Uma bactéria que gosta de "densidade populacional" e uma mesa farta com enchidos e muito sal. Metade dos cancros do estômago são diagnosticados no Norte

6 mai, 07:00
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Há décadas que há uma maior e mais destacada incidência de cancro do estômago nos distritos a Norte, mas os especialistas dizem que é difícil apontar o dedo a uma causa única

Um em cada dois cancros do estômago são diagnosticados no Norte do país. E embora não haja uma explicação exata para o fenómeno, há três fatores que se têm mostrado determinantes para que 48% dos casos sejam diagnosticados nesta região do país.

Leopoldo Matos, médico gastroenterologista há mais de três décadas, diz que “durante muito tempo, pensou-se que teria a ver com o tipo de alimentação”, algo que, adianta, ainda está em cima da mesa por causa dos “fumados e salgados”. Uma eventual causa genética também foi estudada, “mas só 10% dos tumores do estômago é que têm alguma agregação familiar, havendo muito poucas famílias com código genético em que é dominante o cancro do estômago face a outros cancros”. “Não há uma razão óbvia”, atira, dizendo que o maior número de cancros do estômago no Norte pode ter a ver “com o meio ambiente e familiar”, lamentando que “não houve estudos” suficientes para traçar uma (ou mais do que uma) causa concreta.

Com a exclusão do cancro da mama e dos cancros exclusivos de cada sexo, o cancro do estômago é o quarto mais comum em Portugal. Dos 2.615 novos casos diagnosticados, 1.280 foram no Norte, seguindo-se 394 casos na Área Metropolitana de Lisboa, 296 na região centro, 121 no Alentejo, 70 no Algarve, 18 na Madeira e apenas seis nos Açores. Mas olhando por distritos, Viana do Castelo, Braga e Porto destacam-se com 39% do total de novos casos de cancro do estômago, segundo os mais recentes dados do Registo Oncológico Nacional (RON) 2020, divulgados no ano passado e referentes a 2020.

No quadro geral do cancro do estômago, há quatro aspetos fundamentais para o aparecimento da doença: a infecção pela Helicobacter pylori, o sal, o álcool e o tabagismo”, aponta o médico Pedro Narra Figueiredo, presidente da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia.

Embora estes sejam os denominadores mais comuns do cancro do estômago, José Carlos Machado, professor na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e investigador no i3S, destaca que, “historicamente, o que distingue o Norte e o Sul é a prevalência da Helicobacter pylori, mas ninguém sabe muito bem o porquê dessa prevalência”.

A bactéria dos 'pobres'

Diogo Libânio, assistente hospitalar de Gastrenterologia no IPO do Porto e professor assistente na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, diz que “70% a 90% dos cancros gástricos estão relacionados com a Helicobacter pylori, e Portugal é um país com elevada prevalência desta bactéria”. “Nos estudos no início do milénio éramos o segundo país do mundo”, acrescenta.

A Helicobacter pylori, bactéria localizada na mucosa gástrica, foi identificada em 1982 e descrita como a “bactéria dos pobres”, tendo durante vários anos mostrado um Portugal a dois ritmos no que toca à riqueza e pobreza e, por consequência, à melhor e pior condição de vida, habitação e saneamento. “A Helicobacter pylori está associada a menores condições sanitárias, a estratos socioeconómicos mais desfavoráveis e o Norte, como um todo, é uma região mais pobre. E termos lá uma incidência mais elevada faz com que a infecção perpetue”, explica o também membro da Sociedade Portuguesa de Endoscopia Digestiva (SPED).

Se recuarmos 100 anos, a infecção por Helicobacter pylori era hiper prevalente em todo o mundo, por isso o cancro do estômago era o cancro mais frequente do mundo. Em muitos países, a infecção diminuiu espontaneamente, foi um triunfo não planeado. E tal pode dever-se à introdução de hábitos de higiene melhores e ao saneamento e esgotos. Mas nos países do sul da Europa isso demorou a acontecer. Portugal ainda está atrasado, mas estamos no caminho da diminuição desta infecção. E a densidade populacional é maior no Norte e quando são coisas infecciosas é mais fácil acontecer lá, tal como a tuberculose”, explica José Carlos Machado.

A infecção por esta bactéria - incluída em 2021 na lista de agentes carcinógenos pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos - é adquirida durante a infância e “está intimamente relacionada com más condições higieno-sanitárias”, como explica o site Metis, da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, que revela que, em 2013, a prevalência da infecção era de 80% em toda a população portuguesa. A prevalência da infecção por Helicobacter pylori durante os períodos de 2010 a 2022 em Portugal foi classificada como “alta” no estudo publicado este ano na Gastroenterology. Mas Diogo Libânio diz que Portugal está no caminho certo e que a prevalência desta bactéria está a diminuir, estando fixada no “50%”.

A CNN Portugal tentou obter junto do INSA dados sobre a incidência da Helicobacter pylori em Portugal, mas não obteve qualquer resposta em tempo útil.

A comida à moda do Norte

Carne vermelha, enchidos, fumados e vinho são comuns numa mesa nortenha farta, mas são também comummente associados a hábitos alimentares que podem potenciar o risco de cancro de estômago. Pedro Narra Figueiredo apressa-se a associar os enchidos ao sal e a alertar para o facto de que “os enchidos não fazem parte da dieta mediterrânica”. E lembra ainda que a carne vermelha e a carne processada foram, em 2015, classificadas pela Organização Mundial da Saúde como potencialmente cancerígena e cancerígena, respetivamente.

“Quanto ao maior consumo de carnes e enchidos, típicos da gastronomia nortenha”, apesar de defender que a alimentação tem um “efeito francamente menor” do que a Helicobacter pylori, o investigador José Carlos Machado diz que “o consumo excessivo de sal e os fumados” podem, de facto, ser gatilhos para a doença, sendo que, neste último tipo de alimentos, em causa está a nitrosamina, encontrada em carnes curadas, cerveja e outras bebidas alcoólicas. Este composto químico pode ser genotóxico (danifica o ADN) e cancerígeno (pode causar cancro). Ainda assim, José Carlos Machado destaca que o impacto da alimentação no cancro do estômago “é difícil de medir”.

O sal é outro elemento gastronómico colocado nesta equação. Embora o seu consumo seja generalizado em todo o país, no Norte ainda é comum a salmoura e o uso deste ingrediente para conservar alimentos. 

Em 2022, um dos vários estudos do Stomach cancer Pooling (StoP) Project - um consórcio que conta com investigadores portugueses - focou-se no impacto do sal e concluiu que “a preferência pelo sabor salgado, usando sempre sal de cozinha, e uma maior ingestão de alimentos com alto teor de sal e conservados de sal aumentaram o risco de cancro gástrico”.

Tendência é para que haja mais casos

Segundo a Agência Internacional de Pesquisa do Cancro (IARC), em 2045 Portugal terá mais 24,6% novos casos de cancro no estômago, com mais de 4.500 diagnósticos anuais. O estilo de vida sedentário, a má alimentação e o tabagismo são apontados como gatilhos para este cenário (e para outros tipos de cancro), mas o médico Diogo Libânio destaca ainda a obesidade, dizendo que se tem notado “um aumento” do número de cancros gástricos relacionados com o excesso de peso e com o refluxo (também ele possível consequência da obesidade). Por isso mesmo, diz que o peso deve ser incluído na estratégia de prevenção primária do cancro, na qual se incluem também “reduzir o consumo de sal, evitar o tabaco e consumir mais legumes e frutas”.

Mas é no rastreio precoce que pode estar a chave para baixar a taxa de mortalidade, que, segundo o RON 2020, situa-se nos 81% - embora se verifique uma descida, como assinalam os especialistas entrevistados pela CNN Portugal. O programa do atual Executivo quer alargar os rastreios ao cancro gástrico (além do pulmão e da próstata), uma proposta que já constava no Orçamento do Estado para 2024, ainda tutelado por António Costa, e que tem por base uma recomendação da Comissão Europeia. 

“Com a grande incidência de cancro do estômago que temos no nosso país, e que é mais do que no resto da Europa, faz sentido ter alguma atenção”, adianta Pedro Narra Figueiredo. Em declarações à CNN Portugal a propósito dos 50 anos do IPO Porto, Rui Henrique, diretor desta unidade, adiantou mesmo que esta “incidência [no Norte] acaba por ser uma das maiores do mundo”.

Neste cancro concreto, a realização de endoscopias poderá ter um “custo efetivo e benéfico”, podendo ser associada à colonoscopia de rastreio do cancro colorretal, indica o médico Diogo Libânico, explicando que as endoscopias de alta qualidade que já são feitas em Portugal poderão detetar precocemente tumores que podem vir a ser tratados, “evitando cirurgias” e reduzindo até a taxa de mortalidade.

O Centro de Investigação do Instituto Português de Oncologia (IPO) do Porto está a desenvolver ferramentas para a deteção precoce do cancro gástrico e colorretal através do projeto TOGAS. Diogo Libânio não consegue “estimar com certeza” quantos novos cancros do estômago poderiam ser encontrados precocemente com a inclusão deste rastreio, mas fala-nos dos países asiáticos como um bom exemplo: “Nos países sem rastreio, a taxa de cancros precoces ronda os 5-10%, nos países asiáticos com rastreio a taxa de cancro precoce é de 50%.”

Pedro Narra Figueiredo considera que o rastreio deve ser dirigido “às pessoas com fatores de risco e lesões no estômago”, apontando que “há estudos que sustentam que vale a pena, sob o ponto de vista da saúde das pessoas, fazer rastreio com endoscopia digestiva alta ligado ao rastreio do cancro do intestino”.

Já quanto ao exame de deteção da Helicobacter pylori, há já um programa de deteção da infecção a decorrer na Ilha Terceira, nos Açores, mas o presidente da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia diz que o teste não tem de ser generalizado, mas deve começar a ser implementado com mais celeridade em “pessoas com mais de 65 anos e sintomas súbitos” ou em “pessoas com sintomas de gastrite, má digestão, com dores à noite e perda de peso”.

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