Disseram-lhe em três ecografias que estava tudo bem, mas o filho nasceu sem quatro dedos na mão direita
Eu, Anabela, Luís vigário, Sónia Trigueirão e Nuno Guedes
Gravidez foi acompanhada no Serviço Nacional de Saúde. Relatório de uma ecografia assinalava limitação na qualidade da imagem, mas as extremidades do bebé foram descritas como aparentemente normais. A mãe diz que nunca foi informada dessa limitação nem aconselhada a repetir o exame e vai avançar para a justiça
Durante a gravidez, ouviu por três vezes que estava tudo bem com o bebé. Fez as ecografias recomendadas e nunca foi alertada para qualquer problema. Mas, no dia do parto, em Lisboa, foi confrontada com uma realidade inesperada: o filho tinha nascido sem quatro dedos da mão direita.
A mãe da criança recorda ao Exclusivo da TVI, do mesmo grupo da CNN Portugal, que ficou "em choque": "Eu não fiz mais nada, só me lembro de após o parto me terem tirado o bebé."
O choque foi tão grande que, nas primeiras horas, a mulher mal conseguiu assimilar o que estava a acontecer. No primeiro dia após o nascimento, chegou a esconder a mão do filho e a pensar que tudo não passava de um pesadelo.
O recém-nascido foi observado no Hospital de Santa Maria, onde, segundo a mãe, lhe transmitiram que, apesar da malformação, estava bem de saúde. Em casa, foi recebido com amor pela família. Mas uma pergunta continuou a acompanhá-la: como era possível o bebé ter nascido sem quatro dedos e ninguém se ter apercebido durante a gravidez?
A mulher já tinha duas filhas quando descobriu que estava novamente grávida. Fez o acompanhamento habitual no centro de saúde da Amora e realizou as três ecografias previstas, na Unilabs, das Paivas, na Amora (Seixal).
A primeira ecografia decorreu sem qualquer indicação de problemas. O mesmo aconteceu, garante, durante a ecografia morfológica, realizada no segundo trimestre, exame que permite avaliar com maior detalhe a anatomia e o desenvolvimento do feto.
No entanto, o relatório deste último exame continha uma ressalva importante: classificava a ecografia como um "exame de baixa qualidade", referindo que a sensibilidade do método estava reduzida devido à ecogenicidade da parede abdominal materna. Uma limitação que, segundo o documento, não permitia obter a imagem ideal e dificultava a avaliação de pequenos detalhes.
Apesar dessa observação, o relatório descrevia as extremidades, incluindo mãos e pés, como "aparentemente normais".
A mãe garante que nunca foi informada das limitações do exame. "Só me disseram que estava tudo bem", afirma, acrescentando que apenas teve conhecimento da referência à baixa qualidade da imagem depois do nascimento do filho.
Também garante que não lhe foi proposta a repetição da ecografia.
Ecografia morfológica: avaliação das mãos faz parte do exame
Mas seria possível identificar a ausência dos quatro dedos ainda durante a gravidez?
Teresa Loureiro, responsável pela Unidade de Ecografia Obstétrica do Hospital de Santa Maria, explica que a ecografia morfológica, habitualmente realizada entre as 20 e as 22 semanas, permite avaliar os membros do feto, incluindo mãos e pés.
A médica esclarece, contudo, que a capacidade de identificar determinadas alterações depende de vários fatores, nomeadamente da posição do bebé e da qualidade das imagens obtidas.
A observação das mãos e dos pés faz parte da avaliação, mas a contagem individual dos dedos não é obrigatória num exame de rotina de baixo risco, embora seja recomendável.
"O facto de termos uma imagem com melhor ou menor qualidade também altera" a avaliação, esclarece Teresa Loureiro, sublinhando que, quando o feto está numa posição desfavorável ou a imagem não é suficientemente nítida, o médico pode precisar de mais tempo para observar determinadas estruturas.
As características físicas da grávida também podem interferir na qualidade da ecografia. No caso desta mãe, o relatório identifica precisamente a ecogenicidade da parede abdominal materna como um fator que condicionou a obtenção das imagens.
Segundo a especialista, o tecido adiposo entre a sonda e o bebé pode dificultar a passagem dos ultrassons, reduzindo a definição da imagem e tornando mais difícil a observação de determinadas estruturas. Nestas circunstâncias, podem ser necessários exames adicionais. Quando a anatomia fetal não consegue ser adequadamente avaliada, a limitação deve ficar registada no relatório e poderá justificar uma nova avaliação. Em situações específicas, e após exames sucessivos inconclusivos, pode até ser ponderada a realização de uma ressonância magnética.
ISUOG recomenda avaliação dos quatro membros e nova observação quando necessário
As orientações da Sociedade Internacional de Ultrassonografia em Obstetrícia e Ginecologia (ISUOG) estabelecem que a ecografia morfológica do segundo trimestre deve incluir a avaliação dos quatro membros do feto.
Devem ser observadas a presença dos braços, antebraços, mãos, coxas, pernas e pés, bem como a forma, o alinhamento e a posição dos membros.
No entanto, a contagem individual dos dedos das mãos e dos pés não é considerada obrigatória numa ecografia de rotina do segundo trimestre.
As orientações da ISUOG preveem ainda que, quando não é possível realizar uma avaliação completa devido a limitações técnicas ou dificuldades de visualização, o exame deve ser repetido ou a grávida encaminhada para outro profissional, de forma a garantir uma avaliação adequada.
A distinção é importante neste caso: embora a contagem individual dos dedos não seja obrigatória, a avaliação da presença e da estrutura das mãos integra o exame morfológico. A necessidade de completar a avaliação deve ser considerada quando a qualidade das imagens não permite observar adequadamente as estruturas.
Questionada sobre a capacidade de identificar malformações dos dedos durante a ecografia, Teresa Loureiro refere que a taxa de deteção destas alterações é limitada. De acordo com a médica, os estudos apontam para uma taxa de deteção na ordem dos 15% quando estão em causa alterações dos dedos.
A especialista explica ainda que a expressão "aparentemente normais", utilizada no relatório da ecografia deste caso, é uma formulação habitual, que traduz as limitações inerentes à observação ecográfica das extremidades.
No caso concreto, apesar da referência à baixa qualidade da imagem, o relatório não assinalou dúvidas adicionais sobre a morfologia das mãos e dos pés.
Mãe quer explicações e pondera avançar com ação judicial
A mãe do bebé sem quatro dedos na mão direita continua sem perceber por que razão não foi aconselhada a repetir o exame, tendo em conta as limitações descritas no relatório.
"Quero que me expliquem o porquê. Se não dava para ver a imagem, porque é que não me pediram para fazer outra ecografia? Porque é que não me disseram nada quando estava a fazer a ecografia?", questiona.
A mãe sublinha que, se tivesse sido informada da malformação durante a gravidez, não teria interrompido a gestação, mas teria tido tempo para se preparar emocionalmente para a realidade que iria encontrar no momento do parto.
"Já tinha noção do que ia passar. Ia ser sempre um choque, mas tinha tempo para pensar", afirma.
Por considerar que tem direito a explicações, decidiu recorrer à Justiça. O advogado que a representa já contactou o Hospital de Santa Maria, a Unilabs e o médico responsável pela assinatura dos relatórios. Está a avaliar as vias legais para apurar eventuais responsabilidades, incluindo uma ação civil com vista a uma eventual indemnização e a apresentação de uma queixa-crime. Está igualmente prevista a apresentação de queixas junto da Ordem dos Médicos, da Entidade Reguladora da Saúde e da Inspeção-Geral das Atividades em Saúde.
Para já, não existe qualquer conclusão que permita afirmar que houve negligência médica. O processo encontra-se numa fase inicial de avaliação, sendo necessário apurar as circunstâncias em que foram realizados os exames e se as limitações identificadas justificavam uma nova avaliação.
Unilabs garante que exame respeitou as boas práticas clínicas
Questionada pelo Exclusivo, a Clidiral, Clínica de Diagnóstico e Radiologia do Grupo Unilabs, onde foram realizadas as ecografias, responde também em nome do médico que assinou os relatórios. Por escrito, a clínica manifesta solidariedade à família e garante estar a analisar o caso com seriedade.
"A análise efetuada até ao momento indica que o exame foi conduzido de acordo com as boas práticas clínicas, normas e orientações da Direção-Geral da Saúde e de consensos internacionais de peritos", refere a Unilabs.
A clínica acrescenta que está a preparar a documentação solicitada pela família, que será enviada em breve.
Com o filho, agora com um mês, nos braços, a mulher quer sobretudo evitar que outras famílias passem pelo mesmo choque. Apesar da experiência traumática, mostra-se confiante na capacidade de adaptação do bebé.
"Eles conseguem fazer tudo. São mais fortes do que nós pensamos. A partir do momento em que são perfeitos e têm saúde, está tudo bem", conclui.