O aperto de mão que "faz soar as campainhas vermelhas": Putin está em Pyongyang para "acelerar a dinâmica de guerra"

19 jun, 07:00

As principais avenidas de Pyongyang transformaram-se numa passadeira vermelha (mas também azul e branca) para receber Vladimir Putin - a primeira visita do presidente russo em mais de 20 anos. Mas esta não é uma visita bilateral - "há um terceiro ator que, não estando presente, está por detrás do que está a acontecer"

Podia ser Moscovo, com cartazes do rosto de Vladimir Putin espalhados pela cidade e bandeiras da Federação Russa a cobrir as principais avenidas, mas é Pyongyang. Foi assim, com pompa e circunstância, que a Coreia do Norte recebeu Vladimir Putin para uma visita oficial de dois dias. “Isto raramente acontece nas poucas visitas de Estado que a Coreia do Norte recebe”, assinala Tiago André Lopes, especialista em relações internacionais, em declarações à CNN Portugal.

No entender do especialista em assuntos internacionais, todo este cenário mostra que a Coreia do Norte tem uma "expectativa enorme” em relação a esta visita. Afinal, lembra, na última visita de Putin a Pyongyang, em 2000, o líder da Coreia do Norte ainda era Kim Jong-il e Putin “um jovem estreante” na presidência da Federação Russa, tendo sido eleito precisamente nesse ano. Na altura, o presidente russo foi à capital norte-coreana “lançar as bases da renovação” do acordo de cooperação celebrado em 1961. “A expectativa é que nesta visita se faça um novo tratado de amizade, de cooperação e de boa vizinhança, que vai ser um tratado abrangente”, antecipa.

Por outro lado, o líder norte-coreano visitou recentemente o seu homólogo russo. A bordo do seu comboio blindado, Kim Jong-un chegou em setembro passado ao extremo leste da Rússia para visitar uma fábrica de aviões de combate e uma instalação de lançamento de rockets. Estas visitas, tão próximas uma da outra, levaram a revista The Economist a escrever que "Kim Jong-un tem um novo melhor amigo", lembrando palavras do líder norte-coreano, que assinalou recentemente que ambos têm agora "uma relação inquebrável de camaradas de armas".

Putin aterrou em Pyongyang já de madrugada, pelas 02:30 (hora local), e foi logo recebido no aeroporto pelo líder norte-coreano, que o aguardava numa extensa passadeira vermelha. "Um aperto de mão entre estes dois homens faz soar as campainhas vermelhas - não apenas no Ocidente, mas também no Oriente", declara Tiago André Lopes, referindo-se à guerra na Ucrânia e às crescentes tensões na Península coreana.

É que esta não é uma visita bilateral, argumenta o especialista: "Há um terceiro ator que, não estando presente, está por detrás do que está a acontecer, que é Xi Jinping." 

"De repente, a Coreia do Norte tornou-se o foco das visitas de Moscovo mas também de Pequim", diz Tiago André Lopes, lembrando a recente visita de Zhao Leji, o terceiro mais alto funcionário chinês, que esteve em Pyongyang em abril passado "logo a seguir a Vladimir Putin ter visitado Pequim".

Ora, no entender do especialista, estas visitas não são em vão: "Há aqui claramente a intenção de criar uma espécie de coligação triangular entre Pyongyang, Pequim e Moscovo para contrapor a coligação cada vez mais evidente entre os EUA, o Japão e as Filipinas."

De acordo com o jornal norte-coreano Rodong, nesta visita os dois líderes vão desenvolver uma rede "de comércio e pagamentos não controlada pelo Ocidente", que procura assim contornar os mecanismos de sanções de que são alvo. Segundo Yuri Ushakov, assessor de Vladimir Putin, citado pela CNN Internacional, o presidente russo terá "uma agenda muito agitada" durante estes dois dias, adiantando apenas que o acordo que ambos pretendem firmar não configura uma provocação dirigida ao Ocidente, mas sim uma forma de garantir uma maior estabilidade no nordeste da Ásia.

Para a Coreia do Norte, esta é uma visita importante sobretudo pela “normalização da liderança” de Kim Jong-un no contexto internacional, observa Sónia Sénica, investigadora em relações internacionais: “Trata-se de uma visita de um país muito importante do ponto de vista internacional, a Rússia é um membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, com direito de veto, e mostra o reforço do chamado eixo autocrático de antagonismo ao Ocidente.”

"Sem munições não há conflito" na Ucrânia

Mas Vladimir Putin pode querer concretizar outras intenções com esta visita, antecipam os analistas, referindo-se ao poderio da Coreia do Norte em termos de munições, essenciais para o esforço de guerra. “A Coreia do Norte é um dos grandes produtores de munições 152, que é como ‘pão para a boca’ num conflito. Sem munições não há conflito”, sublinha o major-general Agostinho Costa, lembrando que Pyongyang “tem fornecido [a Moscovo] grandes volumes de munições, ao ponto de a Rússia estar hoje muito mais confortável do que a Ucrânia” no terreno.

Tiago André Lopes acredita que é precisamente esse o objetivo de Vladimir Putin com esta visita, que antecede uma outra ao Vietname. Antecipando a entrega dos caças F-16 fornecidos pelo Ocidente à Ucrânia no final deste ano, o presidente russo “tem interesse em acelerar a dinâmica de guerra nos próximos meses” de modo a “acautelar mais ganhos territoriais antes de começar um eventual contra-ataque com a dimensão terra-ar” que a Ucrânia passará a ter com as aeronaves ocidentais. “E para isso é preciso ter munições, e a Coreia do Norte tem munições de grande ponta para disponibilizar”, sustenta.

Além do objetivo de reforço da capacidade militar russa, Putin quer “mostrar que não está isolado em termos internacionais” e está a tentar assim “construir uma nova ordem internacional” assente numa “dinâmica de reforço de outras parcerias e alianças” capazes de “contrastar ou dissuadir a influência do Ocidente e sobretudo dos EUA”, teoriza Sónia Sénica.

Um exemplo disso mesmo é a visita de Putin ao Vietname logo a seguir à Coreia do Norte, argumenta: “O presidente russo quer mostrar sobretudo aos EUA que também consegue ir ao encontro de lideranças que cooperam com os próprios EUA.”

Ora, uma vez que o Vietname “tem mantido o chamado ‘não alinhamento flexível’, assente num equilíbrio entre cooperar ora com o Ocidente ora com os atores de outro eixo, como o caso da Rússia, a investigadora entende que este posicionamento “deixa margem de manobra de atuação político-diplomática para que atores como Putin possam mostrar aos EUA que há aqui uma predisposição de angariar apoio nas várias dimensões de cooperação, muito aquém da esfera económica, para preocupar sobremaneira Washington.”

"Creio que isto começa a demonstrar que a assertividade e a militarização da Rússia vai muito além da intenção regional de ficar no espaço pós-soviético”, adverte Sónia Sénica.

Na segunda-feira, questionado pelos jornalistas sobre esta visita de Vladimir Putin à Coreia do Norte, o porta-voz da segurança nacional dos EUA, John Kirby, afirmou que a administração Biden não está “preocupada com a viagem” em si, para logo a seguir fazer uma ressalva: "O que nos preocupa é o aprofundamento das relações entre esses dois países."

Já o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, considera que esta visita demonstra a dependência de Moscovo aos regimes autoritários. "Os seus amigos mais próximos e os maiores apoiantes do esforço de guerra russo são a Coreia do Norte, o Irão e a China", clarificou.

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