Houve vitórias que pareciam impossíveis, derrotas difíceis de esquecer e uma noite em que jogou depois de saber que o pai tinha morrido. Cristiano Ronaldo despede-se da Seleção aos 41 anos, depois de 234 jogos, 146 golos e três troféus. "Portugal estará sempre em mim", disse no adeus. Pelo meio, ficaram 23 anos de histórias, algumas delas muito para lá do futebol
Cristiano Ronaldo escolheu esta quinta-feira, 5 de novembro, para anunciar o fim da carreira internacional, na véspera de mais uma convocatória de Jorge Jesus e depois de várias semanas de conflito com o selecionador. A despedida chegou através de um vídeo, sem a cerimónia que se poderia esperar para o futebolista que mais vezes representou Portugal. A história, essa, começara muito antes, num campo de futebol em Chaves, quando ainda ninguém conhecia o destino daquela camisola com o número 16.
1. Chaves, 20 de agosto de 2003
Um rapaz de 18 anos e uma camisola com o número 16
Havia cerca de oito mil pessoas nas bancadas do Municipal de Chaves, uma seleção do Cazaquistão que dava os primeiros passos no futebol europeu e um rapaz de 18 anos, chegado havia poucos dias a Manchester, que Luiz Felipe Scolari queria observar. Cristiano Ronaldo vestia o número 16. Entrou ao intervalo para substituir Luís Figo, numa troca que, duas décadas depois, ganharia o significado de uma passagem de testemunho. Naquela noite, porém, era apenas mais uma experiência do selecionador.
Ronaldo não precisou de muito tempo para ensaiar as primeiras arrancadas pela defesa adversária. Portugal venceu por 1-0, graças a um lance pouco elegante: Hélder Postiga cruzou, um defesa cazaque desviou a bola contra Simão Sabrosa e esta acabou na baliza. O primeiro jogo internacional de Ronaldo terminou sem golos, sem troféus e sem qualquer indicação de que aquele extremo magro, com o cabelo cheio de gel, voltaria a vestir a camisola portuguesa mais 233 vezes. Tinha assinado pelo Manchester United na semana anterior, depois de uma exibição contra os ingleses que convencera Alex Ferguson a levá-lo para Old Trafford.
2. Lisboa, 2004
O primeiro golo e as primeiras lágrimas
Cristiano Ronaldo marcou o seu primeiro golo pela Seleção a 12 de junho de 2004, no Estádio do Dragão, num jogo que Portugal perdeu. Entrara do banco contra a Grécia, cometera o penálti que permitiu aos adversários chegar ao 2-0 e, já nos descontos, cabeceou para a baliza depois de um canto de Luís Figo. Ainda tinha 19 anos, vestia o número 17 e começava a descobrir o peso de jogar num Europeu organizado em casa.
Três semanas depois, já titular, voltou a encontrar os gregos. Pelo caminho marcara também aos Países Baixos, na meia-final, mas a noite de 4 de julho no Estádio da Luz seria diferente. Angelos Charisteas fez o único golo da final, aos 57 minutos, e Portugal perdeu diante de uma equipa que poucos esperavam ver no último jogo da competição. Ronaldo chorou no relvado, incapaz de esconder o rosto desfeito pela derrota. À volta dele, os gregos celebravam uma das maiores surpresas da história do futebol.
Havia uma crueldade particular naqueles dois encontros. O primeiro golo internacional de Ronaldo chegara contra a Grécia, mas fora inútil. E a primeira grande final da sua carreira terminava diante do mesmo adversário, sem que conseguisse marcar.
3. Moscovo, 7 de setembro de 2005
"Não, eu vou jogar, professor"
Eram nove da noite em Moscovo quando a notícia chegou à concentração portuguesa. José Dinis Aveiro, pai de Cristiano Ronaldo, morrera aos 52 anos, depois de várias semanas hospitalizado em Londres com problemas hepáticos e renais. O filho tinha 20 anos e preparava-se para defrontar a Rússia, no dia seguinte, num jogo de qualificação para o Mundial de 2006.
Ninguém sabia como lhe contar. Luiz Felipe Scolari decidiu assumir a tarefa, até porque também perdera o pai. Chamou Ronaldo ao quarto, começou por falar da própria experiência e acabou por lhe transmitir a notícia. Choraram os dois, abraçaram-se. O selecionador disse-lhe que podia abandonar imediatamente a concentração e que a Federação trataria da viagem.
"Não, eu vou jogar, professor. Depois do jogo eu vou embora. Não vou fazer mais nada em casa. O que tinha de fazer já fiz. Pode contar comigo", respondeu Ronaldo, segundo o relato que Scolari faria anos depois.
Havia uma particularidade naquela concentração. Eusébio acompanhava a Seleção e também procurou confortar o jovem futebolista. O antigo avançado conhecia aquela dor: perdera a mãe quando estava ao serviço do Benfica e chegara a jogar no dia da morte, marcando três golos.
Na tarde seguinte, no Estádio Lokomotiv, os portugueses entraram em campo com braçadeiras negras. Ronaldo foi titular. A Rússia ficou reduzida a dez jogadores ainda antes do intervalo, mas Portugal não conseguiu marcar. O encontro terminou 0-0. O jovem extremo, que já na pré-época abandonara temporariamente o estágio do Manchester United para acompanhar o pai doente, foi considerado um dos melhores em campo.
"Foi um momento que criou um laço entre nós, algo que foi além da relação entre jogador e treinador", recordaria Scolari numa entrevista, em 2022.
Ronaldo regressou depois a Portugal para se juntar à família. Tinha acabado de disputar a 25.ª internacionalização. O pai nunca o veria ganhar uma Bola de Ouro, uma Liga dos Campeões ou um título pela Seleção Nacional.
4. Gelsenkirchen, 1 de julho de 2006
O piscar de olho que incendiou Inglaterra
Wayne Rooney estava no chão, Ricardo Carvalho também, e Cristiano Ronaldo aproximava-se do árbitro argentino Horacio Elizondo. O avançado inglês acabara de atingir Carvalho na zona da virilha, durante um lance disputado nos quartos de final do Mundial da Alemanha. Ronaldo protestou, Rooney empurrou-o e o árbitro mostrou o cartão vermelho ao inglês. Pouco depois, as câmaras apanharam Ronaldo a piscar o olho em direção ao banco português.
A Inglaterra encontrou nessa imagem uma explicação para a expulsão de Rooney. Os dois eram companheiros no Manchester United, mas o gesto foi interpretado como uma traição. Ronaldo negou ter pedido a expulsão. A polémica acompanhou-o durante semanas e levantou dúvidas sobre a forma como seria recebido em Manchester.
Portugal acabaria por vencer nos penáltis, depois de Ricardo defender três remates ingleses. Ronaldo marcou o último, aquele que garantiu a passagem às meias-finais, onde a França eliminaria Portugal. O jovem que saíra de Chaves com o número 16 era agora titular indiscutível. No ano seguinte, Scolari dar-lhe-ia pela primeira vez a braçadeira de capitão, num particular com o Brasil, em Londres. Era 6 de fevereiro de 2007, um dia depois de completar 22 anos. O treinador explicou que a escolha constituía também uma homenagem à memória do pai do jogador.
5. Cidade do Cabo, 29 de junho de 2010
"Falem com o Queiroz"
David Villa tinha marcado o único golo dos oitavos de final, a Espanha seguia para os quartos e Cristiano Ronaldo atravessava a zona mista do Green Point Stadium sem vontade de conversar. Um jornalista perguntou-lhe como explicava aos portugueses a eliminação. A resposta foi curta: "Falem com o Queiroz".
O capitão seguiu em direção ao autocarro, deixando atrás de si uma polémica que chegaria rapidamente a Portugal. Durante o encontro, fora também filmado a cuspir na direção de uma câmara. As imagens juntaram-se às palavras e expuseram o descontentamento de Ronaldo com a campanha da Seleção na África do Sul. Carlos Queiroz, que conhecia bem o jogador dos tempos do Manchester United, passou a estar no centro da discussão.
Horas depois, Ronaldo esclareceu que não pretendia responsabilizar o selecionador pela derrota. Remetera os jornalistas para Queiroz, explicou, porque o treinador estava a dar uma conferência de imprensa e ele não se sentia em condições de falar. "Sou um ser humano, sofro e tenho direito a sofrer sozinho", afirmou.
A Espanha acabaria campeã do mundo. Portugal regressou a casa, e Ronaldo, que naquele Mundial só conseguira marcar à Coreia do Norte, trouxe consigo uma frase que continuaria a ser recordada muito depois da saída de Queiroz.
6. Donetsk, 27 de junho de 2012
O penálti que guardou para si e nunca marcou
A seleção portuguesa conseguira levar a Espanha, campeã do mundo e da Europa, até ao desempate por grandes penalidades. Durante 120 minutos, em Donetsk, a equipa de Paulo Bento contrariara o futebol de posse dos espanhóis e dispusera de oportunidades para ganhar. Cristiano Ronaldo, que marcara três golos nos dois jogos anteriores, estava preparado para assumir o quinto penálti.
O problema foi que a eliminatória terminou antes de chegar a sua vez.
João Moutinho falhou o primeiro remate português. Bruno Alves acertou na barra no quarto. Cesc Fàbregas marcou o penálti decisivo para Espanha, e Ronaldo ficou a olhar para uma baliza à qual já não precisava de se dirigir.
Nas férias, semanas depois, explicou a escolha numa entrevista concedida na Tailândia. Recordou que, pelo Real Madrid, falhara o primeiro penálti contra o Bayern de Munique. Desta vez preferira o último. "São decisões, sensações", disse. O capitão tinha escolhido o momento em que queria decidir a eliminatória. A Espanha decidiu-a antes.
7. Solna, 19 de novembro de 2013
Quatro golos contra a Suécia, um bilhete para o Brasil
O Mundial de 2014 dependia de uma eliminatória com a Suécia e, inevitavelmente, de um duelo que a imprensa apresentou como Cristiano Ronaldo contra Zlatan Ibrahimović. O português resolvera a primeira mão, em Lisboa, com um cabeceamento aos 82 minutos. A vantagem era curta, mas suficiente para viajar até Solna.
Na Suécia, Ronaldo marcou primeiro, depois de um passe de João Moutinho. Ibrahimović respondeu com dois golos em quatro minutos, um de cabeça e outro de livre direto, e o estádio começou a acreditar que os suecos poderiam ainda dar a volta à eliminatória.
Entre os 77 e os 79 minutos, Ronaldo acabou com essa possibilidade.
Primeiro fugiu à defesa e rematou de pé esquerdo, depois recebeu outro passe de Moutinho, voltou a correr nas costas dos suecos e marcou o terceiro. O guarda-redes Andreas Isaksson ainda tentou reduzir o ângulo, mas já era tarde. Portugal venceu por 3-2, com os quatro golos da eliminatória assinados pelo capitão.
A participação de Moutinho, duas vezes decisivo na construção dos golos, ficou quase escondida numa noite dominada pelo confronto entre os dois avançados. Ibrahimović marcou duas vezes e não chegou ao Mundial. Ronaldo marcou quatro, somando as duas mãos, e levou Portugal ao Brasil.
8. Lyon, 22 de junho de 2016
Um microfone atirado à água e um calcanhar que salvou Portugal
Cristiano Ronaldo caminhava junto ao hotel da Seleção quando Diogo Torres, jornalista da CMTV, se aproximou e lhe perguntou se estava preparado para o jogo com a Hungria. Ronaldo tirou-lhe o microfone da mão e atirou-o para a água. Não respondeu à pergunta.
Portugal ainda não tinha vencido no Europeu de França. O capitão falhara um penálti contra a Áustria, criticara a Islândia depois de um empate e começava a ser questionado pelo rendimento. Horas depois daquele episódio, a Hungria colocou a Seleção três vezes em desvantagem. Ronaldo respondeu a duas delas.
No primeiro golo, aos 50 minutos, desviou de calcanhar um cruzamento de João Mário. No segundo, cabeceou para o 3-3 que acabaria por garantir o apuramento. Pelo meio, também assistira Nani. Portugal seguiu em frente com três empates em três jogos.
Duas semanas depois, Ronaldo seria decisivo nas meias-finais contra o País de Gales, marcando de cabeça e participando no golo de Nani. Já igualara Michel Platini no número de golos em fases finais de Europeus. Faltava-lhe, finalmente, vencer uma.
9. Saint-Denis, 10 de julho de 2016
A mariposa, a maca e os 109 minutos que faltavam
Uma mariposa pousou junto ao rosto de Cristiano Ronaldo quando o capitão estava sentado no relvado do Stade de France, a chorar. A iluminação do estádio atraíra milhares daqueles insetos, que voavam sobre o relvado enquanto Portugal e França disputavam a final do Europeu. Aos oito minutos, Dimitri Payet atingira o joelho esquerdo do português. Ronaldo tentou continuar, recebeu assistência, regressou com uma ligadura e acabou por desistir. Saiu de maca aos 25 minutos.
A partida prosseguiu sem ele. Rui Patrício defendeu, Pepe multiplicou-se na defesa, a França acertou num poste por André-Pierre Gignac e o encontro chegou ao prolongamento. Ronaldo reapareceu junto ao banco, de joelho ligado, a dar indicações aos colegas, movimentando-se ao lado de Fernando Santos. Aos 109 minutos, Éder recebeu a bola fora da área, afastou Laurent Koscielny e rematou para a baliza de Hugo Lloris.
Portugal tornou-se campeão europeu com um golo de um avançado que nem sequer era titular, numa final em que o seu melhor jogador estivera quase sempre fora de campo.
Ronaldo regressou ao relvado para levantar a taça. Doze anos depois da derrota contra a Grécia, voltou a chorar numa final de um Europeu. Desta vez, Portugal tinha ganho.
10. Sochi, 15 de junho de 2018
A Espanha, três golos e um guarda-redes imóvel
A Espanha chegara ao Mundial da Rússia sem Julen Lopetegui, despedido depois de se tornar pública a sua contratação pelo Real Madrid. Fernando Hierro assumira a seleção e Cristiano Ronaldo, aos 33 anos, preparava-se para enfrentar vários dos seus companheiros de clube.
Marcou aos quatro minutos, de penálti. Voltou a marcar perto do intervalo, num remate que David de Gea deixou escapar de forma comprometedora. Mas a Espanha recuperou, com dois golos de Diego Costa e um remate extraordinário de Nacho.
Aos 88 minutos, quando Portugal perdia por 3-2, Gerard Piqué fez falta sobre Ronaldo à entrada da área. O capitão colocou a bola no chão, recuou alguns passos e ficou imóvel por instantes. Depois correu para ela.
O remate passou por cima da barreira, descreveu uma curva e entrou junto ao ângulo. De Gea ficou praticamente parado. Era o 3-3, o terceiro golo de Ronaldo naquela noite e uma das imagens mais repetidas do Mundial.
Nunca voltaria a marcar três vezes num jogo de uma fase final de um Campeonato do Mundo. E Portugal, que acabara de empatar com uma das seleções favoritas, seria eliminado pelo Uruguai nos oitavos de final.
11. Faro, 1 de setembro de 2021
Um guarda-redes de 19 anos e o recorde que parecia fugir
Gavin Bazunu tinha 19 anos e defendia a baliza da República da Irlanda quando Cristiano Ronaldo colocou a bola na marca de penálti, no Estádio Algarve. O português precisava de um golo para ultrapassar Ali Daei e tornar-se isoladamente o melhor marcador de sempre de seleções masculinas.
Bazunu defendeu.
A Irlanda marcou pouco depois, por John Egan, e conservou a vantagem durante quase toda a partida. Ronaldo, que fizera 36 anos em fevereiro, continuou à procura do golo. Aos 89 minutos, cabeceou um cruzamento de Gonçalo Guedes para o empate. Era o 110.º golo internacional, aquele que o colocava definitivamente à frente do iraniano.
Já nos descontos, João Mário cruzou e Ronaldo voltou a aparecer para cabecear. Portugal venceu por 2-1, com dois golos nos últimos minutos.
O capitão tirou a camisola para festejar e recebeu um cartão amarelo que o afastou do jogo seguinte, por acumulação. A noite em que estabeleceu o recorde mundial terminou, assim, com uma suspensão. Bazunu, o guarda-redes que lhe defendera o penálti, acabou por sofrer precisamente os dois golos que faltavam à história.
12. Doha, 10 de dezembro de 2022
O banco, Gonçalo Ramos e o caminho para o túnel
Fernando Santos tinha uma decisão que nenhum selecionador português precisara de tomar daquela maneira durante quase vinte anos. Cristiano Ronaldo, capitão e melhor marcador da história da equipa, seria suplente nos oitavos de final do Mundial do Qatar.
O desentendimento começara com a reação do jogador à substituição diante da Coreia do Sul. Fernando Santos não gostara do comportamento e, contra a Suíça, colocou Gonçalo Ramos no onze. O avançado do Benfica, de 21 anos, marcou três golos. Portugal venceu por 6-1.
Nos quartos de final, Ronaldo voltou a ficar no banco. Marrocos marcou por Youssef En-Nesyri e o capitão entrou apenas na segunda parte, sem conseguir alterar o resultado. Quando terminou o encontro, caminhou sozinho para o túnel de acesso aos balneários, a chorar, enquanto os marroquinos celebravam a primeira presença de uma seleção africana nas meias-finais de um Mundial.
Tinha 37 anos e acabava de perder o lugar que durante tanto tempo parecera exclusivamente seu. Fernando Santos deixou a Seleção poucos dias depois. Ronaldo continuou. A fotografia daquele caminho para o túnel, porém, ficaria entre as imagens mais reconhecíveis da sua carreira.
13. Frankfurt, 1 de julho de 2024
Ronaldo falhou, Diogo Costa não
Jan Oblak defendeu o penálti e Cristiano Ronaldo levou as mãos à cabeça. Portugal e Eslovénia continuavam empatados sem golos, já no prolongamento dos oitavos de final do Europeu, quando o capitão desperdiçou a possibilidade de decidir o encontro. O remate foi desviado pelo guarda-redes para o poste.
Quando terminou a primeira parte do prolongamento, Ronaldo chorou. Os colegas aproximaram-se, procuraram consolá-lo, e o jogo continuou. Aos 115 minutos, Benjamin Šeško apareceu isolado diante de Diogo Costa, que defendeu com o pé e evitou a eliminação.
No desempate por grandes penalidades, Ronaldo foi o primeiro português a marcar. Desta vez venceu Oblak e pediu desculpa aos adeptos, juntando as mãos. Diogo Costa defendeu os três remates eslovenos, um feito inédito na história dos Europeus, e Portugal seguiu para os quartos de final.
Ronaldo tinha 39 anos. Durante grande parte da carreira fora ele quem salvara Portugal nas situações mais difíceis. Em Frankfurt, precisou que o guarda-redes o salvasse a ele. A França eliminaria Portugal no jogo seguinte, também nas grandes penalidades.
14. Munique, 8 de junho de 2025
Um último troféu antes dos 41 anos
A Espanha tinha Lamine Yamal, Pedri, Nico Williams e uma geração que acabara de conquistar o Campeonato da Europa. Portugal tinha uma equipa renovada e um capitão de 40 anos, que continuava a jogar ao lado de companheiros nascidos depois da sua estreia internacional.
Os espanhóis adiantaram-se duas vezes na final da Liga das Nações. Nuno Mendes empatou o primeiro golo e Cristiano Ronaldo, aos 61 minutos, apareceu junto ao segundo poste para desviar um cruzamento do lateral português, depois de um ressalto. O resultado ficou em 2-2.
Ronaldo saiu aos 88 minutos. Portugal chegou às grandes penalidades, Diogo Costa defendeu o remate de Álvaro Morata e Rúben Neves marcou o penálti decisivo. O capitão caiu de joelhos e chorou junto ao banco.
Era a terceira conquista internacional da sua carreira: o Europeu de 2016 e as Ligas das Nações de 2019 e 2025. Na primeira Liga das Nações, seis anos antes, Ronaldo marcara três golos à Suíça nas meias-finais, mas fora Gonçalo Guedes a decidir a final contra os Países Baixos, no Dragão. Em Munique, o capitão voltou a marcar numa final e acabou a levantá-la, aos 40 anos.
15. Dallas, Copenhaga e Lisboa, 2026
A última viagem e a camisola devolvida
Cristiano Ronaldo disputou o sexto Mundial aos 41 anos, tornando-se o primeiro jogador a marcar em seis edições da competição. O último golo em Mundiais surgiu contra a Croácia, a 2 de julho, mas o percurso português terminou quatro dias depois, nos oitavos de final, diante da Espanha. Em Dallas, Mikel Merino marcou já nos descontos e Portugal perdeu por 1-0.
Ronaldo confirmou que não voltaria a disputar um Campeonato do Mundo. Não anunciou, porém, a despedida da Seleção. Roberto Martínez saiu, Jorge Jesus assumiu o comando técnico e o capitão manteve-se disponível. O último jogo pela equipa nacional acabou por ser uma vitória sobre o País de Gales, a 24 de setembro, em Alvalade. Ronaldo saiu aos 67 minutos, sem saber que seria aquela a última vez que vestiria a camisola das quinas em campo.
Dias depois, na Noruega, aqueceu durante parte da segunda metade, mas Jorge Jesus não o utilizou. Ronaldo considerou que o selecionador lhe faltara à palavra e abandonou o estágio, em Copenhaga, a 30 de setembro. O conflito tornou-se público. Numa longa explicação aos portugueses, publicada a 6 de outubro, o capitão acusou Jesus de não ter cumprido compromissos assumidos anteriormente, pediu desculpa aos colegas e admitiu ter errado ao deixar a concentração. O treinador apresentou outra versão e defendeu a autoridade das suas decisões. A Federação suspendeu Ronaldo por 30 dias e aplicou-lhe uma multa de 255 euros.
Ainda se falou de reconciliação. Jorge Jesus pretendia chamá-lo para os jogos de novembro, mas Ronaldo antecipou-se à convocatória. Esta quinta-feira, 5 de novembro, publicou um vídeo de despedida, acompanhado pela voz de Dulce Pontes a cantar O Amor a Portugal.
"Aos portugueses, chegou o dia de devolver a camisola 7 da Seleção de todos nós", começou por dizer.
Falou dos emigrantes que encontravam nos jogos uma maneira de sentir Portugal mais perto, dos companheiros, dos treinadores e das pessoas que trabalharam longe das câmaras. Recordou os troféus e as derrotas, os 23 anos de carreira internacional e a responsabilidade de representar um país. "Nunca a senti como exclusivamente minha", disse sobre a camisola 7, que usara durante a maior parte desse tempo.
A despedida chegou num ecrã, depois de uma suspensão disciplinar e de um conflito que nunca ficou inteiramente resolvido. Não houve jogo de homenagem, volta ao campo nem aplausos de um estádio cheio. Cristiano Ronaldo terminou a carreira internacional com 234 jogos e 146 golos, recordes mundiais no futebol masculino, e três troféus conquistados.
A última imagem do percurso em campo continuaria a ser a saída em Alvalade, a 24 de setembro. Tinha sido substituído por Jorge Jesus e entregara a braçadeira a Bruno Fernandes. Um gesto que repetira tantas vezes, ao longo de tantos anos, que dificilmente alguém o interpretaria como uma despedida.
No vídeo do adeus, Ronaldo encontrou as palavras que faltaram naquela noite.
"Portugal estará sempre em mim. Até sempre."