"Cristãos-novos". Metáfora eficaz ou contributo para o preconceito? Montenegro não foi o único a usá-la: "é uma forma de desviar a atenção do essencial"

27 nov 2023, 18:00

A expressão é usada para falar daqueles que se converteram a ideais que desconheciam ou negavam. Para Montenegro, a crítica de Rui Tavares "não faz sentido nenhum". Em tempos, até António Costa a utilizou para se referir ao PCP. Entre os que podiam ser alvo desse preconceito, os judeus, fala-se de uma declaração "infeliz" mas não antissemita

Não somos cristão-novos. Somos cristãos por convicção”. A frase de Luís Montenegro, dita no último sábado no encerramento do 41º Congresso do PSD, tinha um destinatário. Os “cristãos-novos” eram os socialistas, convertidos ao princípio das contas certas.

Mas a metáfora não caiu bem a todos. Em especial, ao porta-voz do Livre, Rui Tavares, que correu à rede social X para dizer que Montenegro só foi salvo de ter feito um comentário “antissemita” pela sua própria ignorância quanto à história do país que ambiciona liderar.

“A única coisa que salva Montenegro de ter dito uma das coisas mais antissemitas ditas por um líder de partido político em Portugal é provavelmente tê-lo dito a coberto de uma das maiores ignorâncias de um líder de partido político acerca da história do país que quer governar”, escreveu Rui Tavares.

A discussão instalou-se. De um lado os que defendem que Montenegro se limitou a uma metáfora, do outro os que argumentam que essa metáfora traduz um passado que é preciso evitar.

À CNN Portugal, Luís Montenegro considera que “essa publicação não faz sentido nenhum”. “É apenas uma forma - arrogante e indelicada, diga-se - de desviar a atenção do essencial”, responde por escrito.

Para o presidente do PSD, a expressão, “como resulta da explicação e encadeamento do raciocínio que apresentei, tem um significado literal e não histórico”. “A referência é clara e direta a convertidos por convicção, não por coação”, remata.

Antissemitismo? Ignorância?

As palavras de Rui Tavares foram interpretadas como uma acusação de antissemitismo a Luís Montenegro. Contudo, à CNN Portugal, o líder do Livre descarta que fosse esse o intuito.

“A crítica que faço é que, naquele discurso, Montenegro revelou desconhecimento da história do país que quer governar”, já que muitos judeus e muçulmanos se viram obrigados a converter-se ao Cristianismo para evitar a expulsão ou a punição da Inquisição.

Tavares lembra que os cristãos-novos foram “batizados à força” e viviam sempre sob suspeita. Por um lado, “se a Inquisição achasse que não eram suficientemente sinceros, perseguia-os e levava-os à fogueira”. Por outro, “se demonstrassem ser muito católicos, eram considerados fanáticos”.

Para o também historiador, “eram colocados numa posição em que nunca poderiam ganhar”. “Uma pessoa não se podia candidatar a empregos, por exemplo, nas universidades, sem provar que nenhum dos seus avós ou bisavós não eram cristãos-novos”. É, por isso, “um dos maiores erros da história deste país”.

Tavares reconhece que Montenegro usou uma “metáfora infeliz”. “Mas se tivesse noção do seu significado mais profundo, não a teria usado”. O deputado do Livre descarta, contudo, que Montenegro tenha de pedir desculpas publicamente por estas declarações.

Eficaz? Talvez não

“Compreendemos que a frase proferida por Luís Montenegro possa ser considerada ofensiva e antissemita. Não acreditamos, contudo, que quisesse usar a frase que usou com uma intenção antissemita ou de desrespeito aos judeus. É uma frase infeliz. O que não faz dela, por si só, uma frase antissemita. Luís Montenegro usou uma metáfora que objetivamente não deve ser usada por responsáveis políticos que querem uma sociedade plural, tolerante e inclusiva”, reage à CNN Portugal David Botelho, presidente da Comunidade Israelita de Lisboa.

Já o historiador Manuel Loff considera que Rui Tavares foi “exagerado” na reação, não acreditando que tenha existido uma intenção antissemita de Montenegro no uso da expressão. Mas não iliba o presidente do PSD de culpas. Antes pelo contrário: “foi desastrado, preconceituoso e ineficaz”.

Recordando que nos séculos XVII e XVII, a Igreja Católica e a Inquisição suspeitavam das conversões de judeus e muçulmanos, diz que esta expressão nos dias de hoje “é a manifestação típica do preconceito relativamente a uma nova entidade” e à verdade da conversão.

Mas, se Montenegro queria ser eficaz na metáfora, podia ter-lhe saído o tiro pela culatra, descreve o historiador: “Não tenho a certeza de que a grande maioria dos portugueses de 2023 saiba o que são cristãos-novos”.

Havia alternativas que poderiam ter feito o efeito desejado: “ser mais papista do que o Papa” ou simplesmente dizer que “a conversão socialista à política de contas certas não era sincera”.

Uma expressão recorrente

Esta não foi a primeira vez que Luís Montenegro utilizou a expressão “cristãos-novos” para se referir à mudança de postura dos socialistas quanto às contas certas. Basta procurar para encontrar uma outra referência, em agosto, durante a Festa do Pontal. O que mudou foi mesmo o contexto, porque agora há uma corrida aberta ao cargo de primeiro-ministro.

“O PSD não é populista nem demagógico. Era o que faltava que fossem os cristãos-novos da disciplina orçamental virem dizer ao PSD, que teve de corrigir toda a vida os desmandos desses cristãos-novos, o que é ter disciplina orçamental”, afirmou na altura.

Na altura, o site Esquerda.Net, ligado ao Bloco de Esquerda, publicou um artigo precisamente a criticar o uso dessa expressão.

Contudo, o uso dessa expressão não é um exclusivo dos sociais-democratas. Se recuarmos a 2015 encontramos uma declaração de António Costa que também refere “cristãos-novos”, desta vez para se referir aos comunistas, que se tornaram à altura parceiros de geringonça. “O PCP não teve de dar uma cambalhota para, de um dia para o outro, passar de campeão da defesa do escudo para se tornar no cristão-novo da defesa do euro”, disse então.

Outros responsáveis políticos têm usado a expressão, também sem tanta polémica, mas sempre com o mesmo intuito: mostrar como houve uma conversão a novos ideais que desconheciam ou em que não acreditavam.

Inclusive os democratas-cristãos. Em 2021, na corrida à liderança do CDS-PP, Nuno Melo usou a expressão para criticar os “cristãos-novos” do partido. Mais recentemente, o vice-presidente Paulo Núncio também falou dos “cristãos-novos que até há pouco tempo diziam haver mais vida para além do défice”, também numa referência aos socialistas.

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