Isaac Herzog entregou ao líder da oposição a missão de formar um novo executivo, depois de as legislativas de 27 de outubro terem deixado o Parlamento sem uma maioria clara. Os partidos árabes podem ser decisivos, mas há quem recuse depender deles. A alternativa passa por acordos com a direita ou com os ultraortodoxos, antigos aliados de Netanyahu
Gadi Eisenkot tem até 6 de dezembro para tentar formar um Governo em Israel. O líder da oposição recebeu este domingo do Presidente Isaac Herzog a missão de encontrar uma maioria parlamentar, depois de ter reunido o apoio de 67 dos 120 deputados do Knesset. O problema é que esses 67 apoios não significam que todos estejam dispostos a integrar, ou sequer a sustentar, o mesmo executivo.
Eisenkot dispõe de 28 dias para negociar uma coligação e poderá pedir ao Presidente uma prorrogação de mais 14 dias, até 20 de dezembro. Se falhar, Herzog poderá entregar a missão a outro deputado, eventualmente Benjamin Netanyahu, que teria outros 28 dias, sem possibilidade de prolongamento.
Se também essa tentativa fracassar, abre-se um último período de 21 dias, durante o qual pelo menos 61 deputados poderão propor outro candidato. Esgotadas as possibilidades de formar Governo, Israel poderá ser chamado novamente às urnas, pela sexta vez desde 2019.
Até lá, Netanyahu continuará a liderar o executivo em funções.
As contas parlamentares explicam a dificuldade. O bloco da oposição, composto pelo Yashar!, de Eisenkot, pelo BeYahad, de Naftali Bennett e Yair Lapid, pelos Democratas e pelo Yisrael Beitenu, de Avigdor Lieberman, soma 48 deputados, longe dos 61 necessários para uma maioria absoluta.
Os restantes apoios terão de ser encontrados fora deste conjunto de partidos. Uma possibilidade passa pelos 19 deputados das duas formações árabes, que recomendaram Eisenkot ao Presidente.
A Lista Conjunta, com 11 lugares, admite apoiar um Governo sem integrar o executivo. O partido islamita Raam, de Mansour Abbas, que elegeu oito deputados e já participou na coligação liderada por Bennett e Lapid em 2021, também manifestou disponibilidade para colaborar.
Mas Eisenkot prometeu durante a campanha formar um "Governo sionista", e alguns dos seus aliados, nomeadamente Lieberman, recusam depender dos partidos árabes. Netanyahu já classificou como ilegítima a possibilidade de a oposição chegar ao poder com esse apoio, acusando as duas formações de simpatias pelo Hamas.
A legislação israelita, contudo, não exige necessariamente que um novo Governo receba 61 votos favoráveis na votação de confiança parlamentar. Basta que tenha mais votos a favor do que contra, o que abre a possibilidade de um executivo minoritário sustentado por acordos externos.
Outra hipótese passa pelos sete deputados do Judaísmo Unido da Torá, formação ultraortodoxa que se absteve de recomendar qualquer candidato ao Presidente. O partido admite negociar, mas exige garantias para a manutenção das dispensas do serviço militar de que beneficia a comunidade ultraortodoxa.
É uma exigência difícil de conciliar com uma das principais promessas de Eisenkot: tornar obrigatório o serviço militar ou civil para todos os cidadãos.
O líder da oposição também convidou este domingo o Likud, de Netanyahu, e o Sionismo Religioso a integrarem um "Governo de emergência nacional" sob a sua liderança. Ambas as formações rejeitam, por enquanto, participar num executivo que não seja liderado pelo atual primeiro-ministro.
Durante as consultas presidenciais, Herzog chegou a colocar em cima da mesa uma solução de partilha do poder entre os dois blocos, mas o Yashar! recusou a proposta.
As negociações decorrem ainda sob a sombra de uma investigação do Shin Bet, o serviço de segurança interna israelita, a suspeitas de financiamento estrangeiro destinado a influenciar as eleições. O responsável pelo organismo, David Zini, pediu autorização para interrogar dirigentes dos partidos árabes, embora não tenham sido apresentadas publicamente provas que sustentem as suspeitas.
Antes de fechar acordos, a oposição pretende testar a sua força no Parlamento, começando pela substituição do presidente do Knesset, Amir Ohana, do Likud. O partido de Eisenkot anunciou também que pretende negociar primeiro com os parceiros mais próximos e alargar depois os entendimentos, por fases.
"Vamos recorrer a medidas políticas criativas e pouco habituais", prometeu Eisenkot este domingo.
O antigo chefe das Forças Armadas israelitas enfrenta agora uma tarefa que o resultado eleitoral, por si só, não resolveu: transformar uma maioria de deputados que quer afastar Netanyahu numa maioria capaz de governar sem ele.