Sem espaço, o Guggenheim vendeu um Kandinsky pelo equivalente a 55 mil euros. Agora pode render 71 milhões em leilão

CNN , Oscar Holland
Há 46 min
A venda de “Betonte Ecken” na Christie’s, ainda este mês, vai estabelecer um novo recorde de leilão para uma obra de Kandinsky.
A venda de “Betonte Ecken” na Christie’s, ainda este mês, vai estabelecer um novo recorde de leilão para uma obra de Kandinsky.

A venda de “Betonte Ecken” na Christie’s, ainda este mês, vai estabelecer um novo recorde de leilão para uma obra de Kandinsky

Cerca de 15 anos após a morte de Solomon R. Guggenheim, a fundação que geria a sua vasta coleção de arte concluiu que tinha tantos quadros de Wassily Kandinsky que já não sabia o que lhes fazer.

O falecido empresário norte-americano fora um dos mais destacados e dedicados mecenas do pintor russo. Mas, em 1964, apesar de gerir em Manhattan o museu com o seu nome, a fundação Guggenheim pôs à venda 50 das 170 obras de Kandinsky que possuía — interpretações caracteristicamente coloridas e geométricas da abstração — “por falta de espaço”.

Ao anunciar a decisão, o seu sobrinho, Harry F. Guggenheim, explicou que os administradores receavam que, de outra forma, as obras permanecessem escondidas “nas nossas reservas”, segundo notícias da época. “Concluímos que este não deve ser o destino destes quadros”, acrescentou.

Era uma intenção nobre, mas, olhando para trás, talvez tenha saído cara.


Um leilão de 1964 em que foram postas à venda 50 pinturas de Kandinsky pertencentes à Fundação Solomon R. Guggenheim. Muitas atingiram entretanto valores astronómicos nas últimas décadas. Robert Dear/AP

Num leilão realizado em Londres nesse mesmo ano, os 50 quadros renderam, no total, o equivalente a cerca de 1,34 milhões de euros. Muitas destas obras voltaram entretanto ao mercado por preços significativamente mais elevados. Agora, uma delas — “Betonte Ecken”, arrematada em 1964 por um negociante de arte de Nova Iorque pelo equivalente a apenas 55,3 mil euros, ou cerca de 481 mil euros a valores de hoje — regressa a leilão com uma estimativa entre os 53,5 e os 71,3 milhões de euros.

“O Guggenheim tinha, na altura, uma riqueza de obras impressionante”, afirmou Max Carter, responsável mundial pela arte dos séculos XX e XXI na Christie’s, a leiloeira que organiza a venda deste mês. A fundação “vendeu obras-primas extraordinárias que hoje seria impensável vender”, acrescentou, numa entrevista telefónica a partir de Nova Iorque.

“Betonte Ecken” não está apenas prestes a bater o recorde de leilão para uma obra de Kandinsky: é certo que o vai fazer. A Christie’s afirmou que um garante já confirmou uma oferta superior ao recorde de cerca de 39,7 milhões de euros estabelecido pela venda de “Murnau mit Kirche II”, em 2023.

A forte valorização da obra de Kandinsky testemunha o estatuto do artista no atual mercado da arte. Embora a sua reputação já estivesse consolidada na altura da venda do Guggenheim — quando já estava morto há duas décadas —, “Betonte Ecken” continuava, então, a ser “muito vanguardista”, afirmou Carter. “Agora tornou-se uma obra de referência”, acrescentou, descrevendo o quadro como a “quintessência” de Kandinsky.

“Betonte Ecken” vai a leilão a 17 de novembro na Christie’s, que estima um valor de venda entre os 53,5 e os 71,3 milhões de euros. Cortesia da Christie’s

“Se saíssemos à rua e pedíssemos às primeiras dez pessoas que já ouviram falar de Kandinsky para fecharem os olhos e descreverem uma das suas obras-primas, seria este quadro.”

Cor, complexidade, composição

Figura central no aparecimento da abstração na década de 1910, Kandinsky pintou “Betonte Ecken” entre dezembro de 1922 e janeiro de 1923. É um período fundamental na carreira do artista — e no movimento abstrato em geral —, do qual resultaram algumas das suas obras mais procuradas.

Depois de sete anos na sua Rússia natal, Kandinsky acabara de regressar à Alemanha, onde vivera antes da eclosão da Primeira Guerra Mundial. A sua arte entrara cada vez mais em conflito com a ideologia antiburguesa do novo regime soviético — mais tarde, também seria classificado como degenerado pelos nazis —, pelo que aceitou um convite para ensinar teoria na célebre escola Bauhaus, em Weimar.

Pintado pouco depois da sua chegada, “Betonte Ecken” exemplifica a abordagem profundamente teórica de Kandinsky à forma e à geometria. A complexidade, a cor e a composição do quadro “sintetizam tudo o que veio antes”, afirmou Carter. “Para alguns colecionadores, este é o seu melhor e mais importante período”, acrescentou.

O quadro também reflete a influência da música na obra de Kandinsky. O artista decidiu seguir uma carreira artística depois de assistir a um concerto com música de Wagner no Teatro Bolshoi, em Moscovo, em 1896. “Vi todas as minhas cores na minha mente; estavam diante dos meus olhos”, escreveu mais tarde sobre essa experiência. “Linhas selvagens, quase loucas, desenhavam-se à minha frente.” Além de apresentar linhas negras que fazem lembrar as de uma partitura, “Betonte Ecken” também é “sinfónico” num sentido menos literal, explicou Carter.

O pintor russo Wassily Kandinsky é considerado uma figura central na história da arte abstrata. Hugo Erfurth/Heritage Images/Hulton Archive/Getty Images

“Quando estamos diante deste quadro, a relação entre todas estas formas e elementos díspares — que, nas mãos de um artista menos talentoso, seriam caóticos, confusos e talvez incoerentes — é extremamente harmoniosa”, afirmou. E acrescentou: “O essencial é a relação das formas entre si.”

Pintado numa tela quadrada com cerca de 1,3 metros de lado, “Betonte Ecken” — em alemão, “Cantos acentuados” — é invulgarmente grande para um Kandinsky. A relativa escassez das suas obras também influenciou o seu valor, afirmou Carter.

Em comparação com os seus contemporâneos, Kandinsky não foi especialmente prolífico. Embora não exista um número exato para a sua produção, um catálogo raisonné — uma compilação académica das obras conhecidas de um artista — enumera menos de 1.200 pinturas a óleo. Em contrapartida, um dos catálogos raisonnés de Pablo Picasso reúne mais de 16 mil pinturas e desenhos. Muitas dessas obras de Kandinsky pertencem a instituições que, hoje, nem sequer ponderariam vendê-las.

Entre essas instituições continua a estar o Guggenheim, que entretanto adquiriu novas obras de Kandinsky e possui atualmente mais de 150. O museu pode ter perdido do seu património obras-primas no valor de milhões de euros, mas conservou aquelas que podem ser consideradas as suas obras mais emblemáticas, incluindo a célebre “Komposition VIII”. Como afirmou o sobrinho do grande colecionador antes da venda de 1964, a fundação apenas levou a leilão quadros que podiam “razoavelmente ser vendidos sem diminuir o prestígio da coleção permanente do museu”.

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