aquele em quem mais se acreditou. Nascido no Estoril em 1988, chegou ao Sporting aos sete anos, três depois de Cristiano Ronaldo, e depressa passou a ser tratado como um caso raro de talento. Antes de entrar na Academia, passara horas a jogar nas ruas de Alcoitão, onde lhe chamavam Romário, a lembrar o avançado brasileiro que encantara o Barcelona.
O nome era de um goleador, mas Paim cresceu a admirar sobretudo os futebolistas que faziam da bola um brinquedo, aqueles que pareciam encontrar espaço onde os outros viam pernas.
Em 2003, quando tinha 15 anos, o Record foi conhecê-lo. Luís Gonçalves, um dos treinadores da formação leonina, resumiu aquilo que via nos treinos com uma frase que dispensava grandes explicações: “Faz da bola o que quer”. O miúdo jogava nas duas alas, tinha velocidade, agilidade e um drible em progressão que o tornava particularmente difícil de travar. A bola acompanhava-lhe a passada, mesmo quando acelerava, e Paim gostava de provocar o defesa, esperando pela reação antes de decidir para onde fugir. Não precisava necessariamente de muito espaço para começar a finta. O espaço aparecia depois.
Os ídolos eram Ricardo Quaresma e o brasileiro Denilson. “Gosto das coisas que ele faz com a bola”, dizia sobre este último, numa época em que ainda havia lugar, no futebol de mais alto nível, para extremos que se demoravam no um contra um, repetindo movimentos até encontrarem uma maneira de passar. Havia também uma deficiência que o próprio Paim reconhecia com alguma desarmante franqueza: “Sou um jogador com muita técnica, rápido... mas que não defende muito bem. Tenho que trabalhar mais”.
Aos 15 anos, estava no sétimo ano de escolaridade e queria recuperar o atraso fazendo dois anos letivos num só. Pedro Barbosa e Rui Jorge aconselhavam-no a trabalhar e a não esquecer a escola. Quaresma, de quem guardava boas recordações, tratava os miúdos como iguais. Paim ouvia tudo aquilo, mas quando lhe perguntaram se imaginava uma profissão que não fosse o futebol, respondeu simplesmente que não.
Durante anos circulou uma frase atribuída a Cristiano Ronaldo, supostamente dita quando chegou ao Manchester United: “Se acham que eu sou bom, esperem até ver o Fábio Paim”.
A história foi repetida tantas vezes que ganhou vida própria, embora não exista um registo público suficientemente sólido que permita confirmar que Ronaldo a pronunciou. Paim, esse, nunca teve grandes dúvidas sobre aquilo que podia ter sido. Em outubro de 2023, numa entrevista ao jornal britânico The Sun, descreveu-se como um pequeno Ronaldinho e garantiu que, tecnicamente, era melhor do que Cristiano. “Acredito mesmo, de forma honesta, que até hoje não houve ninguém como eu, com a mesma qualidade que tinha.”
Também contou outras coisas. Quando eram miúdos no Sporting, os dois iam à noite ao McDonald's procurar hambúrgueres que tinham sobrado. Mais tarde, quando começaram a chegar os contratos e o dinheiro, os percursos separaram-se. Ronaldo ficou conhecido pela disciplina quase obsessiva com que cuidou do corpo, da alimentação e do descanso. Paim começou a acreditar que o talento chegava. “A cabeça estava nas mulheres e nas festas”, reconheceu, muitos anos depois de ter perdido a possibilidade de descobrir até onde poderia ir.
Aos 16 anos, segundo contou ao Record, já recebia mais do que alguns futebolistas da equipa principal do Sporting. Comprou carros, frequentou a noite e conheceu cedo uma vida para a qual o futebol ainda não lhe tinha dado preparação. Jorge Mendes representou-o, clubes estrangeiros acompanharam-no e, em agosto de 2008, o Chelsea de Luiz Felipe Scolari foi buscá-lo por empréstimo. Tinha 20 anos, nunca jogara oficialmente pela equipa principal do Sporting e estava a caminho de um dos clubes mais ricos de Inglaterra.
Não chegou a estrear-se na Premier League. Em Londres jogou nas reservas, e o regresso a Portugal acrescentou mais um capítulo a uma carreira de sucessivos empréstimos que já o levara ao Olivais e Moscavide, ao Trofense e ao Paços de Ferreira. Seguiram-se o Rio Ave, o Real Massamá e uma peregrinação por clubes e países que incluiu Angola, Brasil, Luxemburgo e Lituânia. O futebol que lhe saía dos pés aos 15 anos foi perdendo importância à medida que os clubes se sucediam. Em 2017, chegou a participar num programa televisivo de encontros, Love on Top, de onde saiu ao fim de uma semana.
Em 2019, foi detido num processo relacionado com tráfico de droga e passou cerca de um ano na prisão de Caxias. Da cadeia, segundo contou ao The Sun, conseguia ver os treinos da Seleção Nacional durante a preparação para o Euro 2020. Do outro lado estava o campo onde jogavam alguns dos melhores futebolistas portugueses, entre eles Cristiano Ronaldo. Paim disse que nunca olhou para aqueles treinos pensando que devia estar lá. Falou antes da mãe, dos filhos, do dinheiro que desapareceu e das pessoas que magoou. “Agora sou mais feliz com menos”, afirmou.
Quando Ronaldo lhe respondeu no Instagram, Paim não ficou particularmente ofendido. Gravou outro vídeo e agradeceu-lhe a atenção, brincando com o facto de nunca ter visto Cristiano comentar uma publicação daquela maneira. Queria voltar a encontrá-lo, conversar sobre os tempos da formação e agradecer-lhe aquilo que tinham vivido.
A história dos dois, que começara em campos de treino onde ninguém sabia ainda o que iria acontecer, tinha acabado numa conversa pública sobre uma Bola de Ouro que nunca existiu.
Aos 15 anos, Bruno Gama já era campeão da Europa
Bruno Gama tinha apenas 15 anos quando, a 17 de maio de 2003, Portugal venceu a Espanha por 2-1 no Estádio do Fontelo, em Viseu, e se sagrou campeão europeu de sub-17.
Era o mais novo de um grupo onde jogavam Miguel Veloso, João Moutinho, Paulo Machado e Vieirinha. Na final, que Portugal venceu com dois golos de Márcio Sousa, Gama começou no banco e entrou durante a segunda parte. Enquanto Cristiano Ronaldo, então com 18 anos, se preparava para deixar o Sporting rumo ao Manchester United, o miúdo de Vila Verde, formado no Braga, já tinha um título europeu no currículo.
Era um extremo de características diferentes de Paim. A bola não parecia servir-lhe tanto para experimentar os limites do drible, embora tivesse técnica suficiente para desequilibrar nas alas. Gostava de aparecer em zonas interiores, tinha qualidade no cruzamento e rematava bem de fora da área. Num jogo da fase de grupos desse Europeu, contra a Hungria, começou por oferecer a Hélder Barbosa uma oportunidade de marcar, com um cruzamento que obrigou o guarda-redes adversário a uma boa defesa. Aos 50 minutos, depois de um alívio incompleto da defesa húngara, recebeu a bola à entrada da área e rematou para o fundo da baliza. Portugal ganhou por 2-0.
O futebol de Bruno Gama tinha uma qualidade que talvez o tornasse menos exuberante do que outros miúdos apontados como prodígios: a capacidade de dar sequência às jogadas. Procurava o cruzamento, combinava com os companheiros e aparecia em posição de finalizar. Não era necessário que a bola passasse muito tempo nos seus pés para que uma jogada tivesse consequência.
O FC Porto contratou-o, mas a carreira não tomou a direção que as primeiras expectativas sugeriam. Passou por empréstimos ao Braga e ao Vitória de Setúbal, jogou no Rio Ave e encontrou no estrangeiro uma continuidade que não conseguira no Dragão. Espanha, Ucrânia, Grécia e Chipre fizeram parte do percurso. Ao serviço do Dnipro disputou competições europeias, embora já tivesse deixado o clube quando os ucranianos chegaram à final da Liga Europa, em 2015.
Em 2017, numa entrevista ao zerozero, dizia que gostava de jogar a Liga dos Campeões, competição cuja fase principal nunca tinha disputado, mas recusava transformar a carreira numa história de ressentimento. Estava feliz e não sentia mágoa nenhuma.
Em 2025, depois de conquistar a Taça do Chipre pelo AEK Larnaca, mudou-se para o Kalamata, da Grécia, já perto dos 38 anos. Mais de duas décadas separavam aquela mudança do Europeu de Viseu, quando era o benjamim de uma seleção portuguesa que ganhou um título antes de muitos dos seus jogadores poderem sequer conduzir um automóvel.
Onze golos num jogo, duas pernas para fintar
Numa outra geração, João Pedro Neves Filipe começou por fazer uma coisa que poucos jogadores conseguem repetir, mesmo quando jogam contra crianças mais pequenas: marcar onze golos num único jogo. Tinha menos de dez anos e representava o Ginásio de Corroios, num torneio em que estavam observadores do Benfica. A equipa ganhou por 11-0 e todos os golos foram dele. Foi assim que começou a ligação à Luz, onde entraria em 2007.
Aos 15 anos, Jota, como passou a ser conhecido, foi fazer testes ao Manchester United, acompanhado pelo guarda-redes João Virgínia. Não ficou em Inglaterra, mas a comparação com Cristiano Ronaldo ganhou força. Era extremo, rápido, tecnicamente exuberante, capaz de atacar o adversário de frente e de procurar a baliza depois de uma finta. Tinha uma vantagem que confundia ainda mais quem o tentava marcar: jogava com os dois pés.
Quando recebia a bola junto à linha, o defesa não podia orientar o corpo para lhe fechar apenas um dos caminhos. Jota tanto conseguia procurar a linha de fundo como entrar para dentro, mudando o sentido da corrida sem perder grande velocidade. Gostava de improvisar, e a finta surgia muitas vezes acompanhada de uma leitura rápida do movimento dos companheiros.
No Benfica, as lesões interromperam-lhe o crescimento entre 2015 e o início de 2017, mas o futebol que foi mostrando depois explicava por que razão tantos observadores lhe reservavam um futuro invulgar.
Foi campeão europeu de sub-17 em 2016, no Azerbaijão, e voltou a conquistar o título continental dois anos depois, desta vez nos sub-19, na Finlândia. Contra a seleção anfitriã, num jogo decisivo da fase de grupos, marcou um golo, fez duas assistências e acumulou dribles que deixaram os defesas finlandeses sem saber se deviam aproximar-se ou esperar.
No mês seguinte, frente ao Bayern de Munique, na UEFA Youth League, voltou a mostrar esse repertório, numa exibição em que marcou duas vezes e deixou um lance de habilidade que circulou nas redes sociais.
A final do Europeu de sub-19, a 29 de julho de 2018, contra a Itália, em Seinäjoki, foi um dos jogos da sua vida. Perto do intervalo, Jota recebeu a bola à entrada da área e rematou para o primeiro golo português. Na segunda parte, dominou dentro da área, rematou e obrigou Alessandro Plizzari a uma defesa incompleta que permitiu a Francisco Trincão marcar na recarga. A Itália empatou em poucos minutos, com dois golos de Moise Kean, mas Jota voltou a aparecer no prolongamento. Aproveitou um ressalto à entrada da área e rematou para o 3-2. Os italianos empataram outra vez, antes de Pedro Correia fazer o 4-3 definitivo.
Jota terminou o Europeu com cinco golos, tantos como Trincão, e quatro assistências em cinco jogos, foi escolhido para a equipa ideal da UEFA e considerado a figura da final. Já integrara o onze ideal do Europeu de sub-17, em 2016. O melhor jogador dessa competição, porém, fora José Gomes, seu companheiro de equipa.
Também ele parecia destinado a uma entrada rápida no futebol maior. A passagem pela equipa principal do Benfica ficou aquém do esperado, seguindo-se um empréstimo ao Valladolid e, depois, o Celtic, onde encontrou o espaço que lhe faltava. Na Escócia ganhou títulos, tornou-se uma das figuras da equipa e conquistou uma popularidade que ultrapassou os relvados. Saiu para o Al-Ittihad, da Arábia Saudita, em 2023, passou pelo Rennes, de França, e regressou ao Celtic em janeiro de 2025.
A imprevisibilidade que tinha mostrado no Seixal não desaparecera, mas foi na Escócia que conseguiu fazer dela uma parte regular do seu futebol profissional.
Os miúdos que ainda fintam o futuro
No Sporting, a procura continua.
José Jeremias Caldas Garrafa nasceu em Angola a 6 de março de 2011, é internacional jovem por Portugal e joga nas duas alas, embora prefira utilizar o pé direito. Começou no polo do Sporting no Estádio Universitário de Lisboa, em 2020, e foi avançando pelos escalões com uma rapidez pouco habitual. Aos 12 anos já jogava com os sub-15; aos 13, disputava o campeonato nacional de sub-17. Na temporada 2024/25, com 14 anos, participou em 26 jogos desse escalão e marcou quatro golos. Assinou contrato de formação em junho de 2025. O irmão, Cleusio Garrafa, também representa o Sporting.
Em fevereiro deste ano, um drible num jogo da seleção portuguesa de sub-16 contra a Alemanha bastou para o tornar conhecido de muito mais gente.
O vídeo ultrapassou um milhão de visualizações nas redes sociais. A jogada mostrava aquilo que tem chamado a atenção de quem acompanha a sua formação: a facilidade com que transporta a bola em velocidade, a agilidade para mudar de direção e o atrevimento de procurar o confronto individual mesmo contra adversários mais velhos e fisicamente desenvolvidos.
Garrafa é daqueles extremos que obrigam o defesa a decidir cedo. Quando acelera com a bola controlada, o adversário tem de escolher entre aproximar-se, arriscando ser ultrapassado, ou recuar e conceder-lhe terreno. A sua principal arma é precisamente essa capacidade de alterar o ritmo da jogada sem precisar de uma longa preparação. Joga nas duas alas, tem o drible como recurso frequente e não parece intimidado pela diferença de idade que o separa dos jogadores que enfrenta.
O Sporting tem-no feito competir acima do seu escalão, e o resultado foi uma progressão que ganhou visibilidade internacional. Em abril, Garrafa foi eleito o melhor jogador do Torneio de Montaigu, em França, depois de Portugal chegar à final, perdida com o Brasil.
“Fico muito feliz pelo prémio de MVP, é o reconhecimento de um trabalho que venho construindo todos os dias com os meus companheiros e staff”, disse, numa declaração em que também lamentou a derrota e falou da necessidade de continuar a evoluir.
O outro nome é Yanick Chicambi da Costa Filipe, nascido em Angola a 19 de fevereiro de 2012. Tem 14 anos, joga preferencialmente na direita e chegou ao Sporting em 2022. É um extremo pequeno e veloz, com facilidade para aparecer em zonas de finalização e uma relação particularmente interessante com a bola parada.
Em setembro de 2024, aos 12 anos, foi uma das figuras da vitória do Sporting sobre o Marítimo, por 4-1, no Campeonato Nacional de Iniciados. Marcou duas vezes. No primeiro golo, aproveitou uma desatenção da defesa madeirense para abrir o marcador. Depois deu trabalho aos adversários durante o encontro e fechou a vitória com um livre direto, executado com precisão.
Aquele jogo mostrava duas características do seu futebol. A primeira era a velocidade, que lhe permitia atacar espaço e criar dificuldades constantes aos defesas. A segunda estava na qualidade do remate. Num jogador daquela idade, conseguir marcar de livre direto, com a bola parada e a distância a exigir uma execução cuidada, era um sinal de capacidade técnica diferente da que se observa nos dribles em corrida.
Na época 2024/25, ainda nos sub-15, marcou dez golos e fez 12 assistências em 34 jogos. Os números sugerem um extremo que participa frequentemente nas jogadas decisivas, quer apareça para finalizar, quer encontre um companheiro em melhor posição. Na temporada seguinte já competia entre os juvenis e, em março de 2026, assinou contrato de formação. Era internacional português de sub-15 e tinha somado três golos em treze jogos na segunda divisão desse escalão.
Garrafa e Yanick têm em comum a origem angolana, a formação no Sporting, a precocidade e a posição no terreno. Também têm uma particularidade que distingue os jogadores da geração de Ronaldo: antes sequer de chegarem ao futebol profissional, os seus melhores lances já circulam em telemóveis de pessoas que nunca os viram jogar durante noventa minutos. Uma finta pode dar-lhes milhares de seguidores. Mas, longe dos ecrãs e dos aplausos precoces, há ainda muitos relvados para correr, adversários para fintar e uma vida inteira de futebol por acontecer.
Há ainda Cristiano Ronaldo dos Santos Júnior, a quem quase toda a gente chama Cristianinho. Nasceu em junho de 2010, joga na formação do Al-Nassr e já representa Portugal nas seleções jovens. Esta semana recebeu a primeira convocatória para os sub-17.
Aos 16 anos, mede, segundo os registos do zerozero, cerca de 1,87 metros, uma estatura que o distingue de muitos colegas de geração. Usa o pé direito, surge nas fichas como extremo esquerdo ou segundo avançado, mas o seu físico e a forma como procura zonas de finalização aproximam-no também da figura de um ponta-de-lança. Tem um perfil diferente dos extremos que cresceram associados ao primeiro Ronaldo, aquele que fintava junto à linha lateral antes de se transformar num dos maiores goleadores da história.
O filho carrega, naturalmente, uma comparação de que os outros poderiam escapar. Tem o nome, a camisola, a referência física e uma história familiar que o acompanha a cada convocatória.
Garrafa e Yanick ainda podem construir uma carreira sem que o apelido lhes determine a primeira pergunta de uma entrevista. Jota teve de conviver com a previsão de que seria o próximo Ronaldo. Bruno Gama teve uma carreira longa e encontrou futebol longe de Portugal. Paim ficou associado àquilo que dizia poder ter feito.
Quando Cristiano Ronaldo anunciou a despedida da Seleção, nesta quinta-feira, os dois mais novos ainda tinham 15 e 14 anos. Fábio Paim tinha 38. Numa entrevista de 2023, depois de falar das Bolas de Ouro, das festas e dos anos perdidos, o antigo extremo do Sporting fez uma observação bastante menos repetida do que as suas comparações com Cristiano: arrependia-se de não ter tido mais tempo para jogar futebol.