Substitui as refeições principais por produtos proteicos? Aprenda a adaptar o consumo de proteína à sua rotina

CNN Portugal , CNC
17 jun, 11:00
Pegada carbónica da proteína (foto: Farhad Ibrahimzade/Unsplash)

Especialistas concordam, a proteína, apesar de benéfica, não é milagrosa. Como tal, se não faz exercício físico, mas substituir as refeições principais por um pudim ou iogurte proteico, saiba que apesar de ficar com o apetite saciado, está a possibilitar o desenvolvimento de carências alimentares

A tendência parece estar a instalar-se nos hábitos alimentares de muitas pessoas: trocar uma refeição ao almoço ou jantar completo por um produto proteico, como um simples iogurte. Mas é esta uma opção saudável? E todas as pessoas podem consumir sem limite produtos com proteína?

“Somos diariamente bombardeados com notícias sobre alimentação saudável, pelo que se torna difícil filtrar a informação e perceber o que é, de facto, verdade. Por isso, efetivamente assiste-se a essa realidade de se trocarem refeições completas por meramente produtos proteicos”, começa por sublinhar a nutricionista Lillian Barros.

Inicialmente, este tipo de produtos, como iogurtes proteicos, barras de proteína, pudins proteicos, mousses de proteína, foi criado a pensar nos praticantes de exercício físico, pois ajudam a criar massa muscular e são normalmente baixos em hidratos de carbono, mas depressa o seu consumo se alargou, tendo-se há algum tempo tornado até moda

E apesar de a proteína ser um elemento vital na alimentação não é recomendado que exista uma substituição das refeições principais por produtos proteicos. Até porque, segundo os especialistas, esse hábito pode ter consequências. “É necessário consumir uma variedade de alimentos para ter uma alimentação saudável”, lembra Lillian Barros, notando que esse facto faz desde logo cair por terra a ideia de que se pode substituir uma “refeição completa, por produtos apenas ricos em proteína”.

Contudo, pode ser uma opção comer um iogurte de proteína e, por exemplo, uma banana, entre refeições para ajudar a saciar o apetite até às refeições principais.

Também o nutricionista Ricardo de Castro, que diz verificar que há quem hoje em dia troque refeições principais por produtos proteicos, alerta para os riscos dessa opção. É que apesar da proteína ser importante na alimentação, o corte de refeições completas e a sua substituição por produtos proteicos pode levar a carências nutricionais, nomeadamente: “patologias (anemias, por exemplo)”, diz o nutricionista.

Uma alimentação variada

Lillian Barros frisa outro problema.“Estes produtos contêm geralmente aditivos.  Principalmente as barras proteicas estão carregadas de edulcorantes, corantes e conservantes, os quais em excesso têm efeitos bastante negativos”, diz, notando o que, essa situação pode “levar a alterações da microbiota intestinal, que consiste numa grande variedade de bactérias, vírus, fungos e outros microrganismos unicelulares que habitam o nosso organismo, e causar sintomas como barriga inchada, flatulência, diarreia e mal-estar”.

Um dos aspetos que, segundo os nutricionistas, é preciso dar atenção é a dose diária consumida de proteína. “Um atleta pode tolerar bem fazer num dia um batido de proteína, mais um iogurte proteico e ainda um pudim proteico, para além das refeições principais normais. Mas uma pessoa que tenha maior sensibilidade intestinal poderá não tolerar mais do que um iogurte proteico por dia.” explica Lillian Barros.
Já Ricardo de Castro acrescenta: “As necessidades de proteína são calculadas pelo peso e, por isso, devemos pensar que se o peso é pequeno o cálculo resultará numa dose inferior. É chocante perceber que senhoras com 55kg estão a consumir doses cavalares de proteína por dia.”

É também importante considerar se existe ou não algum tipo de problema de saúde que possa ditar o consumo de proteína, nomeadamente alguma doença renal, segundo os especialistas.

De acordo com os dados do Inquérito Alimentar Nacional e de atividade física (IANF), entre 2015 e 2016, os portugueses já consumiam diariamente cerca de 19,9% de proteína, o que Ricardo de Castro considera ser um indicador de estarmos a “consumir, no geral, muita proteína”.  O que pode estar, nota o nutricionista, relacionado com tendências de moda. “No caso de quem procura escolhas alimentares melhores o problema acentua-se com o endeusamento da proteína e a diabolização dos hidratos de carbono”. O que significa, avisa, que há hidratos de carbono positivos que estão a ser postos de lado, como os que estão presentes na fruta.

Para Lillian Barros “o maior problema de consumir proteína em excesso é comprometer a ingestão dos restantes macronutrientes, igualmente importantes.”

Adapte o seu consumo de proteína à sua rotina

Até porque quem não é praticante de desporto, não tem necessidade de ingerir produtos proteicos, sendo suficiente o normal consumo de alimentos ricos em proteína, desde que adaptado ao peso e rotina de cada pessoa. 

“Um indivíduo que sai do trabalho e ainda tem de apanhar um comboio de uma hora até casa e preparar o jantar, pode fazer todo o sentido comer uma peça de fruta e beber um batido de proteína até chegar a casa, visto que ainda vai demorar muito até à refeição seguinte. Poderá também fazer, por exemplo, uma sandes com ovo, mas provavelmente não será tão prático e seguro para andar o dia todo na mochila. Portanto, dependerá muito do que é mais fácil de encaixar na rotina.” sugere a nutricionista Lillian Barros.

Devido à falta de estudos sobre os efeitos que produtos proteicos têm nas crianças, a nutricionista recomenda que este tipo de produtos não seja consumido pelos mais novos. Para estes o ideal é recorrer a fontes naturais de proteína, como os ovos, a carne ou o peixe.

Produtos proteicos podem ser uma alternativa para quem não consome proteína suficiente
Já para os idosos a situação pode ser diferente. Segundo o nutricionista Ricardo de Castro, o consumo de produtos proteicos pelos idosos pode ajudar a “prevenir a perda muscular”. E pode ser útil para “indivíduos que necessitam de aumentar a sua massa muscular por lesão ou baixa quantidade por questão genética, acompanhado de treino de força”.

O consumo de produtos proteicos pelas pessoas de idade mais avançada também é uma sugestão de Lillian Barros. “Um idoso que não ingere fonte proteica suficiente às refeições, mas gosta de fazer um doce no final da refeição, pode recorrer a um pudim proteico para complementar. Ou no caso de um indivíduo que tem dificuldade em controlar a fome, pode ser uma estratégia para aumentar os níveis de saciedade, visto a proteína ser o
macronutriente mais saciante”.

A ingestão de produtos proteicos por si só “não é milagrosa”. “É sempre necessário que o resto do dia alimentar seja equilibrado e, se possível, que haja o complemento da atividade física” sublinha Lillian Barros.

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