Quando é que vai acabar a pandemia? Vamos viver 2022 “na corda bamba”

31 dez 2021, 08:00
Agustina Cañamero, 81, e Pascual Pérez, 84, dão um beijo e um abraço através de uma película de plástico para evitar contrair o novo coranívurs num lar em Barcelona, em junho de 2020.
Agustina Cañamero, 81, e Pascual Pérez, 84, dão um beijo e um abraço através de uma película de plástico para evitar contrair o novo coranívurs num lar em Barcelona, em junho de 2020.

O cenário de endemia é desejado por muitos e poderá ser uma realidade em breve para alguns, mas a sua durabilidade dependerá sempre do que acontece no resto do mundo, que continua a caminhar de forma assíncrona na luta contra o vírus. Portugal está bem posicionado para o fim da pandemia, mas ainda não é no próximo ano que vai deixar cair a máscara

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Quando é que vai acabar a pandemia? É a pergunta para um milhão de euros que ninguém consegue responder. Não há bolas de cristal capazes de tal coisa, nem tão pouco informação robusta que permita certezas aos dias de hoje. Mas o cenário é de um otimismo cauteloso, uma esperança que vai sendo fundamentada com o conhecimento científico existente, mas sempre à mercê da imprevisibilidade de um vírus que surgiu sem aviso prévio, tirou a vida a milhões, confinou pessoas a quatro paredes e continua a privar o ser humano do contacto físico. 

“Tenho esperança que no decorrer do próximo ano a situação pandémica acalme. Existem elementos que nos permitem ter essa esperança”, começa por dizer Miguel Castanho, especialista em Bioquímica e investigador Instituto de Medicina Molecular da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

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Filipe Froes, pneumologista e coordenador do gabinete de crise da Ordem dos Médicos para a covid-19, mostra-se mais confiante e diz mesmo que “o fim está próximo” e que 2022 pode ser o ano da mudança. Mas deixa o alerta que há muitos desafios pela frente.

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A Ómicron veio alterar as regras do jogo e trazer uma nova confiança na luta contra a pandemia. Se esta nova variante mantiver o seu comportamento - mais contagiosa, mas menos causadora de doença grave e óbito - podemos estar perante o derradeiro fator que levará alguns países, sobretudo os que têm maior taxa de vacinação, a entrar na tão desejada fase endémica, em que o contágio é menor e o vírus passa a 'habitar' entre nós, mas sem grandes danos. É certo que o mundo continuará a caminhar a dois ritmos, mas a promessa de novos fármacos antivíricos poderá acelerar o ponto de encontro e o regresso à normalidade, ou parte dela.

“A Ómicron é uma variante que tem uma alta infeciosidade, o contágio é muito rápido e muito fácil, mas a proporção de doenças graves, internamento e doentes nos cuidados intensivos é muito inferior. Podemos olhar para isto, por um lado, e pensar que o SARS-CoV-2 mantém a sua capacidade de imprevisibilidade e que pode surgir uma variante como a Ómicron, mas com algumas mutações e causar doença grave, o que seria péssimo, ou podemos também olhar para a perspectiva da imunidade de grupo, o que é mais interessante. Infetando mais gente vamos conseguir uma imunidade a nível mundial mais cedo”, explica Manuel Ferreira Magalhães, pneumologista pediátrico e professor auxiliar convidado no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto (ICBAS) e na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP).

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À boleia do domínio a Ómicron, que tirou de cena a variante Delta, Portugal tem atualmente quatro vezes mais infeções do que as registadas no mesmo período do ano passado. Face a estes números - que no dia 29 ultrapassaram os 26 mil novos casos - os especialistas mantêm alguma tranquilidade, sobretudo devido ao facto de esse aumento de casos não estar a resultar em mais óbitos ou internamentos  - embora não descartem o impacto que mais pessoas infetadas tem sempre nos serviços de saúde, seja de urgência ou não. E há mesmo quem defenda o abrandamento de algumas medidas e a aposta na imunidade natural através da infeção, tal como sugeriram o virologista Pedro Simas e o epidemiologista Manuel Carmo Gomes.

“Portugal está num momento muito favorável para que se possa atingir uma situação mais tranquila, em que o vírus vai circulando, mas sem causar grandes danos. E isso ajuda  a manter uma imunidade mais ativa”, afirma Elisabete Ramos, investigadora no Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto e presidente da Associação Portuguesa de Epidemiologia, que continua: “perspetivo que seja um ano de continuar em crescente do conhecimento, continuamos com grandes incógnitas sobre este coronavirus”.

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O ano que está prestes a arrancar é de esperança, mas a cautela vai estar sempre presente, por muito elevada que seja a taxa de vacinação ou por muito acelerada que seja a imunidade natural causada pela Ómicron, advertem os especialistas com quem a CNN Portugal conversou. 

“A vacinação e a transmissibilidade da Ómicron estão a ajudar para que [o vírus] se torne endémico. Mas este é o fim da pandemia? Não, porque esta não será a última variante, o vírus vai continuar a mudar, é o seu processo normal e as mutações são totalmente imprevisíveis, não sabemos se serão dentro deste curso da Ómicron ou outras variantes”, alerta Laura Brum, virologista, diretora médica da SYNLAB e professora auxiliar na NOVA Medical School - Faculdade de Ciências Médicas.

2022 será o ano dos antivíricos e isso pode fazer toda a diferença

A chegada de fármacos antivíricos que atuem nos primeiros momentos de infeção, ajudem a travar a transmissão e previnam o desenvolvimento de doença será a chave do sucesso no próximo ano contra a pandemia.

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Se 2021 foi o ano da vacinação contra a covid-19, “em 2022 será a introdução, em larga escala, de novos fármacos”, assegura a virologista Laura Brum. Também a epidemiologista Elisabete Ramos acredita que esse será o caminho e que  a chegada de “novos fármacos vai ajudar a conviver melhor com risco de ser infetado”, ajudando, assim, a bloquear a transmissão.

Sobre esta forma de bloqueio da ação do vírus, muito mais prática do que a vacinação, o investigador Miguel Castanho acredita que “se tivéssemos feito um grande investimento em medicamentos como se fez nas vacinas, se tivéssemos já hoje medicamentos, as pessoas que estão a adoecer conseguiram interromper o curso da infecção”. No entanto, assegura que não é tarde para a chegada destes novos fármacos e que a sua comercialização poderá, de facto, fazer toda a diferença e até acelerar a chegada a uma fase endémica do vírus.

“O outro ponto de viragem do vírus será a disponibilidade de medicamentos baratos e universais. Se 2022 trouxer medicamento de utilização universal será uma ajuda imensa”, continua o também professor de Biologia.

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A Pfizer, por exemplo, já veio confirmar que o seu comprimido contra a covid-19 reduz em cerca de 90% as hospitalizações e mortes em pessoas de risco quando tomado nos primeiros dias em que surgem os sintomas. E esta forma célere de atuação pode, efetivamente, marcar o rumo do vírus no próximo ano. No início de dezembro, a Agência Europeia do Medicamento (EMA, na sigla em inglês) aprovou o medicamento RoActemra, já utilizado em doenças inflamatórias, para tratar casos graves de covid-19 em pessoas adultas.

Elisabete Ramos afirma que os fármacos são, de facto, uma arma de arremesso importantíssima contra a covid-19 e a transmissão do vírus que causa a doença, mas não deixa de alertar que “é um ótimo contributo para nós, mas mais um fator a criar desigualdade a nível mundial”, tal como acontece com a vacinação.

“Não nos podemos isolar do resto do mundo, o que acontece no nosso país vai depender do que acontece no resto do planeta”, adverte.

Imunidade vacinal e imunidade natural: a dupla necessária em 2022

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“Há novas vacinas que se estão a desenvolver e eu creio que é isso que vai acontecer. Que novas vacinas virão e que estarão mais adaptadas para estas novas variantes. Vacinas universais que poderão proteger contra todas as variantes. Acho que o futuro é mais esse do que dar doses de reforço continuamente”, disse em declarações à CNN Portugal Marta Nunes, investigadoras na linha da frente da Ómicron no Departamento de Análise de Vacinas e Doenças Infecciosas da Universidade de Witwatersrand, na África do Sul.

A vacina da Novavax, por exemplo, assume-se como de segunda geração e destaca-se pela promessa de conseguir bloquear a transmissão do vírus, algo que as atuais vacinas comercializadas na Europa não conseguem - embora sejam altamente eficazes na redução da severidade da doença e de óbito.

Para o pneumologista Manuel Ferreira Magalhães, a combinação de vacinação e antivíricos “vai ser uma chave muito importante” para o combate à pandemia, porém, salvaguarda, “há a dúvida se a imunidade é duradoura”. De qualquer modo, não hesita em dizer que a imunidade é o caminho e, por isso, “é fundamental que a grande maioria da população mundial esteja imunizada e esse vai ser o grande desafio de 2022”.

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“Se mantivermos a cobertura vacinal elevada, vamos acabar por conviver com o vírus de forma mais tranquila e vingarão mais as medidas individuais do que o recurso a estas medidas mais restritivas e que causam um grande impacto a nível económico e social”, garante Elisabete Ramos, presidente da Associação Portuguesa de Epidemiologia.

Menos limitações, mas sempre de sorrisos tapados. As máscaras vieram para ficar

Olhando para a ação da Ómicron, Carlos Palos, intensivista e coordenador da Comissão de Prevenção, Controlo de Infeção e Resistência aos Antimicrobianos do Hospital Beatriz Ângelo, defende que “o que começamos a perceber é que se calhar temos de começar a entender a exceção como algo que afinal não é tão grave e que pode não nos obrigar a medidas tão restritivas", algo que que já vai na linha de decisão do CDC [Centro de Controlo e Prevenção de Doenças] dos EUA "de reduzir o período de quarentena das pessoas assintomáticas e reduzir também o número de dias de quarentena das pessoas após a exposição ao vírus, isto nas pessoas vacinadas”.

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O especialista recomenda que as medidas sejam aligeiradas nas pessoas vacinadas caso a Ómicron se continue a comportar como atualmente. Contudo, considera que “o comportamento deve ser de prudência, devemos continuar a usar máscaras em locais fechados ou abertos com aglomeração de pessoas”.

Uma vez que o novo coronavírus é sazonal e tende a mostrar cada vez mais essa sua caracetística, “as medidas vão ser sempre aliviadas nos meses quentes”, afirma Manuel Ferreira Magalhães. No entanto, acredita que as máscaras vieram para ficar, sobretudo nos meses mais frios e em espaços fechados, como centros comerciais.

“Na verdade, acho que vai ser difícil retirarmos as máscaras, principalmente durante o inverno nos próximos largos anos. Acho que não vamos mais permitir aquelas situações do estou constipado, tomo um Ben-U-Ron e vou a algum sítio, isso já não vai ser tão tolerável”, frisa o pneumologista pediátrico.

Também a virologista Laura Brum garante que as máscaras serão um acessório habitual do dia a dia nos próximos anos, um pouco à semelhança do que acontece já nos países asiáticos. “A máscara vai ficar para o futuro, vai ser uma companheira nossa no inverno”, defende.

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Pedro Simões Coelho, diretor e professor catedrático da NOVA Information Management School (NOVA IMS) e investigador na  plataforma Covid-19 Insights, diz que “o nível de cobertura vacinal que já temos permite que pequenas alterações nos nossos comportamentos tenham um impacto mais rápido na pandemia” e, por isso, é apologista de “mais cuidados e mais máscaras”, dois fatores com os quais se pode “rapidamente reduzir a taxa de crescimento dos casos, o que era muito difícil fazer no passado”. 

Vamos continuar a viver à mercê da incerteza do vírus

Falar em SARS-CoV-2 é falar em imprevisibilidade e a própria variante Ómicron veio reforçar isso mesmo, trazendo uma nova forma de atuação do vírus. E por isso mesmo é que nenhum dos especialistas entrevistados pela CNN Portugal arriscaram com uma data para o fim da pandemia - 2022 é apontado como um bom ano, mas o “logo se verá” dominou os discursos.

É certo que se sabe mais sobre o SARS-CoV-2 hoje do que em março de 2022, mas estamos longe de saber tudo. “Não sabemos qual vai ser a evolução do SARS-CoV-2, nem o vírus sabe. O que podemos esperar que seja a última variante de preocupação”, diz Filipe Froes.

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Para Elisabete Ramos, o facto de o vírus “circular de uma forma menos severa é ótimo para ativando esta imunidade”, mas deixa claro que apenas se está a olhar para os efeitos imediatos e a curto prazo. “Não conhecemos as consequências da infecção a longo prazo, como a long covid. Praticamente não sabemos nada sobre o longo prazo de quem tem situações assintomáticas e ligeiras”, alerta a epidemiologista.

Também o médico Carlos Palos reforça a ideia de incerteza e a importância desta carcteristica do vírus continuar a ser levada em consideração na hora de definir novas medidas e modos de ação. “Tem de haver muitas precauções, não podemos estar num extremo de defesa nem num extremo de liberdade completa, mas continuamos sem certeza de tudo o que está a acontecer”.

A imprevisibilidade e incerteza são, atualmente, dois dos principais entraves para o fim da pandemia, que para acabar precisa que “a infeciosidade e baixe e estabilize”, explica o médico Manuel Ferreira Guimarães. “O coronavirus sempre existiu e sabemos perfeitamente que desaparecia nos meses quentes, aparecida no meses frios e tinha picos controlados, estava estável, para  a pandemia acabar precisamos desta estabilidade e previsibilidade”, algo que o SARS-CoV-2 ainda não proporcionou, destaca.

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Enquanto o mundo caminhar a dois ritmos, o fim torna-se mais longínquo, mas não impossível

“O fim está próximo, temos de ter confiança na ciência e capacidade de resistir mais algumas semanas”, assegura Filipe Froes, pneumologista e coordenador do gabinete de crise da Ordem dos Médicos para a covid-19. Sem adiantar uma data concreta, o especialista acredita que será ainda em 2022 que será feita a declaração do fim da pandemia pela OMS.

O otimismo de Filipe Froes não é, porém, partilhado pelos restantes especialistas entrevistados pela CNN Portugal. Embora reconheçam que 2022 será um ano promissor, mostram-se cautelosos com as previsões.

Para a epidemiologista Elisabete Ramos, “é pouco provável que seja provável no próximo ano sem vacinação em grande escala”. Quanto à possibilidade de Portugal entrar em fase endémica já em 2022, a especialista considera que “vai depender no que vai acontecendo no resto do planeta, pois se houver muita transmissão noutras áreas do planeta, a probabilidade de variantes novas de alerta é grande”.

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Miguel Castanho apenas conseguirá “respirar de alívio” quando os invernos voltarem a ser como outrora “Quando eu vou respirar de alívio? Quando passarmos um inverno tranquilo, só depois eu respiro de alívio. Até que tenhamos um inverno sem uma onda uma vaga, não dou por declarada o fim da pandemia”, diz, mas levanta o véu do cenário ideal para um suspiro coletivo de refrigério. 

“Se conseguirmos manter a incidência muito baixa no verão, coisa que não conseguimos no verão passado, se conseguirmos chegar ao outono com uma incidência baixa, temos condições para passar um inverno mais tranquilo”, assegura o investigador.

Apesar de se mostrar otimista, Filipe Froes reconhece que “a solução para o fim da pandemia está nas nossas mãos e isso consiste na vacinação”, sobretudo “nos mais vulneráveis, mas idealmente de toda a população”, algo que sabe que dificilmente acontecerá em simultâneo em todo o mundo.

A virologista Laura Brum defende que “temos de vacinar África, onde as zonas são as taxas muito baixas, e é desses países que saltam estas estirpes” e destaca o impacto que o combate a dois ritmos pode ter, mas frisa que isso pode não ser um entrave para o avanço de alguns países. “Não é um processo síncrono, umas regiões vão chegar mais depressa a critérios de endemia e outras não, pois [o vírus] não está controlado. É um processo que não vai ocorrer uniformemente, mas a OMS pode determinar que determinadas zonas estão já em endemia e isso pode ser no final deste inverno, é muito provável”.

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Mesmo reconhecendo que o mundo age a dois ritmos e que esse compasso de tempo poderá servir de trampolim para novas e mais agressivas variantes, Miguel Castanho mantém-se otimista para o próximo ano. 

“Vejo bons indicadores para 2022, não pelos números de hoje, mas pelas características da Ómicron e pela expectativa de medicamentos, especialmente antivirais inibidores da multiplicação do SARS-CoV-2”, conclui.

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