“Será fogo de artifício?” Não era. “Foi como um mau filme policial, com balas por todo o lado”: Michał O., os nove mortos, as 11 armas, o polícia que o travou e as histórias de quem sobreviveu ao massacre de Cracóvia

Há 36 min
Tiroteio Polónia
Tiroteio Polónia

O jovem polaco de 24 anos que matou seis pessoas no centro histórico de Cracóvia não tinha antecedentes criminais, frequentava um clube de tiro e vivia numa casa onde o pai guardava um pequeno arsenal. As autoridades suspeitam que tenha assassinado a própria família antes de partir para o ataque. Entre os sobreviventes estão uma portuguesa de 74 anos, que visitava a neta, e dois agentes da polícia que conseguiram deter o atirador. A investigação já está a ser conduzida como um caso de terrorismo

O casal britânico tinha acabado de atravessar a praça quando ouviu os primeiros disparos.

"Pensámos que fossem foguetes, mas depois as pessoas começaram a correr", contou Neil Thaxton, que estava em Cracóvia com a mulher, Nicky. Entraram numa loja de recordações, onde os funcionários os levaram para as traseiras, trancaram as portas e apagaram as luzes. "Foi bastante assustador durante cinco ou dez minutos. Felizmente, estamos bem. Os nossos pensamentos estão com aqueles que perderam a vida e com as suas famílias", escreveu o britânico nas redes sociais.

Outros turistas procuraram refúgio em restaurantes, igrejas e estabelecimentos comerciais.

Uma visitante belga, Marie-Ange Collaer, contou que a família correu para salvar a vida. "Ficámos deitados no chão de uma loja, como num mau filme policial, enquanto ouvíamos balas por todo o lado." Era sábado, 7 de novembro, pouco depois das três da tarde, e uma das praças mais visitadas da Europa tinha-se transformado no cenário de um massacre.

O homem que desencadeou o pânico chama-se Michał O., tem 24 anos e vivia em Ostrowiec Świętokrzyski, a cerca de 150 quilómetros de Cracóvia, na Polónia. Não tinha antecedentes criminais, possuía licença para ter armas e frequentava um clube de tiro, tal como o pai. Quando a polícia conseguiu detê-lo, depois de uma perseguição e de uma troca de tiros, já tinha matado seis pessoas e ferido várias outras.

E ainda faltava descobrir os três corpos que estavam na casa da família.

Michał entrou de carro na Praça do Mercado Principal, conhecida como Rynek Główny, com o rosto tapado, roupa de estilo militar e um colete à prova de bala. Levava uma arma longa, semelhante a uma carabina semiautomática AR-15, e começou a disparar indiscriminadamente contra as pessoas que se encontravam na praça. Não havia qualquer relação conhecida entre o atacante e as vítimas.

A praça estava cheia de turistas e residentes que aproveitavam a tarde de sábado. Um empregado de uma pastelaria contou ao jornal polaco Onet que viu uma multidão aproximar-se a correr. Conseguiu refugiar-se no estabelecimento, pouco antes de uma bala atingir a montra. "Mais um instante e já cá não estaria", recordou.

Jonathan Balshaw, outro turista britânico, estava junto à Basílica de Santa Maria quando começaram os disparos. "Corremos pela lateral da igreja, entrámos por uma porta secundária e escondemo-nos com outras pessoas até os tiros pararem", contou à BBC. Ouviu mais de 20 disparos e chegou a pensar que havia vários atacantes. "Havia dois sons claramente diferentes", recordou.

Um jovem estudante norte-americano, Taylor Dorfmeister, de 21 anos, também procurou refúgio num edifício. Subiu as escadas com o colega de quarto, mas encontrou um caminho sem saída. "Foi quando tive mais medo, porque os disparos estavam muito altos e muito perto", contou à NBC News. Naqueles segundos, pensou que não conseguiria escapar. "É agora. Não há para onde ir, não há onde nos escondermos."

Michał continuou a disparar enquanto conduzia pelas ruas do centro histórico. No Plac Wszystkich Świętych, atingiu um elétrico da linha 1. Um dos projéteis partiu o vidro da cabina do motorista, mas ninguém que seguia no transporte ficou ferido. O percurso prosseguiu em direção ao cruzamento das ruas Dietla e Stradomska, onde a polícia acabaria por o intercetar.

A polícia polaca isolou várias ruas do centro histórico de Cracóvia, depois do ataque a tiro que provocou seis mortos e vários feridos. Foto: Associated Press

Seis pessoas morreram: quatro mulheres e dois homens, entre os quais quatro cidadãos polacos, um britânico e uma austríaca. Entre os feridos há também uma portuguesa de 74 anos, natural do norte de Portugal, que estava em Cracóvia para visitar a neta, estudante do programa Erasmus.

A portuguesa foi atingida por um disparo e teve de ser operada.

Este domingo, o Ministério dos Negócios Estrangeiros confirmou que se encontra em recuperação e fora de perigo. "Teve uma intervenção cirúrgica ontem, as coisas correram bem, já está com a companhia da filha e, a priori, ainda esta semana deverá ter alta", explicou o secretário de Estado das Comunidades, Emídio Sousa. O regresso a Portugal dependerá da avaliação dos médicos.

A família morta e o arsenal que estava em casa

Enquanto os investigadores tentavam reconstituir o percurso do atacante, a polícia fez uma descoberta a cerca de 150 quilómetros de Cracóvia. Na residência da família de Michał, em Ostrowiec Świętokrzyski, estavam três corpos: o pai, de 53 anos, a mãe, de 52, e a irmã, de 21.

Todos apresentavam ferimentos de bala.

O Ministério Público polaco considera altamente provável que os três tenham sido mortos pelo próprio Michał, antes de este partir para Cracóvia. A investigação procura agora esclarecer a sequência dos acontecimentos e o que terá levado o jovem a matar os familiares e, depois, pessoas que não conhecia.

A irmã, Magdalena, era estudante da Academia de Belas-Artes de Cracóvia. Pintava, fotografava, escrevia poesia e prosa. A instituição descreveu-a como uma jovem talentosa, cuja morte deixou a comunidade académica profundamente abalada.

Tinha 21 anos e estudava precisamente na cidade onde o irmão viria a cometer o massacre.

O atirador, Michał O., percorreu várias ruas do centro histórico de Cracóvia, disparando contra desconhecidos, até ser intercetado por dois polícias. Foto: EPA

A investigação revelou também que as armas faziam parte da vida da família. Segundo o jornal polaco Onet, Michał tinha licença de tiro desportivo, enquanto o pai possuía 11 armas registadas. O automóvel utilizado no ataque estava em nome deste último.

No veículo, os investigadores encontraram outras armas, munições, equipamento militar e uma baioneta. Na residência familiar foram apreendidas sete armas de fogo e uma quantidade significativa de munições. No total, as autoridades recuperaram 11 armas entre a casa, o automóvel e o local do tiroteio.

O jovem e o pai frequentavam um clube de tiro. A instituição, situada em Starachowice, esclareceu entretanto que apenas disponibilizava treino de tiro estático, contra alvos fixos, e garantiu que Michał nunca ali recebeu formação de combate ou de tiro tático.

A polícia está a tentar determinar quais das armas foram utilizadas nos homicídios e de que forma o ataque foi preparado. Também procura perceber o que aconteceu dentro da casa da família e se houve algum acontecimento que precipitou as mortes.

Há ainda outra pista: as convicções políticas do atirador.

No sábado, o ministro do Interior polaco, Marcin Kierwiński, afirmou que os primeiros elementos recolhidos indicavam que Michał tinha posições "muito radicais" e "ultranacionalistas". "Tudo indica que era fascinado por ideologias de extrema-direita", declarou o governante.

O Ministério Público abriu este domingo uma investigação por crimes de natureza terrorista, abrangendo os seis homicídios em Cracóvia, as tentativas de homicídio, incluindo as agressões aos polícias, e as mortes dos três familiares. As autoridades estão a analisar a atividade do suspeito, os seus contactos e eventuais ligações a movimentos extremistas.

Até agora, não foi demonstrado publicamente que pertencesse a uma organização terrorista ou que tivesse recebido instruções para realizar o ataque.

A questão tornou-se também objeto de uma disputa política na Polónia. A imprensa local divulgou informações contraditórias sobre a eventual ligação do jovem a grupos organizados. O governador regional, Krzysztof Klęczar, afirmou ter recebido indicações de que Michał pertencia a uma organização, mas reconheceu não saber identificá-la nem esclarecer a sua natureza política.

Por enquanto, a investigação trabalha com a hipótese de um ataque de inspiração extremista, mas a motivação concreta continua por estabelecer. Os investigadores também não encontraram indícios de que outras pessoas tenham participado na execução do massacre.

Três balas não impediram o polícia de deter o atirador

A intervenção policial começou poucos minutos depois dos primeiros disparos. Os agentes que conseguiram travar o atacante chamam-se Jakub Kulik e Artur Morański, ambos com menos de 30 anos.

Kulik, antigo militar paraquedista e bombeiro voluntário, foi atingido por três balas durante a troca de tiros. Apesar dos ferimentos, conseguiu dominar Michał, que continuava armado. As imagens divulgadas após o ataque mostram o polícia a imobilizar o suspeito e, depois, a cair no passeio.

O agente foi transportado de urgência para o hospital, onde teve de ser operado. A gravidade dos ferimentos levou a um apelo nacional à dádiva de sangue.

Este domingo, a porta-voz do Ministério do Interior, Karolina Gałecka, confirmou à televisão pública TVP que Kulik tinha acordado do coma induzido. "O seu estado continua grave, mas estável", explicou.

O outro agente, Artur Morański, também foi baleado e submetido a uma intervenção cirúrgica. Ao longo de domingo, surgiram notícias de que ambos tinham recuperado a consciência, embora continuassem hospitalizados com ferimentos graves.

Donald Tusk, primeiro-ministro polaco, elogiou a coragem dos dois polícias, que "provavelmente salvaram muitas vidas, desprezando o risco para as suas próprias". "Perante a tragédia de Cracóvia, vimos o melhor das pessoas: a coragem dos polícias, a dedicação dos profissionais de emergência e a ajuda desinteressada de cidadãos comuns que correram para salvar outros", escreveu Tusk nas redes sociais. "Estamos todos profundamente gratos."

O presidente da Câmara de Cracóvia, Łukasz Gibała, anunciou que pretende atribuir aos dois agentes, com caráter de urgência, o título de cidadãos honorários da cidade.

Mas os relatos de coragem não se limitaram à polícia.

Tom e Unn-Britt Folvik, um casal norueguês, estavam sentados numa esplanada da praça, a beber cerveja com amigos, quando ouviram os primeiros disparos. "Começámos a ouvir uns estrondos e pensámos: será fogo de artifício? Mas percebemos rapidamente que eram tiros", contou Tom ao jornal norueguês VG.

O casal fugiu ao ver o carro do atacante atravessar a praça, mas regressou quando os disparos terminaram e percebeu que havia pessoas feridas. Ambos tinham experiência na área da saúde: Unn-Britt era enfermeira de anestesia e Tom tinha trabalhado durante duas décadas como tripulante de ambulância. "Vimos que a entrada da loja do outro lado da praça estava danificada. As pessoas tinham começado a fazer manobras de reanimação e percebemos que havia feridos", recordou.

Unn-Britt entrou no estabelecimento e começou a prestar assistência a uma mulher baleada no peito. Tom ajudou outra vítima, atingida por numerosos estilhaços de vidro. "Ela ajudou uma mulher que tinha levado um tiro no peito. Acho que lhe salvou a vida", afirmou Tom, referindo-se à mulher.

O casal continuou a ajudar os feridos durante algum tempo, mesmo depois de a polícia ter isolado a zona. Acabaram por ser levados à esquadra para prestar depoimento, onde permaneceram cerca de três horas. "Foi horrível. Havia imensos tiros, imensa gente e um pânico tremendo", resumiu Tom.

Cracóvia está de luto pelas seis pessoas mortas no tiroteio de sábado. Entre as vítimas mortais estão quatro polacos, um britânico e uma austríaca. Foto: Associated Press

A cidade acordou este domingo em luto. Velas e flores começaram a acumular-se junto à Praça do Mercado Principal. A Polónia decretou dois dias de luto nacional e Cracóvia prolongou o luto municipal até quarta-feira, 11 de novembro. Em Varsóvia, as autoridades reforçaram a segurança nas zonas turísticas.

Para Weronika Filar, de 27 anos, residente em Cracóvia, o ataque mudou a forma como olha para a cidade. "É genuinamente um dos lugares mais seguros do mundo. Nunca esperei que algo assim nos acontecesse", disse no domingo. "A nossa cidade nunca mais será a mesma."

Na Basílica de Santa Maria, um dos monumentos mais conhecidos de Cracóvia, aconteceu algo invulgar. O toque de trompete que habitualmente se ouve de hora a hora, a partir da torre da igreja, foi suspenso durante a noite em homenagem às vítimas.

Segundo a Associated Press, foi a primeira interrupção desta tradição desde a Segunda Guerra Mundial.

É uma melodia que faz parte da identidade da cidade. Todos os dias, visitantes param na praça para a ouvir. No sábado, porém, os sons que se ouviram naquele mesmo lugar foram os disparos de um jovem que tinha saído de casa armado, deixando para trás os corpos dos pais e da irmã.

Michał continua internado, em estado crítico, depois de ter sido submetido a várias cirurgias. A polícia mantém-no sob vigilância e os investigadores aguardam que os médicos autorizem o interrogatório. Conhecem-lhe o percurso, as armas que transportava, o clube onde treinava e as posições extremistas que lhe são atribuídas. Sabem que não tinha antecedentes criminais e que, até ao ataque, não estava identificado como uma ameaça.

Falta esclarecer o que aconteceu na casa da família, como preparou o massacre e por que razão decidiu disparar contra desconhecidos.

Nove pessoas morreram em dois locais separados por cerca de 150 quilómetros. Seis estavam numa praça de Cracóvia. As outras três conheciam o atirador desde que nasceu.

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