"A urgência são os 'clima bonds'". Este foi o debate onde andaram todos a ver quem era o mais ambientalista (mas onde também se falou muito de fronteiras)

15 mai, 23:15

Segundo debate ficou marcado, sobretudo, pelas questões da imigração e da defesa europeia. Houve ideias para todos os gostos: taxar a indústria da guerra, rever os tratados com as regras orçamentais, parcerias público-privadas com a indústria do armamento. Para no fim, literalmente, andarem todos a disputar um título: o de mais amigo do ambiente

As pistas foram surgindo noutras fases do debate. Quando se falava da defesa europeia, Francisco Paupério do Livre argumentou que o conceito de segurança também inclui a “segurança energética”. Já a bloquista Catarina Martins insistiu que “a urgência são os ‘clima bonds’”.

Contudo, o ambiente ganhou atenção plena na fase final do debate. A começar por António Tânger Corrêa – o candidato do Chega que não passou em múltiplas avaliações do ‘fact checking’ da CNN Portugal, como pode ver aqui – que se assumiu como ambientalista. E há um argumento de peso: o Chega é um partido com forte penetração no “mundo rural”, o verdadeiro “defensor” do planeta.

Livre e PAN andaram depois às turras para ver quem saía por cima, com a discussão sobre a localização do novo aeroporto em Lisboa. “O Livre separa justiça social de justiça ambiental. E assumimo-nos de esquerda por causa disso”, arrancou Francisco Paupério. Na resposta, Pedro Fidalgo Marques – que já tinha defendido lucros excessivos sobre a poluente indústria da guerra - lembrou que o Livre “concordou com o aeroporto em Alcochete, quando na União Europeia estamos a delinear o que é um ecocídio”.

Paupério havia de justificar que a opção do Livre era, entre as existentes, a menos má, assentando num relatório técnico e científico: “A boa notícia é que não foi Montijo”.

O candidato do Livre teve também de responder a um desafia de Catarina Martins, para que o partido possa “estar verdadeiramente na esquerda”, uma vez que nos Verdes estão incluídos partidos que defendem medidas contrárias às do Livre. O candidato disse apenas estar “muito feliz”. Por agora, ninguém muda de família.

Fronteiras "escancaradas" ou apenas com pouco controlo?

A imigração voltou a ser o tema de arranque do debate, com o Chega a insistir numa “imigração controlada”. Tânger Corrêa rematou que esse filtro não deveria ser aplicado em função da nacionalidade, criticando antes o facto de “não haver escrutínio”.

“Quando se abrem as portas de forma escancarada, entram os maus elementos”, disse. Palavras que alimentaram as primeiras declarações de Catarina Martins, que veio classificar “a extrema-direita” como “o maior problema de segurança na União Europeia.

Foi rapidamente feita a transição para as dificuldades portuguesas no tema, com a criação da AIMA: é um “problema que não tem nada a ver com fronteiras”, mas antes “com a regularização de pessoas que já estão em Portugal”, argumentou Catarina Martins.

“Não temos as portas escancaradas, as pessoas para entrarem cá têm de cumprir regras”, disse. Posição reforçada pelo cabeça de lista do PAN, ao afirmar que “não faz sentido as pessoas que já cá estão estarem anos à espera de uma rejeição, às vezes meses à espera de uma reunião. E também do Livre, que insistiu na necessidade de uma “coordenação europeia” para a aplicação de corredores humanitários e para a análise dos processos dos que buscam asilo.

Voltaria depois Tânger Corrêa a defender uma política de imigração mais restritiva, recorrendo ao exemplo da situação nos Anjos, em Lisboa, onde, disse, há imigrantes que vivem em “condições absolutamente desumanas”. “Essa gente [nos campos de refugiados] vive melhor do que eles”, comparou.

Críticas a uma União que já podia ter iniciado a paz na Ucrânia

Os quatro partidos sentados à mesa foram unânimes num aspeto: o alargamento da União Europeia a leste é para avançar. E isso inclui, naturalmente, a Ucrânia, mesmo que a entrada do país possa dificultar o acesso de Portugal aos fundos comunitários, nomeadamente no que respeita à agricultura. Uma das alternativas, apresentadas pelo candidato do PAN, passaria pela taxação da indústria da guerra, que “se fosse um país, era o quarto maior poluidor do mundo". 

Do Bloco de Esquerda e do Livre vieram as críticas à postura da União Europeia no que respeita à paz na Ucrânia. A União Europeia, disse Catarina Martins, “não assumiu a responsabilidade de ser promotora de uma conferência de paz sob a égide da ONU”. “Fala muito de armas, nunca fala de paz”, resumiu.

Já Francisco Paupério defendeu que, “primeiro, temos de debater dentro da Europa”. “Quando não temos uma política externa única, é muito difícil sentar para negociações, enquanto União Europeia, para falar com a Rússia”, lamentou.

Também Tânger Corrêa não acredita que a paz na Ucrânia esteja para breve. Uma “solução possível”, apontou, traduzia-se numa “integridade territorial da Ucrânia” e numa “forma de cooperação que assegurasse à Rússia uma cintura de segurança feita pelo próprio Kremlin”. “A cedência dos territórios iria levar seguramente a uma paz mal feita”, resumiu.

“Não podemos ser utópicos e achar que, a curto prazo, e quando temos pessoas a morrer na Ucrânia, que vamos lá só com negociações. É óbvio que é necessário haver um apoio militar à Ucrânia”, completou Pedro Fidalgo Marques. O caminho da diplomacia, referiu o candidato, tem sido colocado em segundo plano.

Como investir em defesa: há sugestões para todos os gostos

Livre e PAN mostraram-se contra a formação de um exército europeu. “Isso seria escalar o conflito. Temos de ir atrás da paz”, justificou Paupério. O caminho, sugeriu Fidalgo Marques, passa por uma “melhor integração em termos militares europeus”.

Mas, afinal, como se financia essa necessidade de uma defesa mais robusta? A bloquista Catarina Martins veio lembrar que “a Europa só não tem independência estratégica porque não quer”, uma vez que gasta mais em defesa do que a Rússia ou a China.

“A ideia de que a Europa é indefesa e precisa de investir muito não é verdadeira”, disse, explicando que essa ideia vem das pretensões de França e Alemanha de retirar fundos de coesão para a defesa. A alternativa, apontou, para não penalizar o acesso a esses fundos, estaria também na reavaliação dos tratados já existentes, abdicando por exemplo das regras orçamentais que a pandemia de covid-19 provou que “não funcionam”.

Porque “estar equipado é uma forma de dissuasão”, Tânger Corrêa veio sugerir parcerias público-privadas com a indústria da guerra. O papel dos privados seria produzir, o dos Estados de controlar o acesso ao armamento, referiu. “O investimento não tem de ser público, não tem de custar ao contribuinte”, afirmou.

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