“Nunca pensei que isto pudesse acontecer aqui”. Em Cracóvia ainda há medo, mas já se tenta recuperar do tiroteio

Agencia EFE , DCT
Há 2h e 27min

Tiroteio em Cracóvia: “Não fazia a menor ideia de que o meu vizinho fosse um assassino”

“Um horror”. Turistas relatam dia “muito difícil” após tiroteio em Cracóvia

As investigações preliminares apontam para que o suspeito tenha agido sozinho e estivesse “fascinado pelas ideologias de extrema-direita”. Embora envergasse roupa de estilo militar, o Ministério da Defesa esclareceu que não pertencia ao Exército polaco

Os habitantes de Cracóvia e os turistas que visitam a cidade polaca tentavam este domingo recuperar do tiroteio mortal a que assistiram na véspera, na histórica Praça do Mercado. Muitos ainda não conseguiam acreditar no que tinha acontecido, num ambiente de comoção palpável em torno do centro da cidade, que permanecia isolado.

À entrada de alguns hotéis da zona, a mais turística de toda a Polónia, vários autocarros aguardavam os grupos de turistas que tinham decidido encurtar a visita à cidade, devido à sensação de inquietação que se apoderou de Cracóvia.

Turistas e habitantes em estado de choque

Carlos, um jovem das Canárias que decidiu encurtar as férias na cidade e regressar este domingo a casa, explicou à EFE que receava que a família ficasse alarmada.

“De qualquer forma, com o centro, os monumentos e os restaurantes encerrados, não faz sentido estar aqui como turista”, diz.

Ian, um dentista irlandês que, juntamente com a família, também decidiu regressar ao seu país em vez de completar a estadia em Cracóvia, contou à EFE que, “infelizmente, já não existem lugares completamente seguros na Europa”, e manifestou o receio de que haja cada vez mais “atentados sem qualquer razão, em qualquer parte”.

Malgorzata, cuja filha tem uma banca de rua onde vende obwarzanek, os tradicionais roscas da cidade, continuava em estado de choque com o tiroteio indiscriminado na praça, cometido por um polaco de 24 anos, que foi abatido por agentes da Polícia e se encontra internado num hospital da cidade, em estado crítico, segundo as autoridades.

O atirador matou seis pessoas - quatro mulheres e dois homens, incluindo dois estrangeiros: um britânico e uma mulher estrangeira cuja nacionalidade ainda não foi revelada - e feriu outras 15, cinco das quais estrangeiras.

“Nunca teria pensado que algo assim pudesse acontecer nesta cidade”, admite Malgorzata. “Sempre foi diferente das capitais, um lugar tranquilo e afastado das convulsões políticas das grandes cidades”, acrescenta.

Nas ruas adjacentes à Praça do Mercado, onde a tragédia começou às 15h00 locais (14h00 GMT) de sábado, os restaurantes e os estabelecimentos turísticos permaneciam todos encerrados este domingo. Alguns exibiam cartazes a justificar a medida “por razões de segurança”.

O centro histórico de Cracóvia é constituído maioritariamente por ruas pedonais e é habitualmente uma zona movimentada, frequentada tanto por turistas como por habitantes locais, com estabelecimentos comerciais, lojas de recordações e centenas de restaurantes.

Mas este domingo, o primeiro dos dois dias de luto nacional decretados pelas autoridades polacas, o coração histórico da cidade mais visitada do país, que recebe cerca de 15 milhões de turistas por ano, apresentava um aspeto invulgar: estava praticamente vazio, com barreiras e centenas de carros e carrinhas da Polícia a isolar o centro.

A Praça do Mercado permanecerá encerrada ao público até à conclusão das investigações. Sete procuradores estão a trabalhar na recolha e preservação de provas. Mais de 100 testemunhas já se apresentaram para prestar declarações.

Dois “heróis” no meio da tragédia

No meio de toda a comoção, os habitantes de Cracóvia e as autoridades encontraram, ainda assim, dois “verdadeiros heróis” para homenagear, nas palavras do primeiro-ministro, Donald Tusk, porque “provavelmente salvaram muitas vidas humanas, sem se preocuparem com o risco de perderem as suas próprias vidas”, afirmou na noite de sábado.

Os suboficiais Jakub Kulik e Artur Morański neutralizaram e detiveram o atirador, que irrompeu de carro na movimentada praça e disparou indiscriminadamente contra os transeuntes antes de fugir.

Os dois jovens agentes perseguiram o suspeito, tendo também sofrido ferimentos. Um deles permanece em estado grave, o que levou a Polícia a emitir este domingo um apelo urgente à dádiva de sangue.

As investigações preliminares apontam para que o suspeito tenha agido sozinho e estivesse “fascinado pelas ideologias de extrema-direita”. Embora envergasse roupa de estilo militar, o Ministério da Defesa esclareceu que não pertencia ao Exército polaco.

A gravidade do caso aumentou após a descoberta de outros três corpos sem vida - o pai, a mãe e a irmã do detido - na sua residência em Ostrowiec Świętokrzyski, a cerca de 110 quilómetros de Cracóvia. As vítimas apresentavam ferimentos provocados por disparos de arma de fogo.

Os corpos foram localizados na noite de sábado através de um drone da Polícia, depois de o edifício de habitação ter sido evacuado devido à possível presença de armas na residência.

A descoberta dos cadáveres elevaria para nove o número de mortos relacionados com a investigação e abre uma segunda linha de investigação sobre um possível crime familiar ocorrido antes do ataque na Praça do Mercado.

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