Gouveia e Melo: "Se não investirmos na defesa daremos um sinal de fraqueza ao outro lado [a Rússia], que pensará que pode prosseguir a sua estratégia e lentamente ir avançando para Oeste"

CNN Portugal , MJC
17 jun, 22:18

Em entrevista à TVI e à CNN Portugal, o chefe do Estado Maior da Armada defende que o investimento na defesa é bom para a economia nacional - e é contra o serviço militar obrigatório

O almirante Gouveia e Melo defende que se Portugal e a Europa querem estar preparados para um eventual conflito com a Rússia devem começar desde já a investir na defesa. "Temos de causar a dissuasão suficiente para que o outro lado não pense que pode avançar para além do que já avançou", disse esta segunda-feira em entrevista ao Jornal Nacional da TVI. "Há vontade para investir? Se não o fizermos daremos um sinal de fraqueza ao outro lado, que pensará que pode prosseguir a sua estratégia e lentamente ir avançando para Oeste. Esta é a grande questão. Aquilo que os chefes militares estão a fazer é mostrar a necessidade de agir preventivamente ao problema, porque reagir ao problema será sempre 20 vezes pior", garante.

Especificamente no caso português, Gouveia e Melo considera que "os meios atuais não são suficientes se considerarmos que estamos num momento internacional muito crítico com uma eventual escalada". "É importante ter uma força credível e capaz de manter pelo menos a capacidade de vigilância dissuasora de qualquer atividade contrária aos interesses do Estado português e dos nossos aliados, no nosso mar, que é imenso."

O chefe do Estado Maior da Armada acredita que o investimento na defesa será benéfico para o país de diferentes formas: "Ao fazer esse investimento estamos a alavancar a nossa indústria, as nossas capacidades tecnológicas, capacitando também a economia nacional."

Por exemplo, a aquisição de submarinos pode ser considerado um investimento muito grande mas "o casco e as máquinas fazem parte de um todo que tem software e outro tipo de equipamento". "O verdadeiro valor do submarino está no miolo", sublinha, e, "aí, podem participar empresas portuguesas e desenvolver tecnologias  que se podem aplicar a outros submarinos e navios".

"Portugal foi membro fundador da NATO e há um artigo que diz que todos nós teremos que defender um país da nato que seja atacado. Portanto, não podemos ter assinado um contrato só para as coisas boas", diz, justificando uma polémica declaração feita há tempos de que os portugueses deveriam estar prontos para morrer: "Fiz uma declaração enquanto chefe militar e com as precoupações que tenho como tal. Não se discutir não é solução, não podemos enfiar a cabeça na areia e temos que explicar a situação à população. Temos que equacionar certos cenários que nenhum de nós deseja porque se eles se materializarem devemos estar preparados", afirmou em entrevista a João Póvoa Marinheiro no CNN Prime Time.

"Entre a cooperação e a confrontação há uma área intermédia, onde o mais importante é o efeito dissuasor do inimigo. É importante que eles percebam que, se for necessário, estamos preparados para nos defendermos", reafirma.

Sobre o serviço militar obrigatório, Gouveia e Melo foi também muito claro: "Não defendo o serviço militar obrigatório nos moldes que nós conhecemos antigamente, porque não acrescentava grande produto. Defendo um sistema que seja capaz de mobilizar a população, formando e treinando em antecedência a população, sem afetar muito quer a liberdade quer a economia dessa população. Esse sistema que já foi testado noutros países com sucesso, retira o conhecimento que existe hoje só nos exércitos profissionais e alarga esse conhecimento de forma mais abrangente à própria população. E isso só por si é uma capacidade mobilizadora em caso de necessidade e de substituir se houver perdas humanas."

"Há muitas formas de contribuir para a defesa, desde a engenharia, desde uma economia preparada para se especializar em determinados produtos, tem de haver uma ideia muito mais alargada de defesa", defende.

Por fim, o almirante não quis comentar uma eventual candidatura à Presidência da República. "É um cenário sobre o qual não quero falar. Eu sou um militar no ativo, não devo falar sobre cenários políticos. Em termos éticos, ou eu deixo de ser chefe militar ou então tenho de me restringir aos assuntos militares", justifica. "Estou super concentrado na minha missão. Eu sou muito pragmático, não gosto de entrar no mundo dos ses", concluiu.

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