De que é que Putin tem medo?

CNN , Opinião de Frida Ghitis
26 fev, 15:18
Presidente da Rússia, Vladimir Putin (EPA)

NOTA DO EDITOR | Frida Ghitis, antiga produtora e correspondente da CNN, é colunista de assuntos mundiais. É colaboradora semanal de opinião da CNN, colunista do The Washington Post e colunista da World Politics Review. As opiniões expressas neste comentário são da sua inteira responsabilidade

As imagens são uma mensagem cinematográfica e arrepiante para o mundo, mas que não é exatamente o que o presidente russo Vladimir Putin poderá ter pretendido. Uma jovem mulher de casaco branco, mais uma prisioneira na Rússia, é vista a ser conduzida por um agente de segurança mascarado. A prisioneira é Ksenia Karelina, de 33 anos, cidadã americana e russa com dupla nacionalidade, que parece estar vendada com o seu próprio gorro de malha, enquanto o homem fardado lhe prende os pulsos com algemas e a conduz por uma escadaria escura. Acaba por aparecer numa cela de detenção num tribunal russo.

É o mais recente esforço de intimidação do Kremlin. Mas na sua tentativa de exercer e mostrar a sua força, Putin está a mostrar o seu medo. Porque é que o governante absoluto de uma potência com armas nucleares acha necessário prender Karelina?

A notícia da detenção pela Rússia da cidadã com dupla nacionalidade, que trabalha como esteticista em Los Angeles enquanto persegue a sua paixão como bailarina, surgiu na mesma altura da morte do líder da oposição Alexei Navalny numa colónia penal no Ártico. Navalny estava abertamente empenhado em trazer a democracia para a Rússia, em expor a corrupção e a brutalidade de Putin.

Mas Karelina? Como é que ela é uma ameaça para Putin?

Parece que Putin não tolera o mais pequeno sinal de oposição, mesmo que seja imaginário.

Vários russos foram presos por segurarem pedaços de papel em branco nos primeiros dias da invasão em grande escala da Ucrânia por Putin, depois de milhares de outros terem sido presos por protestarem abertamente contra a agressão da Rússia.

O empregador de Karelina diz que ela foi presa sob a acusação de traição. O seu crime: alegadamente ter doado 51,80 dólares à Razom, uma instituição de caridade norte-americana que apoia a Ucrânia.

O Serviço Federal de Segurança da Rússia (FSB), sucessor do infame KGB, parece confirmá-lo, dizendo que o seu crime foi "prestar assistência financeira a um Estado estrangeiro em atividades dirigidas contra a segurança do nosso país".

Se for condenada por traição, poderá passar décadas numa prisão russa.

Karelina tornou-se cidadã americana em 2021. O seu namorado, Chris van Heerden, disse à CNN que ela era apolítica, não via as notícias e não tinha nada a ver com a guerra. Comprou-lhe bilhetes para ir à Rússia como prenda de aniversário para que pudesse ver a avó de 90 anos, os pais e a irmã mais nova.

Talvez Putin esteja a sentir-se mais inseguro e a tornar-se mais tirânico para com o povo russo, para com os visitantes e até para com aqueles que deixaram o país.

O que começou como um líder autoritário que estava a corroer as normas democráticas parece estar a transformar-se num ditador totalitário do tipo mais perigoso - o tipo assustado.

As forças de segurança prenderam russos que questionavam a guerra na Ucrânia, para não falar de Putin. Prenderam centenas de pessoas que procuravam homenagear Navalny, até mesmo pessoas que tentavam depositar flores em sua memória.

Navalny estava nas mãos do sistema judicial como parte de um esforço para o silenciar, para impedir a sua influência. Mas ele não seria silenciado enquanto estivesse vivo.

Alguns dos mais conhecidos críticos de Putin foram morrendo um a um. Os investigadores russos nunca culpam o governo, é claro. Foi o caso do líder da oposição Boris Nemtsov, morto a tiro perto do Kremlin. A jornalista e defensora dos direitos humanos Anna Politkovskaya, assassinada no elevador do seu prédio. Há o caso de Navalny, cuja causa de morte ainda não é clara. E há inúmeros outros. (O Kremlin negou as alegações de envolvimento em todos eles).

Para os cidadãos norte-americanos, incluindo aqueles que também têm nacionalidade russa, a visita ao país tornou-se cada vez mais perigosa. Vários cidadãos norte-americanos foram presos, incluindo a estrela da WNBA Brittney Griner, libertada numa troca por um notório traficante de armas; o ex-fuzileiro naval norte-americano Paul Whelan, condenado a 16 anos sob a acusação de espionagem, que ele nega veementemente, e o repórter do Wall Street Journal Evan Gershkovich, detido há quase um ano em Ekaterinburgo - a mesma cidade onde Karelina foi presa - acusado de espionagem sem que as autoridades russas tenham revelado uma única prova.

Putin está aparentemente interessado numa troca de Gershkovich por Vadim Krasikov, um assassino condenado a cumprir uma pena na Alemanha por ter morto um exilado checheno-georgiano em 2019; o que o tribunal alemão chamou de "assassinato ordenado pelo Estado". Por outras palavras, um assassinato ordenado pelo Kremlin. (O Kremlin nega-o.)

Para dizer o óbvio, os americanos devem manter-se afastados da Rússia.

Mas ficar fora da Rússia não é garantia de segurança.

De acordo com a organização de defesa dos direitos humanos Freedom House, a Rússia tornou-se num dos principais agentes de repressão transnacional do mundo. Enquanto muitos dos críticos de Putin parecem morrer em todo o tipo de circunstâncias misteriosas no interior da Rússia, os seus críticos e os supostos críticos também encontram o seu fim no estrangeiro.

No final de fevereiro, a polícia espanhola encontrou o corpo de Maxim Kuzminov perto da cidade de Alicante. Kuzminov, um desertor russo, fugiu para a Ucrânia no seu helicóptero militar. Disse aos jornalistas que se opunha à guerra.

Os serviços secretos espanhóis disseram aos meios de comunicação social locais que não têm dúvidas de que o Kremlin está por detrás da sua morte. Oficialmente, o governo diz que está a aguardar os resultados da investigação. De acordo com a imprensa espanhola, a polícia diz que ele foi baleado seis vezes e depois atropelado por um carro.

A Rússia afirma não ter conhecimento do caso. Mas após a deserção de Kuzminov, o chefe dos serviços secretos estrangeiros chamou-lhe "cadáver moral". A Freedhom House afirma que a Rússia "conduz atividades de repressão transnacional altamente agressivas no estrangeiro", recorrendo fortemente ao "assassinato como instrumento".

O governo britânico concluiu que agentes russos mataram o agente dos serviços secretos exilado Alexander Litvinenko em Londres, utilizando polónio radioativo. Em 2018, em Salisbury, Inglaterra, mais dois agentes russos foram acusados de quase matar o dissidente Sergei Skripal e a sua filha com um agente nervoso.

Os ataques, observa a Freedhom House, "têm como pano de fundo numerosas mortes inexplicáveis de russos de alto nível no exílio". Muitas vezes, os casos podem não dar origem a condenações, mas a organização acrescenta que a utilização de isótopos radioativos e de agentes neurotóxicos aponta claramente para o Kremlin, mesmo que Moscovo finja ignorância.

O que quer que a Rússia esteja a pensar com a detenção de uma esteticista e bailarina semi-profissional, é evidente que o regime repressivo de Putin está a baixar o limiar do que tolera e a elevar a fasquia da sua resposta. Um donativo a uma instituição de caridade pró-ucraniana equivale agora a traição, punível com 20 anos de prisão. As críticas à guerra ou a Putin podem levar à morte num campo de prisioneiros russo.

O Kremlin está a fazer da Rússia um país interdito a visitantes estrangeiros, ameaçando os seus cidadãos no estrangeiro e, ao mesmo tempo, continua a levar a cabo a sua guerra neo-imperialista de conquista na Ucrânia.

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