Gouveia e Melo revela que aconteceram “situações desagradáveis” com navios e aviões russos em Portugal. E sublinha: estamos prontos “para morrer” pela Europa

CNN Portugal , AM com Lusa
15 mai, 07:25
Entrevista ao Chefe de Estado-Maior da Armada, Almirante Gouveia e Melo (JOSE SENA GOULAO/Lusa)

REVISTA DE IMPRENSA || Chefe do Estado Maior da Armada defende, sim, "um modelo que permita uma mobilização rápida para os nossos jovens em caso de termos que nos defender"

Gouveia e Melo, chefe do Estado Maior da Armada, considera que a Europa está "perante um momento difícil" porque "a invasão que a Federação Russa fez a um país independente, que é a Ucrânia, veio mudar o comportamento internacional".

Na entrevista à TSF e ao Diário de Notícias, o almirante Gouveia e Melo diz que "essa mudança pode ser de tal forma estruturante que pode destruir as bases que temos hoje".

"Destruindo essas bases, tudo o que hoje consideramos como garantido, que é a segurança na Europa, a NATO, a União europeia, que são pilares essenciais para a nossa segurança e para a nossa prosperidade, podem ser postos em causa”, refere.

No entanto, revela que não defende "o modelo do serviço militar obrigatório antigo", mas sim "um modelo que permita uma mobilização rápida para os nossos jovens em caso de termos que nos defender".

"Estamos perante um momento difícil na Europa e não posso olhar para a área militar como se fosse uma pequena bolha, neste caso a Marinha, que é uma bolha muito tecnológica, e achar que a solução daquela pequena bolha é o paradigma de todas as soluções. Tenho de pensar de uma forma mais alargada. A Europa, os Estados Unidos e outros países, mas mais a Europa, criou um sistema de forças armadas profissionalizadas. Ao fazer isso, o que é que fez? Reduziu muito o conhecimento na sociedade do que são as atividades militares. Portanto, se houver 30 mil pessoas na sociedade portuguesa, atualmente, úteis para a defesa, se calhar é muito. E, ao fazer isso, dificulta uma mobilização em caso de necessidade. Portanto, o que defendo é que temos de ter um modelo que permita uma mobilização rápida para os nossos jovens em caso de termos que nos defender", afirmou, acrescentando: "O modelo que defendo é uma discussão pública para olharmos para o problema que está aqui à nossa frente e, olhando para esse problema, encontrarmos uma solução em conjunto, que tem de ser, claro, uma solução consensual".

Gouveia e Melo lembra que "não pode ser uma solução muito forçada" e que não se pode "meter a cabeça debaixo da areia", até porque o facto de Portugal estar "neste cantinho" não significa segurança.

"Não podemos é meter a cabeça debaixo da areia e dizer que isso não vai acontecer, porque estamos aqui neste cantinho e antes a Europa toda vai ser conquistada até chegarem cá. E quando chegarem cá já não vale a pena defender-nos, não é? Porque senão não somos aliados de nada. Podemos ter de defender a Europa, portanto, quando digo defender o nosso país, não é o nosso país aqui em Portugal, o nosso país é o nosso espaço europeu. E podem ter certeza absoluta de que se a Europa for atacada e a NATO nos exigir, vamos morrer onde tivermos de morrer para defender a Europa, que é a nossa casa comum. Afinal, estamos a defender o nosso modo de vida, a democracia, os nossos sistemas, a nossa economia".

Aumento de missões de acompanhamento de navios russos

O número de missões de acompanhamento de navios russos durante a passagem por águas portuguesas quadruplicou nos últimos três anos. Indicando que o acompanhamento de navios russos sempre existiu, o almirante Gouveia e Melo diz que era numa quantidade completamente diferente.

“Há três anos o número de acompanhamentos que fazíamos era inferior a uma dezena por ano. Só no ano passado fizemos 46 e já este ano fizemos 14. Esses navios da Federação Russa, que podem ser militares ou mercantes mas com atividade militar conhecida, podem transitar nas nossas águas no sentido de irem da posição A para a posição B ou então podem ter interesses nas nossas águas. E as duas coisas acontecem simultaneamente”, disse.

De acordo com o chefe de Estado-Maior da Armada Portuguesa, o que a Marinha faz é vigiar, inibir que façam operações em águas portuguesas.

O almirante Gouveia e Melo adiantou também que já aconteceram “situações desagradáveis nesses seguimentos”, sem especificar.

“Não vou aqui referir os assuntos operacionais concretos, mas não só connosco, mas com a própria Força Aérea também já aconteceram situações em que normalmente, nos períodos anteriores a este período de tensão, nunca aconteceriam e que nós consideramos que podem ser um escalar”, disse.

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