PS põe "a carne toda no assador" e arrisca ao "empurrar a AD" para o Chega (que já conseguiu o que queria)

9 fev, 14:43
Vasco Cordeiro (Eduardo Costa/Lusa)

Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro correm os dois riscos após as eleições açorianas. E isso pode ter consequências nas legislativas

O PS acaba de “por a carne toda no assador” nos Açores. Esta é a visão do politólogo João Pacheco sobre o anúncio da não viabilização de um governo minoritário da Aliança Democrática (AD) naquela Região Autónoma. Uma decisão que é regional, sim, mas que nunca poderia ter sido tomada sem o conhecimento e coordenação com PS nacional, diz à CNN Portugal o também professor universitário.

E se a expressão é utilizada nos relatos de futebol, o que Pedro Nuno Santos quer não é marcar um golo. A ideia com esta “jogada arriscada” passa antes por “empurrar a AD para uma decisão que não quer tomar”, continua João Pacheco.

“O PS obriga a AD a entender-se com o Chega, porque a direita prefere entender-se com o Chega do que ir novamente a eleições e perder a oportunidade de governar”, explica, dizendo que a outra solução, a ida a novas eleições, “pode dificultar a vida a todos”.

Paula do Espírito Santo entende mesmo que o PS “não tinha grandes opções”. Acabou por fazer uma jogada de antecipação, sobrepondo a divisão que se começava a notar internamente em relação à questão – Francisco Assis ou Adalberto Campos Fernandes são contra esta solução, por exemplo.

Lembrando que em último caso esta seria sempre uma decisão regional, a professora universitária diz que “a última palavra seria sempre de Vasco Cordeiro”, líder do PS regional que sempre se mostrou a desfavor de deixar passar um governo minoritário de José Manuel Bolieiro.

Riscos nacionais de Pedro Nuno e Montenegro

Esta jogada do PS é arriscada, reconhecem os especialistas consultados pela CNN Portugal, mas marca o momento e uma definição clara de Pedro Nuno Santos, que mostra assim que não quer ficar para segundo plano.

“Acaba por estar sujeito às circunstâncias do momento, definidas pela AD, e em segundo lugar pelo PS, que se demarca por uma questão de consistência eleitoral e não se deixa arrastar ou condicionar”, refere Paula do Espírito Santo, sublinhando que uma posição tardia do PS podia significar uma “colagem” à votação do Chega.

João Pacheco lembra que ambos os líderes nacionais de PS e PSD vão colocar sempre o ónus da decisão nas regiões. Em último caso são Vasco Cordeiro e José Manuel Bolieiro a assumir as responsabilidades, uma vez que se trata de uma decisão regional.

Apesar disso, o politólogo lembra que estas decisões são sempre concertadas: “Fazem isto sempre em coordenação com os órgãos nacionais. Quem cala consente, há sempre uma responsabilidade nacional”.

O problema para Pedro Nuno Santos são as legislativas. Esta decisão pode dar legitimidade à AD para não viabilizar uma minoria socialista após 10 de março. O PS “fica sem o argumento de exigir como moeda de troca o mesmo, mas preferiu por a carne toda no assador, para obrigar AD e Chega a entenderem-se e dificultar a vida política a Montenegro.

Paula do Espírito Santo também reconhece o risco da jogada socialista, mas vê nele uma manobra calculada. “O risco existia sempre, internamente as próprias hostes da AD nunca se inclinariam muito a uma solução de acordo ou entendimento do PS. A AD nunca se comprometeu com essa solução, poderá não perder muito”, refere.

Quanto a uma possível situação de refém do Chega, a professora universitária diz que Montenegro “vai demarcar-se sempre”, porque é possível encontrar uma “retórica e argumentação para se desligar do Chega”. Caso contrário o partido de André Ventura pode ser uma “arma de arremesso” do PS.

“O entendimento entre a AD e o Chega pode não ser conclusivo até 10 de março. O PSD pode arrastar esse processo, mas não será fácil manter negociações escondidas. No entanto, mesmo não vencendo eleições, o PS definiu uma estratégia e influenciou o PSD a tomar uma decisão que não gostaria de ter de tomar”, sublinha João Pacheco.

O Chega queria, o Chega conseguiu

O problema é que Luís Montenegro “deixou de falar em linhas vermelhas”. O presidente do PSD repetiu várias vezes que não se vai aliar ao Chega para formar um governo nacional, mas João Pacheco nota que esse foi um tema que desapareceu da agenda.

Para João Pacheco este cenário é “tudo o que o Chega quer”: provar que os partidos do sistema não têm capacidade e estabilidade para governar.

“O Chega quer provar à AD que, perante os olhos dos eleitores, o PS não contribui para a solução”, indica o politólogo, vendo na posição do partido de André Ventura uma “grande preponderância”, mesmo que tenha conseguido apenas cinco dos 57 mandatos nos Açores.

O especialista diz mesmo que o Chega vai pegar neste exemplo e olhar a nível nacional para o “catapultar e pedir mais votos” nas legislativas, tentando mesmo ir buscar votos a alguns indecisos do centro.

Paula do Espírito Santo concorda. Esta decisão do PS dá o “protagonismo que o Chega procura sempre”, conseguindo assim mostrar-se como uma “força política que condiciona”.

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