Há boas e más notícias para quem tem crédito à habitação. Prestação diminui em junho, mas a descida dos juros vai ser mais lenta

31 mai, 07:00

Expectativa de descida de taxas de juro pelo BCE continua a fazer descer as taxas Euribor e as prestações do crédito à habitação. Mas nem tudo são boas notícias. Confira as simulações

A descida de taxas de juro por parte do Banco Central Europeu (BCE) na reunião da próxima quinta-feira deixou de ser uma hipótese e parece ser, agora, uma certeza. E empurrada por essa certeza, as taxas Euribor, que servem de indexante à larga maioria dos créditos à habitação em Portugal, voltaram a descer em maio. Esta descida, por sua vez, vai permitir uma diminuição na prestação a pagar ao banco para quem tem contratos a rever em junho.

As boas notícias em matéria de taxas de juro e do seu efeito no crédito à habitação ficam, no entanto, por aqui. Depois, apenas haverá notícias menos boas: as taxas de juro deverão continuar a descer, mas a descida será menor do que a esperada no início do ano.

Primeiro, as boas notícias

No início da semana passada, a presidente do BCE, Christine Lagarde, dava mostras de um enorme otimismo e, numa entrevista a uma televisão irlandesa, citada pela agência Reuters, dizia estar “muito confiante” de que o BCE tinha a “inflação sob controlo”, reforçando os sinais de que na reunião da próxima semana haverá uma primeira descida das taxas.

Este sentimento já se vinha a fazer sentir nos mercados, com a generalidade dos analistas a apontarem para junho como o momento do início dos cortes nas taxas de juro. Mas nunca como agora se tinha revelado uma posição tão unânime. Uma sondagem da Reuters, realizada em maio, dava conta disso mesmo: os 82 economistas consultados pela agência apostaram que se verificaria um corte de 0,25 pontos percentuais nas principais taxas de juro do BCE.

Para este otimismo não é alheio o facto de já parecerem longínquos os tempos em que a taxa de inflação na zona euro bateu o seu máximo histórico, quando em outubro de 2022 atingiu os 10,6%. Em março e abril de 2024 a taxa de inflação manteve-se inalterada nos 2,4% e a expectativa que existe é que, esta sexta-feira, quando forem conhecidos os dados de maio, o valor seja de 2,5%. Uma ligeira subida a que não é alheio o facto de há um ano, a taxa de inflação ter recuado de forma expressiva de 7% para 6,1%.

Agora, as notícias menos boas

E se o caminho que está a ser feito pela inflação parece deixar otimista a líder do BCE, já os dados dos salários na zona euro dão sinais em sentido contrário.

Os dados da evolução dos salários na zona euro no último trimestre do ano passado mostraram uma desaceleração, com a taxa de crescimento a recuar de 4,7% no terceiro trimestre, para 4,45% no quarto trimestre. Em fevereiro, Lagarde comentava estes dados e dizia que, apesar de encorajadores, não eram ainda suficientes, e apontava para as informações do primeiro trimestre de 2024 para retirar mais ilações. Ora, esses dados foram conhecidos na semana passada e, ao contrário dos anteriores, não parecem encorajadores no jargão do BCE: o crescimento voltou a acelerar de 4,45% para 4,69%.

“O BCE colocou recentemente muita ênfase na descida do crescimento dos salários como condição para a redução das taxas e a questão é saber até que ponto este aumento inesperado o irá assustar antes da reunião de junho”, explicava um analista citado pela Reuters.

Apesar das dúvidas, o corte de taxas em junho parece garantido. A questão é que se no início do ano os mercados financeiros apontavam para seis descidas de taxas até ao final de 2024, agora apontam para apenas duas. E só a líder do BCE, na conferência de imprensa que se segue à reunião de política monetária de dia 6 de junho, poderá dissipar as dúvidas que ainda existem.

Os economistas ouvidos pela Reuters parecem, apesar de tudo, mais otimistas que os mercados. Dos 82 economistas ouvidos pela agência, 55 esperam que o BCE, depois do corte de junho, corte as taxas de juro por mais duas vezes este ano. Mas dos 77 participantes comuns nos inquéritos deste mês e de abril, mais de um quarto, 20, prevê agora menos cortes nas taxas do que previa antes.

Prestação a pagar ao banco desce

Independentemente do que vier a decidir o BCE na próxima reunião e do que disser Christine Lagarde após essa mesma reunião, quem tem os seus contratos de crédito à habitação revistos em junho vai sentir uma diminuição da prestação a pagar ao banco, isto porque o valor médio das taxas Euribor em maio recuou novamente.

Para um empréstimo de 150 mil euros, indexado à Euribor 6 Meses – a mais utilizada atualmente em Portugal – com um spread (margem do banco) de 1% a diferença chega a ultrapassar os 23 euros: em dezembro pagava uma prestação ligeiramente superior a 800 euros por mês, em junho irá pagar um valor inferior a 780 euros.

Apesar da descida, se compararmos com a prestação que pagava há dois anos, quando o BCE começou a subir taxas, a diferença ainda é enorme: paga agora mais 300 euros do que pagava na altura, uma subida de quase 65%.

Veja as simulações:

Quanto aumentou e como vai evoluir em junho a prestação da casa

Empréstimo a 30 anos com spread de 1% || Euribor de maio apenas com dados até dia 29

 

                             EURIBOR 3 MESES

  Empréstimo de 50 mil euros
  Pagava Evolução
Junho de 2022 152,11  
Setembro 169,9 17,79
Dezembro 205,35 35,45
Março de 2023 227,12 21,77
Junho 247,54 20,42
Setembro 259,24 11,7
Dezembro 264,8 5,56
Março de 2024 263,38 -1,42
Junho 260,3 -3,08
Aumento face a 2022 108,19

 

  Empréstimo de 100 mil euros
  Pagava Evolução
Junho de 2022 304,22  
Setembro 339,81 35,59
Dezembro 410,7 70,89
Março de 2023 454,25 43,55
Junho 495,08 40,83
Setembro 518,48 23,4
Dezembro 529,6 11,12
Março de 2024 526,77 -2,83
Junho 520,59 -6,18
Aumento face a 2022 216,37

 

  Empréstimo de 150 mil euros
  Pagava Evolução
Junho de 2022 456,33  
Setembro 509,71 53,38
Dezembro 616,05 106,34
Março de 2023 681,37 65,32
Junho 742,63 61,26
Setembro 777,71 35,08
Dezembro 794,4 16,69
Março de 2024 790,15 -4,25
Junho 780,89 -9,26
Aumento face a 2022 324,56

 

  Empréstimo de 200 mil euros
  Pagava Evolução
Junho de 2022 608,43  
Setembro 679,61 71,18
Dezembro 821,39 141,78
Março de 2023 908,49 87,1
Junho 990,17 81,68
Setembro 1036,95 46,78
Dezembro 1059,19 22,24
Março de 2024 1.053,53 -5,66
Junho 1.041,18 -12,35
Aumento face a 2022 432,75

 

                             EURIBOR 6 MESES

  Empréstimo de 50 mil euros
  Pagava Evolução
Junho de 2022 157,53  
Dezembro 218,48 60,95
Junho de 2023 256,42 37,94
Dezembro 267,51 11,09
Junho de 2024 259,63 -7,88
Aumento face a 2022 102,1

 

  Empréstimo de 100 mil euros
  Pagava Evolução
Junho de 2022 315,07  
Dezembro 436,97 121,9
Junho de 2023 512,85 75,88
Dezembro 535,03 22,18
Junho de 2024 519,26 -15,77
Aumento face a 2022 204,19

 

  Empréstimo de 150 mil euros
  Pagava Evolução
Junho de 2022 472,6  
Dezembro 655,45 182,85
Junho de 2023 769,27 113,82
Dezembro 802,54 33,27
Junho de 2024 778,88 -23,66
Aumento face a 2022 306,28

 

  Empréstimo de 200 mil euros
  Pagava Evolução
Junho de 2022 630,14  
Dezembro 873,93 243,79
Junho de 2023 1025,7 151,77
Dezembro 1.070,06 44,36
Junho de 2024 1.038,51 -31,55
Aumento face a 2022 408,37

 

                              EURIBOR 12 MESES

  Empréstimo de 50 mil euros
  Pagava Evolução
Junho de 2022 167,5  
Junho de 2023 260,89 93,39
Junho de 2024 255,62 -5,27
Aumento face a 2022 88,12

 

  Empréstimo de 100 mil euros
  Pagava Evolução
Junho de 2022 334,99  
Junho de 2023 521,78 186,79
Junho de 2024 511,24 -10,54
Aumento face a 2022 176,25

 

  Empréstimo de 150 mil euros
  Pagava Evolução
Junho de 2022 502,49  
Junho de 2023 782,68 280,19
Junho de 2024 766,86 -15,82
Aumento face a 2022 264,37

 

  Empréstimo de 200 mil euros
  Pagava Evolução
Junho de 2022 669,98  
Junho de 2023 1.043,57 373,59
Junho de 2024 1.022,48 -21,09
Aumento face a 2022 352,5

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