“O Natal de Charlie Brown”: quando o ouvimos, sentimo-nos de novo crianças

CNN , AJ Willingham
25 dez 2022, 09:00
Charlie Brown (CNN)

Este pequeno especial de Natal, com as suas músicas peculiares, percorreu um longo caminho em 57 anos

As melodias familiares de “O Natal de Charlie Brown” transportam-nos para outros tempos. As célebres notas da abertura do filme fazem-nos sentir como se fossemos novamente crianças deitadas na cama depois do jantar de Natal, enquanto os sons subtis do gira-discos se fazem ouvir do outro lado da casa.

Embora o querido especial de televisão seja hoje inquestionavelmente icónico, o seu lugar na história da música de Natal nem sempre foi assegurado. Em 1965, quando “O Natal de Charlie Brown” foi exibido pela primeira vez, as músicas de jazz natalícias não eram propriamente uma coisa comum. E o jazz em especiais de televisão para a família também não.

Foi necessário um conjunto de mentes brilhantes e extravagantes, e uma infinidade de inspirações inesperadas, para construir esta peça de arte. A fórmula musical que criaram não se limitou a fazer com que “O Natal de Charlie Brown” fosse um sucesso instantâneo. Ajudou também a mudar o som da música de Natal das gerações futuras.

O primeiro ingrediente: algo inesperado

O homem responsável por “O Natal de Charlie Brown”, e pela maioria das outras músicas associadas a mais de uma dúzia de especiais de televisão dos “Peanuts”, é Vince Guaraldi. Considerado um pianista proeminente na altura, Guaraldi trouxe-nos uma musicalidade feroz que aperfeiçoou tocando com algumas das melhores bandas de jazz do Norte da Califórnia, onde nasceu.

Porém, a ideia de combinar o jazz com a banda desenhada “Peanuts” começou com o produtor de televisão Lee Mendelson, que admirava o trabalho do cartoonista Charles Schulz e estava determinado a trazer as suas personagens de banda desenhada para o pequeno ecrã. Por qualquer razão, Mendelson mostrou-se interessado na ideia de que o jazz seria o acompanhamento perfeito de um especial dos “Peanuts”. E foi assim que aconteceu.

O compositor de jazz Vince Guaraldi toca piano por volta de 1962. Créditos: Michael Ochs Archives/Michael Ochs Archives/Getty Images

“Parece absurdo quando olhamos para o passado, mas o jazz não era um género de música muito famoso”, explica Derrick Bang, um especialista de jazz, jornalista de entretenimento e historiador dos “Peanuts”.

“Estamos a falar do início da década de 1960. Uma grande parte do país associava-o a artistas negros. Muita gente pensava que o som era demasiado ‘excêntrico’, e havia uma sensação persistente de que o género era considerado pecaminoso e depravado”, diz. “As produções que incluíam jazz, tal como o célebre ‘The Man with the Golden Arm’ (O Homem do Braço de Ouro), lidaram muito com críticas negativas.”

Por outras palavras, não era a mesma música clássica alegre presente nos filmes da Disney ou Looney Tunes. Mas mesmo assim Mendelson sabia o que queria. E, quando ouviu a música “Cast Your Fate to the Wind” de Guaraldi na rádio enquanto conduzia por São Francisco, ele sabia de quem o queria.

Mendelson convenceu Guaraldi a trabalhar com ele num documentário de 1963 chamado “A Boy Named Charlie Brown” (Um menino chamado Charlie Brown). O trabalho nunca chegou a ser exibido, mas o álbum que nasceu deste projeto, o “Jazz Impressions of a Boy Named Charlie Brown”, foi um sucesso. Foi o suficiente para Mendelson convidar Guaraldi para um novo projeto frenético à última hora chamado “O Natal de Charlie Brown”.

O segundo ingrediente: algo novo

Como é que um artista de jazz iria construir um cenário musical natalício para um grupo de crianças de desenhos animados que a maior parte das pessoas conhecia da secção de banda desenhada nos jornais de domingo?

A resposta estava no género “bossa nova” do Brasil. O termo significa “nova tendência” em português, e é caracterizado por ritmos sincopados de samba, progressões de acordes invulgares e uma percussão descontraída.

“Se por um momento fingir que não conhece estes tons e melodias icónicas, irá reconhecê-los imediatamente como bossa nova”, diz Bang. “E esse som é, por natureza, alegre, animador e feliz.”

Em meados da década de 1960, a bossa nova estava a ganhar uma grande popularidade nos Estados Unidos. “Garota de Ipanema”, uma das canções mais conhecidas da bossa nova, foi um sucesso na altura e ganhou um Grammy Award na categoria “Música do Ano” em 1965.

Por curiosidade, a canção que levou Mendelson ao trabalho de Guaraldi aparece inicialmente no lado B de "Jazz Impressions of Black Orpheus", um álbum inspirado na bossa nova que tornou Guaraldi famoso. O músico compôs e gravou o álbum em homenagem ao filme franco-brasileiro vencedor de um Óscar, que conta uma clássica história da tragédia grega numa favela do Rio de Janeiro.

“O jazz estava num ponto de transição”, diz Bang. "A bossa nova foi uma das coisas que ajudou a facilitar o seu rumo à popularidade”.

Uma imagem de “O Natal de Charlie Brown”, 1965. Créditos: Allstar Picture Library Limited/Alamy Stock Photo

Ao criar música para o mundo dos “Peanuts”, Guaraldi adotou uma técnica que não iria entrar no mundo cinematográfico durante a próxima década.

“O Guaraldi tinha uma facilidade extraordinária para criar melodias que cativavam os ouvintes”, conta Bang. “Então, ele criou estas melodias que se tornaram temas, e adequavam-se perfeitamente a personagens individuais dos ‘Peanuts’”. Podem ser ouvidos exemplos desta técnica em especiais subsequentes dos “Peanuts” para personagens como a Peppermint Patty e o antagonista do Snoopy, o Barão Vermelho.

Um tema musical que indica o aparecimento de uma personagem, grupo ou momento é chamado de leitmotif. Embora o conceito tenha origem na música orquestral e de ópera, e tenha aparecido nos primeiros filmes, não se tornou tão predominante no cinema até ao trabalho inspirador de John Williams na trilogia original “Star Wars”, nos anos 70 e 80.

O terceiro ingrediente: algo que perdura

No inverno de 1965, depois de anos a tentar conseguir que o grupo “Peanuts” aparecesse na televisão, “O Natal de Charlie Brown” finalmente estreou na televisão. No entanto, houve quem se mostrou pouco otimista. Segundo consta, os executivos da CBS detestavam as escolhas artísticas, detestavam a banda sonora em jazz, e estavam convencidos de que seria o primeiro e último especial Charlie Brown de sempre.

No entanto, as audiências discordaram. O especial foi um sucesso imediato, e o seu êxito fez com o especial se tornasse numa tradição de Natal duradoura.

“Depois de ter sido transmitido, os produtores pensaram que aquela seria a sua última vez na televisão. A repetição anual de um especial festivo não era algo comum naquela época”, diz Bang. “Mas a CBS continuou a reproduzi-lo, ano após ano. E é assim que se estabelece uma tradição. Isto foi antes das videocassetes, por isso as pessoas sabiam que tinham de se sentar e assistir a uma determinada hora. Tornou-se uma tradição familiar, semelhante a decorar a árvore ou embrulhar presentes”.

O impacto musical de “O Natal de Charlie Brown” demorou mais tempo a revelar-se.

Vince Guaraldi, à esquerda, toca piano num festival de jazz em 1966. Créditos: Duke Downey/San Francisco Chronicle/Getty Images

“Devo dizer que este período da carreira de Guaraldi foi o que teve menos impacto durante a sua vida”, diz Bang. “Toda a gente queria cantar a sua música ‘Cast Your Fate to the Wind’, mas ninguém tinha interesse no seu trabalho para os ‘Peanuts’”.

Como é evidente, músicos de jazz, especialmente artistas negros cujo trabalho era frequentemente subvalorizado por parte do público, já tinham produzido álbuns de Natal antes. Mas “O Natal de Charlie Brown” foi a primeira vez que essa combinação peculiar impactou fortemente a cultura americana, e aconteceu décadas antes de as pessoas optarem por reproduzir o género com alguma regularidade.

O ressurgimento de “O Natal de Charlie Brown” como uma proeza musical começou em 1986, quando o grandioso artista de jazz David Benoit fez a sua própria interpretação de “Linus and Lucy” no seu álbum “This Side Up”. No ano seguinte, o álbum original apareceu pela primeira vez na tabela de vendas de álbuns de Natal da Billboard. Uma onda geral de interesse pelo jazz durante a década seguinte impulsionou ainda mais o trabalho de Guaraldi, e as coisas entraram numa nova era quando Cyrus Chestnut, outro grande artista de jazz, interpretou toda a banda sonora do especial de Charlie Brown em 2000.

Durante os anos 2000, algumas canções do especial voltaram a entrar nas tabelas de forma consistente. O álbum foi remasterizado, relançado e transmitido, e em 2021 tornou-se o primeiro álbum de jazz a chegar ao Top 10 da Billboard. Em 2021, a Billboard considerou “O Natal de Charlie Brown” o melhor álbum de Natal de todos os tempos. Este ano, a RIAA atribuiu ao álbum a certificação “quíntuplo de platina”, assinalando 5 milhões de vendas.

Uma senhora ouve música do álbum “O Natal de Charlie Brown” no seu telefone, 2013. Créditos: Daniel Kalker/dpa/AP

Durante este período, Bang salienta que houve um aumento significativo de lançamentos de álbuns de jazz natalícios. Quer tenha a popularidade do género musical sido influenciado por “O Natal de Charlie Brown”, ou um crescimento no interesse geral no Jazz, ele descreve este acontecimento como um “fenómeno paralelo" incontestável.

Bang, que escreveu e analisou as pautas do relançamento especial expandido do álbum este ano, diz que o impacto cultural da música de “O Natal de Charlie Brown” é algo nunca visto.

“Durante a realização desse projeto, tive o privilégio de falar com o baterista de Guaraldi, Jerry Granelli, antes de ele morrer”, diz Bang. “Existe uma espécie de indústria caseira de grupos de jazz que tocam os êxitos ‘Charlie Brown’ durante a época festiva, e ele tinha começado a fazê-lo em 2013. Ouvia-se a alegria na sua voz quando descrevia as famílias que se aproximavam após o espetáculo, por vezes três gerações de cada vez.”

“Um avô, acompanhado pelo seu filho, acompanhado pelo seu neto, todos lhe diziam o quanto estas músicas eram importantes para eles.”

Este pequeno especial de Natal, com as suas músicas peculiares, percorreu um longo caminho em 57 anos. Mas o que mais perdura é que, não importa quantos álbuns sejam vendidos ou até que ponto o seu impacto ressoe, quando o ouvimos, sentimo-nos de novo crianças.

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