"É uma variante como a Ómicron que se vai estabelecer na população humana": Marta Nunes, portuguesa que combate esta variante onde ela apareceu

28 dez 2021, 08:00

Investigadora na África do Sul, onde a Ómicron apareceu, Marta Nunes explica como a pandemia passará a endemia. Exclusivo CNN Portugal

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Marta Nunes está há 13 anos na África do Sul e é uma das investigadoras na linha da frente da Ómicron no Departamento de Análise de Vacinas e Doenças Infecciosas da Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, onde a variante foi descoberta a 24 de novembro.

Em entrevista à CNN Portugal, a investigadora portuguesa acredita que o SARS-CoV-2 se vai "manter endémico na população portuguesa", de certa forma como o vírus da gripe, até porque Portugal foi "um país exemplar do ponto de vista da vacinação" e não acredita que o futuro da pandemia passe pela administração de contínuas doses de reforço, mas sim por "vacinas universais" que sejam eficazes contra todas as variantes. 

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"Há novas vacinas que se estão a desenvolver e eu creio que é isso que vai acontecer. Que novas vacinas virão e que estarão mais adaptadas para estas novas variantes. Vacinas universais que poderão proteger contra todas as variantes. Acho que o futuro é mais esse do que dar doses de reforço continuamente".

Na semana passada, numa entrevista à Associated Press, alguns especialistas consideraram que alguns fatores indicavam que o pico da Ómicron na África do Sul já tinha passado. Falavam numa curva intensa, mas rápida. Marta Nunes faz parte deste grupo de especialistas que estuda o impacto da Ómicron naquele país.

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"O vírus habitua-se aos humanos" e, por isso mesmo, para se poder reproduzir, vai-se tornando mais infeccioso, mas menos mortal. E é precisamente isso que se tem assistido com a variante Ómicron. É de muito mais fácil contágio que as anteriores, mas isso não se reflete no número de hospitalizações, mais ou menos graves, nem no número de mortos. 

"Não me surpreenderia muito que a Ómicron ou uma outra variante como a Ómicron, que cause uma doença mais ligeira mas que se transmite mais rapidamente, fosse aquilo que se iria estabelecer na população humana e causar surtos epidémicos como acontece com outros vírus respiratórios. Acho que é mais ou menos uma variante como esta que se vai estabelecer na população humana", explicou. 

O que podemos aprender com a África do Sul? 

Muitos países estão de olhos postos na África do Sul para tentar perceber como se movimenta a Ómicron, com o objetivo de antever cenários. Mas os prognósticos nunca são cem por cento corretos. Marta Nunes explica que tudo depende da dimensão da população, da cobertura vacinal de cada país, da percentagem de imunidade e se existe uma população mais idosa ou mais jovem.

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Ainda assim, sabemos que o primeiro caso desta nova variante foi detetado a 24 de novembro e que o pico da nova vaga foi atingido cerca de quatro semanas depois.

"Estamos a ver que na África do Sul [a curva] já está a diminuir, mas estamos no início do decréscimo. Temos de ver as duas próximas, que vão ser cruciais para vermos qual é o desenho da curva", esclarece a investigadora, dizendo ainda que a vantagem de uma onda intensa mas rápida é o facto de se "criar uma imunidade de grupo muito rapidamente", principalmente para as pessoas não vacinadas. 

Os cientistas sabem que esta variante "acumula mutações de proteína que ajudam a que o vírus seja mais transmissível", porque desta forma "escapa" aos anticorpos criados pelas infeções anteriores. Em contrapartida, apesar de ser mais infecciosa, não foi assinalada "a severidade da doença verificada nas curvas das outras variantes. 

Para esta professora universitária, ainda que o futuro da pandemia da covid-19 não passe pela administração consecutiva de doses de reforço das vacinas, a terceira dose deve avançar, "porque já foi provado que a da Pfizer e da AstraZeneca aumentam a resposta imunitária". 

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"Vai ser muito interessante ver agora a nível epidemiológico se os países que estão a usar a terceira dose vão ter menos casos ou não". 

A Ómicron afetou mais as crianças do que as variantes anteriores?

Sobre as infeções do vírus em crianças, Marta Nunes diz que é preciso alguma cautela com os números absolutos. E dá o exemplo do que se passa na África do Sul, onde existem "bastantes crianças hospitalizadas que testaram positivo para a Ómicron", No entanto, isso não significa que estas crianças tenham sido hospitalizadas por causa do vírus. 

Existem muitos casos de crianças, abaixo dos 14 anos, que deram entrada nos hospitais por outras razões, eram automaticamente testadas e acabaram por testar positivo à covid-19. O mesmo critério se aplica nos adultos. 

"O número de internamentos pediátricos aumentou ligeiramente, mas ainda estamos a ver se os números são significativos quando comparados com as vagas anteriores", esclarece. 

A Ómicron já se tornou dominante em vários países, tendo ultrapassado, em alguns casos, os números da Delta. Nos Estados Unidos, é responsável por mais de 70% dos novos casos há duas semanas. Já no Reino Unido, o aumento foi de 60% no espaço de sete dias. Por cá, esta variante representa cerca 61,5% dos novos casos. 

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De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a Ómicron já foi detetada em pelo menos 89 países

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