As cinco fases do luto foram apenas três. Mas a história não acaba aqui
Foi mais uma noite de emoções fortes e particularmente negativas para Donald Trump, que viu o Partido Republicano perder o controlo do Senado e da Câmara dos Representantes numas eleições intercalares de grande júbilo para os democratas.
A esperança do GOP durou pouco. Cedo se percebeu que o antecipado “tsunami azul” ia mesmo tornar-se realidade. À medida que a realidade se foi instalando, o presidente dos EUA começou a mostrar os primeiros sinais de frustração, tendo a Fox News, canal televisivo fulcral para a sua primeira eleição, como alvo.
“As audiências da Fox News caíram drasticamente (27%!) porque passam demasiado tempo a dar cobertura aos 'Democratas enlouquecidos por Trump'! Todas aquelas pessoas que costumavam ver a Fox e já não o fazem percebem isso. A culpa é deles, não minha — os meus números estão melhores do que nunca”, escreveu Trump na Truth Social.
Muitas das declarações do líder americano durante a campanha refletiam uma autoestima exagerada, uma sobrevalorização daquilo que ele realmente é neste momento. A indicação para os eleitores era clara: ‘Finjam que eu estou no boletim’, repetiu Trump várias vezes ao longo das últimas semanas.
Mas o povo americano não deu asas à sua criatividade e mostrou um cartão vermelho à governação do presidente, marcada por um forte aumento do custo de vida.
Trump ausentou-se das redes sociais durante algumas horas, mas, nos bastidores, e enquanto estado após estado os republicanos iam caindo, a Casa Branca começava a preparar a narrativa.
"O presidente Trump não constava dos boletins de voto, e está provado que os eleitores de Trump comparecem quando ele consta dos boletins", afirma um responsável da Casa Branca aos jornalistas, citado pela CNN Internacional. "O presidente Trump fez um trabalho melhor a promover muitos dos candidatos nas eleições do que os próprios candidatos", acrescentou a Casa Branca, parecendo esquecer-se que os candidatos republicanos foram escolhidos a dedo pelo presidente.
Pouco passava das 03:30, hora de Portugal Continental, quando Donald Trump voltou a dar sinais de vida na Truth Social.
"Eu não estava no boletim e, se estivesse, teríamos obtido UMA VITÓRIA ESMAGADORA!", escreveu Trump. A negação deu lugar à raiva.
O processo a partir daí acelerou e o presidente chegou à fase da aceitação muito rapidamente, sem passar (pelo menos publicamente) pela negociação e pela depressão. Numa entrevista ao The New York Times, Trump mostrou-se disponível para trabalhar com os democratas.
"Estou absolutamente disposto a aceitar esses resultados. Vamos colaborar com os democratas e, como sabem, estamos ansiosos por trabalhar com eles. Provavelmente chegaremos a um acordo”, disse Trump ao jornal americano, com "o rabo entre as pernas".
No entanto, como não poderia deixar de ser, a culpa não é sua, mas sim dos candidatos republicanos, aqueles que o próprio escolheu. “Estou a ver estes resultados enquanto falo. Vejo que a Darline [Graham] perdeu. Uau, é incrível. Como achas que o Lindsey se teria saído se se tivesse candidatado?”, questionou Trump, antes de dizer que o falecido senador provavelmente teria mantido o seu lugar no Senado pelo estado da Carolina do Sul.
"Acho mesmo que o facto de eu não estar no boletim foi o maior problema de todos", completou.
Mais tarde, ao Politico, reforçou a ideia de que iria trabalhar com os democratas. Falando da ameaça que fez, de que se iria tornar no "Senhor Veto" em caso de vitória democrata, Trump reconheceu à publicação que não quer "ficar ali sentado durante dois anos a vetar tudo".
A história poderia terminar aqui. Porém, como tudo em que Trump se mete, houve mais uma reviravolta. Faltavam 20 minutos para as 05:00 de Portugal Continental quando Trump publica uma imagem que parece sugerir como vão ser os próximos dois anos da política norte-americana: um boné vermelho que, em vez de dizer "MAGA", diz "VETO", uma indicação clara da estratégia que pretende seguir daqui em frente: bloquear, bloquear, bloquear.