Ex-FC Porto ponderou deixar o futebol: «Senti-me perdido e inútil, a paixão desapareceu»

22 jun, 12:16
Danilo, capitão do Brasil (John Dorton/ISI Photos/USSF/Getty)

Danilo lidou com uma depressão durante a primeira temporada no Real Madrid, contando com o apoio de psicólogos, e dos filhos, para agarrar novas oportunidades

Na antecâmara da estreia do Brasil na Copa América, Danilo abriu o livro e escreveu uma carta «para a torcia brasileira». Desprovido de filtros, um dos capitães do Brasil começou por escudar o grupo das críticas.

«Ninguém sabe o quanto abdicamos para estar aqui. Abrimos mão de tudo. Acompanhamos o que vem sendo dito a nosso respeito. Tenho aproveitado o período de preparação da Copa América para reforçar que a única maneira de mudar a nossa imagem será entregando-nos de corpo e alma», escreve, no «Player’s Tribune».

Delimitando uma «barreira» entre jogadores e adeptos, Danilo recordou momentos de angústia: «Há muitos momentos em que as pernas simplesmente não funcionam. Acordas e sentes algo depressivo, que todos te odeiam».

Aproveitando o embalo, Danilo revela a fase mais complicada no Real Madrid, onde jogou entre 2015 e 2017.

«Durante a primeira temporada, fiquei deprimido. Estava perdido, sentia-me inútil. No campo, não conseguia fazer um passe de cinco metros. Fora, era como se não me conseguisse mexer. A paixão pelo futebol desapareceu. Queria voltar para o Brasil e nunca mais jogar. Via-me como o Danilo, que tinha “assinado contrato de 31 milhões de euros”, como noticiavam os jornais, o defesa mais caro do Real Madrid», descreve.

A gota de água caiu numa partida diante do Alavés, quando o lateral perdeu a bola para Theo Hernández, que cruzou para o golo de Deyverson. Ainda que os «Merengues» tenham triunfado por 4-1, Danilo passou a noite seguinte «sem dormir».

«Escrevi no meu caderno: acho que é hora de abandonar o futebol. Tinha 24 anos. Que parte de mim sentia pressão? O rapaz que tinha sido revelação no FC Porto? Ou o menino de Bicas que, de repente, tinha assinado com a maior equipa do mundo? A resposta foi clara. Por dentro, era, e serei sempre, o menino de Bicas», assume.

Apostado em «engolir o sapo», o defesa guardou a angústia em segredo, apesar da ajuda de Casemiro. Meses mais tarde, Danilo começou a consultar um psicólogo.

«Salvou a minha carreira. A lição mais importante foi ver o jogo através dos olhos de uma criança. Então, deixei de me ver como Danilo, o jogador de 31 milhões de euros. Preciso de fazer agradecimentos: aos meus terapeutas e aos meus dois meninos, os meus filhos», remata.

Sem «romantizar as dificuldades», o lateral sabe que não impressionará a geração mais velha, do pai. Até porque, como conta, tem a vida bastante facilitada: «Se o meu chuveiro estiver um pouco quente demais, pego no telefone e, de repente, estão 10 pessoas na minha casa com chaves inglesas».

Para Danilo, este é perigoso aspeto que afasta as pessoas da sua «essência», das raízes e do sentido da vida. Aliás, o brasileiro, de 32 anos, recupera a paz junto dos filhos.

«Nunca esquecerei quando voltei a casa depois de perdermos com a Croácia no Mundial de 2022. Eles entram na sala e o João [o mais novo, então de 3 anos] diz: “Eu sei que o Brasil perdeu”. Então, comecei a chorar, porque senti que tinha dececionado os meus filhos, assim como todo o país. Mas, o Miguel [então com 7 anos], foi à cama e disse: “Tudo bem, pai. Eu sei que deste o teu melhor”. Às vezes, precisamos mais dos nossos filhos do que eles de nós», reitera.

Foi este o «ponto de virada» para Danilo, o recarregar de energias para novos capítulos. Reforçou as consultas com os terapeutas, dedicou-se à leitura e ao aprimorar da liderança.

«Quando recebi a braçadeira da Juventus foi uma grande honra. Mas, quando ganhei a braçadeira do Brasil foi algo totalmente diferente. Uma honra imensa, incomparável. Pensei: “Não importa o que aconteça, posso morrer feliz”», narra.

Quanto ao futuro e à Copa América, o lateral revela-se entusiasmado, sobretudo à boleia da nova geração.

«Acho que todos nós poderíamos aprender algo com os mais jovens, como o Endrick, o caçula do grupo. Ele ainda é uma criança. Olho para o rosto dele e penso: “Estou velho!”. Quase não sabia como falar com ele enquanto tomávamos café», partilha.

Em todo o caso, o defesa sabe a receita para o sucesso da «Canarinha».

«A Copa América é uma grande oportunidade para mostrar que o grupo entende o peso da camisola. Temos de jogar como se estivéssemos lutando pela conquista de uma carreira profissional. Estamos aqui para competir pela Copa América», termina.

A estreia do Brasil na Copa América está agendada para a madrugada desta terça-feira, às 02h, ante a Costa Rica. No Grupo D, contam com a companhia de Paraguai e Colômbia.

Relacionados

Brasil

Mais Brasil

Mais Lidas

Patrocinados