Euro 2024: Scolari viaja no tempo, aposta em Portugal e aborda futuro

18 jun, 09:00
Scolari, no Euro 2004 (AP Photo/Armando Franca)

Em 2006, o outrora selecionador nacional foi feliz em Marienfeld, durante o Mundial. Por isso, refere a cidade como mote para uma campanha de sucesso no Europeu deste verão. Longe no mapa, mas com o país no coração, Scolari anseia um verão memorável para Portugal. Em simultâneo, garante que a carreira ainda conhecerá novos capítulos

Bandeiras nas varandas, nos quiosques e nas janelas dos carros. Lojas esgotadas, ora de cachecóis, ora de bandeiras, ora ainda de lápis para pintar a cara.

20 anos, no Euro 2004, Portugal já havia triunfado sobre a Rússia (2-0), depois da primeira derrota ante a Grécia. Aliás, faltava uma semana para o duelo com Inglaterra, nos quartos de final.

O frenesim nas ruas, nos cafés e nas televisões foram acompanhados a compasso por jovens vozes que apelavam à «Força» ou a «Menos Ais». O mote foi entregue por uma geração promissora, assim como por um campeão do mundo, de seu nome Luiz Felipe Scolari.

«Boa tarde, está ouvindo? Vou virar o telemóvel para me ver melhor», escuta-se, enquanto a tela do computador se anima com o sorriso de «Felipão».

A poucas horas da estreia de Portugal no Euro 2024, ante a Chéquia, o Maisfutebol atravessou o Atlântico para conversar com o antigo selecionador nacional sobre o torneio. Aos 75 anos, Scolari continua atento à seleção portuguesa, na qual guarda amigos.

«Dos jogadores continua o Rui Patrício, Cristiano, Pepe, Ricardo Carvalho – como adjunto – e o Ricardo – o maluco, que defende penáltis sem luvas», começa por anotar.

Scolari e Ricardo, a 24 de junho de 2004, no Europeu, depois de Portugal eliminar Inglaterra, nos penáltis

Antes de revelar expectativas para a campanha das «Quinas», o treinador recorda que, em 2008, Portugal também disputou o grupo com Chéquia e Turquia, além de Suíça.

«Enfrentarão dificuldades, mas, nestes torneios, o primeiro jogo marca a sequência, porque, vencendo na estreia, obrigamos os adversários a adotarem outras estratégias. Em 2004, perdemos na estreia e corremos atrás dos objetivos. Já em 2008, ao vencer a Chéquia, poderíamos jogar a segunda partida mais tranquilos. É isso que espero de Portugal, uma postura dominadora», analisa.

Todavia, esta dinâmica não é linear, como se viu há 16 anos.

«Ganhamos na primeira e segunda jornada, mas perdemos com a Suíça, o que nos levou a disputar os “quartos” com a Alemanha. Preparamos a competição, mas muitas vezes não dá certo», recorda.

Scolari no Portugal-Turquia, no Europeu de 2008

Sobre os adversários de Portugal no Grupo F, Scolari reconhece que a seleção turca «cresceu» desde 2002, quando atingiu as meias-finais do Mundial, saindo de cena pela mão do Brasil de «Felipão».

Em todo o caso, reforça, a partida com a Chéquia será a mais «exigente», pelo facto de se tratar da estreia.

«As expectativas estão acima daquelas criadas em 2004»

Para Scolari, Portugal é candidato à conquista do Europeu, a par de França, Espanha, Alemanha e Inglaterra.

«Espero um excelente Euro. Portugal está muito bem servido, a começar por um excelente guarda-redes [Diogo Costa]. Depois, o Rúben Dias é um central muito bom. Na frente, o Rafael Leão fará a diferença quando solicitado. Então, o Cristiano nem se fala, está de novo em alta. Os restantes jogadores – que são muito bons, como o meu amigo Pepe – dão muita segurança», detalha.

Não obstante, o treinador teme expectativas frustradas e memórias amargas.

«As expectativas estão acima daquelas criadas para a equipa de 2004. Um grupo com Figo, Pauleta, Ricardo, Cristiano, Costinha, Maniche, Ricardo Carvalho…Era de luxo. Agora, há uma grande equipa, mas, gente, não “cobrem” dos jogadores mais do que o normal. Nas eliminatórias, há que ir passo a passo», alerta.

No radar deste mestre do jogo permanece – naturalmente – Cristiano Ronaldo, o «menino que corria muito pelo corredor», e que evoluiu para o «homem centralizado e finalizador».

Afinal, que papel terá o capitão na era de Roberto Martínez?

«Ronaldo é inteligente para se posicionar nessa nova posição, no meio, numa renovada função, muitas vezes puxando a bola para dentro. E o Roberto Martínez é muito inteligente, extraindo o melhor do jogador. O Cristiano Ronaldo leva 14 golos em Europeus, e espero que continue a somar», acrescenta.

Regresso a Marienfeld

Depois de conquistar o Mundial em 2002, pelo Brasil, Scolari estreou-se em Portugal no ano seguinte, juntando o segundo lugar no Euro 2004 ao quarto posto no Mundial de 2006.

Tal como por estas semanas, a cidade de Marienfeld também serviu de «quartel-general» à seleção nacional naquele verão. Neste capítulo, o livro de memórias de Scolari guarda amigos e anónimos simpáticos.

«São as melhores memórias na minha carreira, porque fomos recebidos por uma comunidade de emigrantes maravilhosa. Na cidade fomos muito bem recebidos, tratados com uma gentileza fora do comum, inclusive pelos alemães», recorda, com emoção.

O objetivo dos germânicos passava, prossegue Scolari, por replicar a calorosa receção de 2004, aspirando a desenvolver «a vibração e o entusiasmo» luso.

«Foram semanas marcantes. Continuo amigo do dono do hotel. Não sei se mudou, entretanto. Nunca esquecerei. A escolha de Marienfeld foi acertada. Portanto, espero que, desta vez, Portugal vá além das meias-finais», remata.

O futuro, a família e a Copa América

Depois de deixar o comando técnico do Atlético Mineiro em março, ao cabo de 41 partidas, Luiz Felipe Scolari não descarta um novo ciclo, sobretudo se a proposta surgir do Médio Oriente.

«Pondero voltar ao ativo, principalmente na Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos ou Qatar. Algo fora do Brasil, ainda que não descarte essa hipótese», revela.

Assim, permanece aberta a possibilidade de abraçar a 21.ª equipa, depois de acumular currículo entre Brasil, Inglaterra, China, Uzbequistão, Kuwait, Arábia Saudita e Japão, além das duas seleções.

Entre risos, ressalva que regressará a Portugal, a fim de «matar as saudades» da família. Ansioso por relaxar, no verão, o treinador não descura o estudo futebolístico. Como tal, mostra-se apto para analisar a Copa América.

«Dorival está a fazer uma boa renovação, dentro de uma forma de jogar diferente. O Brasil deverá ser um dos semifinalistas. Não com tranquilidade, porque há sempre algo a atrapalhar. Mas, o Dorival está a fazer um bom trabalho. A união voltou ao grupo e o ambiente parece ser muito bom. Por isso, acredito bastante na seleção», argumenta.

Desprovido do bigode que marcou gerações, Scolari guarda Portugal num lugar especial do coração, pelas memórias de oito anos e pelo carinho que prevalece.

«Obrigado a Portugal pelo carinho de sempre. Vamos “torcer” juntos. Estarei sempre a “torcer” por Portugal», termina, com um sorriso de orelha a orelha.

Ora, a seleção nacional estreia-se no Euro 2024 na noite deste terça-feira, diante da Chéquia, a partir das 20h.

No Maisfutebol poderá acompanhar, ao minuto, o encontro em Leipzig, com reportagem em direto. Em simultâneo, levamos até si o diário da seleção portuguesa, com reportagem desde Marienfeld, Leipzig e por onde as «Quinas» passarem.

Por fim, e até 14 de julho, acompanharemos todas as partidas do Euro 2024, ao minuto, seguidas de crónicas, imagens, prémios e reações.

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