O Presidente ucraniano garante que Moscovo utilizou a suspensão dos combates em Oleshky para movimentar militares e equipamento na região de Kherson. A operação, mediada por Melania Trump, tinha permitido retirar centenas de pessoas de uma cidade ocupada pelos russos. O Kremlin não confirmou as movimentações e admitiu que ambos os exércitos podem ter aproveitado a pausa para reorganizar posições
Volodymyr Zelensky acusou este domingo a Rússia de ter aproveitado uma trégua humanitária no sul da Ucrânia para reforçar as suas posições militares na margem esquerda do rio Dniepre. O cessar-fogo, acordado no final de outubro para permitir a retirada de civis da cidade ocupada de Oleshky, foi uma das mais significativas suspensões localizadas dos combates desde o início da invasão russa, em fevereiro de 2022.
"Infelizmente, aproveitando a cobertura de uma operação humanitária em Oleshky, o Exército russo realizou uma importante rotação de pessoal e equipamento militar na margem esquerda do rio", denunciou Zelensky numa publicação na rede social X, depois de uma reunião com os responsáveis das administrações militares regionais.
Segundo o Presidente ucraniano, Moscovo aproveitou a suspensão dos combates para reforçar a presença militar na cidade e nas localidades vizinhas.
"Foram destacadas forças de ocupação adicionais para Oleshky e para a comunidade circundante", afirmou.
Zelensky exigiu ao comando das Forças Armadas ucranianas que apresente "propostas para reforçar a proteção da população de Kherson contra o terror russo".
Kherson, capital da região com o mesmo nome, situa-se a menos de dez quilómetros de Oleshky, na margem oposta do Dniepre. A cidade foi reconquistada pelas forças ucranianas em novembro de 2022, mas continua exposta aos ataques russos a partir dos territórios ocupados do outro lado do rio.
As acusações de Zelensky reforçam as que tinham sido feitas no início da semana pelo Estado-Maior ucraniano, segundo o qual as tropas russas aproveitaram a trégua para substituir unidades, reforçar posições defensivas, instalar novas estruturas de proteção contra drones e transportar munições.
O Kremlin não confirmou estas movimentações. Na segunda-feira, o porta-voz da Presidência russa, Dmitri Peskov, afirmou não ter informações específicas sobre a atuação das tropas de Moscovo durante o cessar-fogo, mas considerou provável que ambos os exércitos tivessem aproveitado a pausa para reorganizar as suas posições.
"É seguro presumir que as Forças Armadas ucranianas também utilizaram este período para se reagrupar. É uma prática normal nestas situações", afirmou Peskov, remetendo esclarecimentos sobre os movimentos russos para o Ministério da Defesa.
A trégua tinha sido negociada para permitir uma operação humanitária na cidade de Oleshky, ocupada pelas forças russas e situada numa das zonas mais perigosas da frente de combate.
A operação, que contou com a mediação da primeira-dama dos Estados Unidos, Melania Trump, e o envolvimento do Papa Leão XIV, permitiu a retirada de centenas de residentes que tinham pedido transferência para zonas mais seguras, tanto sob controlo ucraniano como russo.
De acordo com Melania Trump, perto de 800 pessoas foram retiradas da cidade durante os seis dias de cessar-fogo. O dispositivo envolveu cerca de 25 autocarros e foi antecedido por operações de desminagem das vias de acesso, necessárias para permitir a entrada de equipas humanitárias e a saída dos civis.
Também foram entregues bens essenciais aos habitantes que optaram por permanecer em Oleshky.
A operação foi considerada um sucesso humanitário por Moscovo e Kyiv. Os responsáveis pelos direitos humanos dos dois países, Dmitro Lubinets e Yana Lantratova, acompanharam o processo, tendo sido estabelecidos contactos regulares para verificar o cumprimento do acordo.
Segundo Lubinets, as partes comprometeram-se a não movimentar equipamento militar durante o período de suspensão dos combates. O responsável ucraniano afirmou que foram realizadas verificações de duas em duas horas e que, no final da operação, ambos os lados comunicaram não terem registado violações do cessar-fogo.
As acusações sobre a movimentação de tropas russas surgiram posteriormente, quando os militares ucranianos analisaram o que tinha acontecido durante a pausa.
A denúncia de Zelensky levanta agora novas dúvidas sobre a possibilidade de repetir operações semelhantes noutras regiões da frente de combate. O próprio Presidente ucraniano tinha defendido que a experiência de Oleshky demonstrava ser possível negociar tréguas humanitárias rapidamente, sem exigir a retirada prévia de armamento ou a criação de zonas desmilitarizadas.
Moscovo, porém, já indicou que não estão previstas novas suspensões localizadas dos combates nos mesmos moldes.
Para já, a operação permitiu retirar centenas de civis de uma cidade ocupada. Kyiv acusa agora a Rússia de ter aproveitado esses mesmos dias para reforçar as tropas que continuam a combater na região de Kherson.